Crítica | Carbono Alterado, de Richard Morgan

Se Dashiell Hammett ou Raymond Chandler sentasse com Philip K. Dick para escrever um romance, Carbono Alterado seria, muito provavelmente, o resultado. E não pode haver elogio maior para essa interessantíssima obra cyberpunk do autor britânico Richard Morgan, em seu début literário e que introduz o personagem Takeshi Kovacs, um ex-soldado de elite das Nações Unidas em um futuro distópico no século XXVI.

Muito semelhante ao que PKD consegue fazer em suas obras, Morgan joga o leitor imediatamente em um universo bem particular e com regras próprias, trabalhando as explicações e contextualizações dentro da narrativa de forma fluida e na medida do necessário para que o leitor entenda o coração de sua trama. E, na linha do que Hammett e Chandler viram a desenvolver mais tarde, a narrativa constante em primeira pessoa, que nos coloca íntimos do narrador e personagem principal e que nos permite ver o mundo e os demais personagens somente através de seus filtros morais, remete aos romances policiais noir que criaram e estabeleceram todo um gênero literário e audiovisual. Morgan não esconde suas inspirações e trabalha seu Kovacs como uma versão futurista de Sam Spade, com direito a uma moral duvidosa, um lado chauvinista saliente, o cigarro e até mesmo a localização de grande parte da história em Bay City, a versão distópica de São Francisco, onde a ação do clássico O Falcão Maltês, de 1930, se passa.

Mas não é só na caracterização do protagonista que Morgan se esmera em homenagear os mestres. Há o uso de femmes fatales, de uma ambientação suja e decadente e uma trama rocambolesca repleta de traições e jogos duplos que vai ganhando complexidade na medida em que avança, mas que é surpreendentemente simples em sua resolução. No entanto, é importante diferenciar o simples do banal. Não há nada de banal no que Morgan escreve, pois – e é aí que Philip K. Dick entra forte – Carbono Alterado faz perguntas incômodas que ficam sem respostas.

Nesse fascinante futuro, a morte é apenas um detalhe, já que a consciência é armazenada em discos e pode ser “baixada” em corpos variados, chamados de “capas”. Ou seja, para aqueles que podem pagar, a morte simplesmente não existe e, sem a morte rondando e desnudando a fragilidade humana, o que exatamente nos sobra, não é mesmo? Essa é a base filosófica que Morgan explora brilhantemente ao ressuscitar Takeshi Kovacs, um ex-agente de forças especiais com habilidades amplificadas para um missão encomendada por Laurens Bancroft, um ricaço de mais de 300 anos de vida que acabou de ser assassinado, mas que a polícia arquivou a investigação com suicídio. Como não há morte, é o próprio Bancroft, devidamente ressuscitado, mas com um gap de 48 horas em suas memórias, que é a periodicidade com que sua consciência é armazenada, que traz Kovacs da “suspensão” (crimes são punidos com penas incorpóreas) e o coloca em uma “capa” viciada em cigarro que também tem um passado, fazendo-lhe uma oferta que ele não pode recusar para ele investigar o crime que a polícia se recusa a admitir que aconteceu.

Assim como Kovacs, que mal é “downloadado” e já tem que se adaptar àquele novo mundo – ele não é da Terra e sim do Mundo de Harlan, planeta colonizado primordialmente por japoneses e eslavos, daí seu nome misto – o leitor é levado a percorrer esse universo peculiar sem qualquer preparação, aprendendo o que for possível ao longo das incessantes sequências de ação e das intricadas descobertas do protagonista lidando primordialmente com Miriam Bancroft, a esposa de Laurens, também de mais de 300 anos, mas que vive em uma “capa” voluptuosa que exata uma droga que amplifica o prazer do sexo quando fica excitada, Kristin Ortega, ríspida tenente da polícia que odeia Laurens, Oumou Prescott, advogada de Laurens e, claro, seu inusitado sidekick, a inteligência artificial Hendrix, que é, vejam só, o hotel(!!!) onde ele se hospeda e funciona como uma versão marota de HAL 9000. Em meio à movimentada progressão narrativa, que não desaponta e, vale o alerta, é extremamente violenta e com uma boa dose de sexo (aliás, momentos eróticos não são o forte da escrita de Morgan, que descamba para o tipo de narrativa daquelas historietas constrangedoras vendidas em formato de bolso em jornaleiros), o importante é lidar com as consequências práticas da ausência de morte, da eliminação daquele um elemento que torna tudo ao nosso redor tão valioso.

Morgan não se furta em lidar com a religião, tratando o cristianismo como um culto que é contrário aos “reencapamentos”, com o consumismo que ainda existe nesse futuro em sua forma física, apesar de todas as facilidades, como algo primal, genético mesmo da raça humana (olha PKD de novo aí!) e com o efeito cascata da morte como apenas um inconveniente que pode ser resolvida de várias maneiras, dependendo da quantidade de dinheiro que se tem. Aos poucos, esses elementos que parecem apenas dar cor e sabor ao universo que o autor cria vão tornando-se parte integral da evolução da história, na medida em que passados são remexidos, promessas são quebradas e traições são perpetradas. Nada existe ali por acaso e tudo é bem aproveitado, ainda que talvez o autor tenha se estendido demais, criando um segundo terço mais lento, ainda que, depois, o terço final ganhe um reforço na ação e um desfecho lógico, talvez um pouco hollywoodiano demais.

Aliás, falando em hollywoodiano, talvez o mais saliente dos problemas no primeiro romance de Richard Morgan seja o sub-aproveitamento dos personagens coadjuvantes. Sim, já deixei clara as inspirações noir do autor e as obras de Hammett e Chandler – e também as de PKD, se formos sinceros – não são particularmente prolíficas na exploração de toda a gama de personagens, mas Morgan poderia ter se desafiado e ido além do que unidimensionalidade que marca praticamente todo mundo em volta de Kovacs, até mesmo a importante tenente Ortega. O que ele cria são meros recortes em cartolina de arquétipos do gênero, sem se esforçar em estabelecer uma gama maior de pessoas com quem os leitores possam realmente se importar. Claro que as observações cruéis de Kovacs sobre tudo e todos e sua visão constante em primeira pessoa dificultam a tarefa, mas teria sido interessante um desenvolvimento maior de pelo menos um personagem para equilibrar a onipresença do reencapado ex-militar transformado em detetive particular.

Mas Carbono Alterado é, para todos os efeitos, uma obra ágil e respeitosa das fontes de onde tira sua inspiração e que cria um universo capaz de prender o espectador desde as primeiras páginas, um protagonista de moral dúbia que carrega bem a narrativa mesmo que por vezes ela derrape ou descambe para o pornô (he, he, he) e uma sub-trama filosófica interessante que leva à reflexões. Nada como um futuro distópico suspeitamente parecido com o nosso presente para nos fazer pensar, não é mesmo?

Carbono Alterado (Altered Carbon, Reino Unido– 2002)
Autor: Richard Morgan
Editora original: Victor Gollancz Ltd.
Datas de publicação: 28 de fevereiro de 2002
Editora no Brasil: Editora Bertrand
Datas de publicação no Brasil: 2017
Tradução: Edmo Suassuna
Páginas: 490

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.