Crítica | Caramuru – A Invenção do Brasil

estrelas 4

Um dos mitos fundadores da ideia de Brasil ganhou uma versão turbinada em 2001. Caramuru – A Invenção do Brasil, dirigido por Guel Arraes, cineasta que também assinou o roteiro, em parceria com Jorge Furtado, flerta com os acontecimentos históricos narrados por Santa Rita Durão, em seu texto literário clássico, dando-lhe nova roupagem.

Produzido pela Globo Filmes como minissérie, o produto foi transformado em filme, por sinal, uma produção cara para os moldes brasileiros, sendo a primeira a ter sido convertida para o formato HDTV. Com relações inevitáveis com o clássico moderno Macunaíma, de Mário de Andrade, o ponto central do filme é a história de Diogo Álvares (Selton Mello), pintor português, responsável por ser uma das lendas que povoam a fundação mítica do Brasil.

Antes de chegar em terras brasileiras, o artista é designado por Dom Jaime, o cartógrafo do rei, a ilustrar os  mapas utilizados por Pedro Álvares Cabral em suas viagens. No entanto, ao aceitar o trabalho, perde os mapas após cair nos encantos da perdulária e sedutora Isabelle (Débora Bloch, ótima). Deportado, adentra nua aventura com direito a naufrágio, contato com os indígenas, relação triangular amorosa com outros mitos, tais como Paraguaçu (Camila Pitanga) e Moema (Débora Secco), além de uma amizade inusitada com o cacique Itaparica (Tonico Pereira).

Com a dinamicidade dos estilos de Guel Arraes e Jorge Furtado, mergulhamos através das imagens e entramos em contato com o passado e o presente, numa viagem audiovisual reflexiva e bastante crítica. No que tange aos aspectos visuais, Caramuru – A Invenção do Brasil possui montagem ao estilo de videoclipe, com cortes que faíscam diante do espectador, além de uma ótima trilha sonora, direção de arte e de fotografia fascinante e figurino que pede alguns comentários extras.

Assinado por Cao Albuquerque, o figurino utiliza todos os elementos da teoria do cinema. É simbólico, realista e para-realista. Ao misturar tendências para parodiar os temas abordados pelo filme, transforma tudo num pastiche cheio de referências, num ótimo exercício de carnavalização da linguagem. Há destaque também para cenografia, com enquadramentos bastante movimentados, captados em locais como a praia de Picinguaba, em Ubatuba, e no Palácio de Queluz e Mosteiro da Batalha, em Portugal.

Ao longo dos seus 85 minutos, a obra possui um valoroso teor didático, com a possibilidade de ser alvo de estudo para estudantes em vários níveis, bem como material para professores de Língua, Literatura e História. Polissêmico, Caramuru – A Invenção do Brasil utiliza o tom farsesco para se comunicar com a plateia, atendendo, assim, as demandas atuais no que tange ao humor, ao cômico cheio de confusões histriônicas, sem perder de vista, obviamente, o padrão Globo de “qualidade”.

Caramuru – A Invenção do Brasil Brasil, 2001. 
Direção: Guel Arraes e Jorge Furtado
Roteiro: Guel Arraes e Jorge Furtado
Elenco: Camila Pitanga, Deborah Secco, Diogo Vilela, Luís Melo, Marco Nanini, Pedro Paulo Rangel, Selton Mello, Tonico Pereira
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.