Crítica | Caravana da Coragem – Uma Aventura Ewok

caravana da coragem

estrelas 2

Espaço: Lua-floresta de Endor
Tempo: 3 anos após a Batalha de Yavin (3 d.BY)

Todo mundo já teve essa experiência: filmes que assistiram há muitos anos e que adoraram, mas que, assistidos novamente, depois de um longo hiato, “tornam-se” ruins. Faz parte. A memória afetiva nos prega peças e maravilhas do passado são reveladas como porcarias do presente.

Ainda que Caravana da Coragem, telefilme da LucasFilm feito para capitalizar em cima da fofura dos Ewoks, ursinhos de pelúcia introduzidos no cânone de Star Wars em O Retorno de Jedi, encaixe-se no caso que descrevi acima, a película sobreviveu surpreendentemente bem por todos esses anos. Não que seja uma obra classificável como boa ou mesmo recomendável (a não ser para os muito pequenos, claro), mas, despretensiosamente, a narrativa flui sem maiores percalços e os efeitos especiais, uma fusão de stop motion com o uso inteligente das pinturas matte (as pinturas detalhadas de fundo, para dar impressão de profundidade) não envelheceram tanto assim, especialmente se lembrarmos – e eu lembro! – que a aventura televisiva anterior da LucasFilm, o famigerado Star Wars Holiday Special, é um atentado audiovisual.

A história é simples e clichê ao extremo, com um cruzador espacial com a família Towani caindo na lua-floresta de Endor. Quando os pais, Catarine (Fionnula Flanagan) e Jeremitt (Guy Boyd), desaparecem, as crianças Mace (Eric Walker) e Cindel (Aubree Miller) ficam sozinhas e são achadas por Deej (Daniel Frishman), um dos simpáticos Ewoks. Levados para a aldeia, eles – especialmente Cindel – fazem amizade com Wicket (novamente vivido por Warwick Davis) e, depois que o sábio Logray diz que os adultos haviam sido levados pelo monstro Gorax, um pequeno grupo se forma (a “Caravana” do título) para resgatá-los.

Assim, como todo filme desse tipo, com estrutura de videogame, nossos heróis enfrentam obstáculo atrás de obstáculo, conhecem novos personagens e chegam ao “chefe final”, no caso o tal Gorax que, não demora, é derrotado. Simples, objetivo e pouco comprometedor.

Como o objetivo era fazer algo claramente voltado para crianças (muitos de nós, críticos adultos, esquecemos disso…), a mensagem de amizade, coragem e união familiar é o único alvo da fita e ele é atingido eficientemente, mesmo se considerarmos o mundo mais cínico em que vivemos hoje. Claro que um roteiro menos óbvio e mais desafiador, aliado a uma direção menos burocrática, com planos de câmera parada típicos de televisão da época, teriam ajudado a retirar Caravana da Coragem da vala comum para onde esse tipo de produção acaba mentalmente arquivada. Na verdade, “vala comum” não, pois é uma produção dentro do universo de Star Wars, algo que, para os fãs, exige uma “vala não tão comum assim”.

Em termos de atuação, Warwick Davis continua sendo o destaque. Ele arrebatou as crianças (e adultos também, confessem!) como Wicket em O Retorno de Jedi e continua seu trabalho aqui, debaixo de uma fantasia que, assim como no longa para o cinema, inacreditavelmente funciona. E Aubree Miller, como a pequena Cindel, lembra muito o papel de Gertie de Drew Barrymore em E.T. – O Extraterrestre, reunindo ternura com fofura e criando uma boa química com os ursinhos de pelúcia. Quem realmente não funciona é Eric Walker como Mace, o irmão mais velho de Cindel. O ator que, não surpreendentemente, tem um carreira artística pífia, não sabe reagir às situações que seu personagem tem que enfrentar e entrega uma atuação de trincar os dentes e tão exagerada que chega a ser cômica. Sendo uma produção de baixo orçamento para a TV, não é incomum que o elenco seja de baixa categoria, mas, mesmo assim, é incompreensível que sua incapacidade técnica não tenha sido revelada nas audições e olha que, diferente de Star Wars Holiday Special, dessa vez George Lucas manteve todo o controle criativo (algo que, como o mundo descobriria em 1999, não quer dizer absolutamente nada…).

Caravana da Coragem é mais um filme que, sem dúvida alguma, fica melhor devidamente guardado nos recônditos da memória afetiva. Mas, se der vontade de voltar a Endor mais uma vez, a fita até que não desapontará completamente, o que, por si só, já é uma boa notícia.

Obs: Aos que se interessarem, Caravana da Coragem é um telefilme canônico, ou seja, é considerando na cronologia de acontecimentos oficiais do Universo Star Wars. Em termos cronológicos, ele se passa em algum momento entre O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi e muito determinam o ano como sendo o terceiro ano após a Batalha de Yavin, de Guerra nas Estrelas. [comentário seguinte acrescentado graças às dicas de alguns leitores] Claro que, depois que a Disney comprou a LucasFilm e resolveu eliminar do cânone de Star Wars tudo que não fossem os seis filmes, reiniciando o Universo Expandido com uma série de livros e quadrinhos próprios, pode ser que Caravana da Coragem tenha deixado de ser cânone a partir de 1º de janeiro de 2015, o que é uma pena.

Caravana da Coragem – Uma Aventura Ewok (Caravan of Courage: An Ewok Adventure/The Ewok Adventure, EUA – 1984)
Direção: John Korty
Roteiro: Bob Carrau (baseado em história de George Lucas)
Elenco: Eric Walker, Warwick Davis, Fionnula Flanagan, Guy Boyd, Aubree Miller, Burl Ives, Daniel Frishman, Debbie Lee Carrington, Tony Cox
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.