Crítica | Carandiru

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estrelas 4,5

O feito alcançado por Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, pode ser comparado a pouquíssimas produções tupiniquins reconhecidas mundo afora, tendo Central do Brasil e O Beijo da Mulher Aranha e Tropa de Elite como principais exemplos. Elogiadíssimo tanto em sua terra de origem quanto na grande Hollywood, o filme de Meirelles levou quatro indicações ao Oscar daquele ano, inclusive o de melhor diretor para o mesmo e melhor roteiro adaptado para Bráulio Mantovani. Cidade de Deus pode ser considerado como o primeiro blockbuster nacional daquele início de século.

Agora, por que tecer tais comentários sobre as conquistas de Cidade de Deus se o filme a ser avaliado neste texto é Carandiru? Simples: a história do garoto Buscapé dentro de uma favela foi o pontapé inicial para a inauguração de um novo gênero dentro do nosso cinema, gênero este que visa, principalmente, retratar de forma crua e visceral a realidade das classes sociais menos favorecidas em nosso país. No filme em questão, o diretor Hector Babenco (do já mencionado O Beijo da Mulher Aranha) adaptou para as telas o livro Estação Carandiru, do médico Dráuzio Varella, onde este narrava suas experiências com os presidiários da extinta Casa de Detenção, na época conhecida como Carandiru, antes do massacre de 111 presos ocorrido no fatídico 2 de Outubro de 1992.

Contado através de uma narrativa episódica, onde alguns dos presos se aproximam do médico e relatam suas histórias de vida, o roteiro do próprio Babenco em conjunto com Fernando Bonassi e Victor Navas injeta menos sua força na gama de personagens e mais no impacto e crueza das imagens. Não que os próprios personagens não façam parte do incômodo sentimento que o filme nos desperta ao longo de seus (desnecessários, diga-se) 148 minutos de duração. A figura de Rodrigo Santoro, que interpreta um homossexual bastante afetado, talvez seja a presença mais chamativa do longa, se formos analisar pela chamativa visual. Mas quando se trata de desenvolver conflitos, o filme peca: a maioria das histórias são interessantíssimas e até bastante humanas, mas desenvolvidas com certo desleixo, como se houvesse uma urgência em relatar o maior número de tramas possível. O resultado: Carandiru é um filme de personalidade inconstante, frio em certos momentos e inexplicavelmente pretensioso em outros. Mas como já foi dito, o objetivo de Babenco é causar através de suas imagens.

Imagens esta que não poupam esforços em exibir a (na ausência de um termo mais adequado) “desglamourização” das situações dos presidiários, ao mesmo tempo em que injeta uma estranha poesia dentro de suas mesmas condições. Enquanto que o show da musa Rita Cadillac traz um quê de vulgaridade (sem soar gratuita, vale ressaltar), a sequência do jogo de futebol ao som do Hino Nacional é capaz de arrancar emoções sinceras, independente do julgamento que o espectador faça dos personagens na tela. Nada mais impactante, entretanto, do que os momentos finais do longa, onde acompanhamos o genocídio cometido durante uma rebelião dos presos, onde Babenco mistura cenas ficcionais com imagens documentadas, alcançando assim um nível de choque que, apenas para fazer uma comparação, supera a cena do garotinho que leva um tiro no pé em Cidade de Deus. Talvez a sequência seja um tanto reducionista, afinal, a polícia é retratada apenas como sendo a vilã da história, o que impede que alguma imparcialidade exista neste ponto. Mas julgar o filme por essa vertente seria injusto, já que o que vemos na tela é aquilo que foi retratado de forma pública: o massacre aconteceu, milhares de vidas foram tiradas naquele dia, e tais lembranças foram enterradas em míseros segundos, no ano de 2002, quando o prédio foi demolido.

Ao concentrar sua força nos fatos que marcaram a existência daquele presídio, e não nas pessoas que eram mantidas lá, Babenco prova que seu objetivo estava mais para relatar a história com o máximo de fidelidade possível, deixando a voz do acontecido falar por si só. Assim, Carandiru, apesar de estar longe de merecer o status de clássico brasileiro, ainda se mostra um relato sincero sobre um dos fatos que marcaram a história do nosso país, assumindo bastante relevância dentro de nosso contexto histórico.

Carandiru (Brasil, Argentina, Itália, 2003)
Direção: Hector Babenco
Roteiro: Hector Babenco, Fernando Bonassi, Victor Navas (baseado no livro de Dráuzio Varella)
Elenco: Luiz Carlos Vasconcelos, Milton Gonçalves, Ivan de Almeida, Ailton Graça, Maria Luísa Mendonça, Aida Leiner, Rodrigo Santoro, Gero Camilo, Lázaro Ramos, Caio Blat, Wagner Moura, Julia Ianina
Duração: 145 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.