Crítica | Carga Explosiva: O Legado

estrelas 1,5

Às vezes me pergunto se realmente existem pessoas que clamam pelo retorno de séries que já se esgotaram completamente. No caso, Carga Explosiva – o típico filme digno do Domingo Maior. Nunca tive nada contra a franquia. Já me diverti à beça com a ação descerebrada de Frank Martin vivido pelo sempre carismático Jason Statham – mesmo que o carisma dele se resuma a fazer cara de mau.

Agora em 2015, ano dos reboots e massagens cardíacas das franquias mais queridas dos cinemas, é brindado com o filme-zumbi do quarto Carga Explosiva! Você não pediu por ele, mas assim como uma doença, ele te acometeu. E como um bom colega daqui da redação, por pedidos de meu amigo Guilherme Coral, fui o escolhido para assistir à essa pérola.

Porém, pasmem, o filme não é tão estúpido e insuportável quanto eu pensava, mas obviamente ele não deixa de ser ruim. Agora, o já “aposentado”, Frank Martin ganha a vida transportando “pacotes” menos explosivos na Riviera Francesa. Sua vida se resume em visitar seu querido pai e desfrutar do prazer de dirigir por dinheiro. Entretanto, tudo vira de cabeça para baixo quando conhece sua nova empregadora, Anna. Desconhecendo a real intenção da moça, Frank se lança em mais um trabalho completamente perigoso que irá abalar sua rotina ao trazê-lo de volta para os “bons” e velhos tempos.

Leitor, a partir daqui, o texto contará com spoilers que podem prejudicar sua experiência ao assistir a esta belezura. Acontece que o filme é tão simples que não me restam alternativas senão trabalhar esses pontos que revelam algumas coisas. Faço isso para o texto ser de fato uma crítica, não apenas uma resenha.

Como a maioria dos filmes medíocres, este novo Carga Explosiva não poderia fugir da regra do azar: três roteiristas, seis mãos, uma história X. Adam Cooper, Bill Collage e Luc Besson elaboram uma história que tenta ser algo a mais. Talvez, algo que tenha camadas e profundidade. Mas o almejado não é o atingido. A história do longa é bem simples e até repetitiva em suas reviravoltas – todos os coadjuvantes só sabem coagir Frank de um único jeito: sequestrando seu pai.

Aqui, os três trazem uma história de assalto, vingança e redenção com inspiração explícita em Os Três Mosqueteiros. Claro, extremamente cafona e ultrapassado, mas até que coerente para esse longa em especial. Na verdade, Anna quer se vingar de seu antigo patrão – um cafetão metido com tráfico humano. E para isso ela conta com mais três parceiras, Gina, Maria e Qiao.

Infelizmente, mesmo com um backstory interessante para o quarteto vingador, os roteiristas não conseguem adicionar facetas mínimas que enriqueçam apenas um pouquinho as personagens. Fora isso, o longa vomita essas coisas logo no primeiro minuto de projeção para depois avançar quinze anos na narrativa. A sugestão da vingança se concentra na prostituição, mas se houve alguma gota d’água nesse meio tempo, nós nunca sabemos. A vingança de Anna tem uma lógica boa, além de ser estruturada com competência, porém, assim como diversas passagens, tudo é simplesmente jogado para o espectador. Nunca há alguma preparação ou criação de expectativa.

Além da superficialidade das personagens femininas, temos o sempre raso Frank Martin. Aqui até temos um vislumbre do passado do personagem, mas na prática ele continua sendo o mesmo cara incapaz de seguir as próprias regras que estabelece no seu negócio. A grande novidade fica por conta de Frank Senior, o pai do protagonista. Igualmente, no trato desses três roteiristas, Frank sr. é resumido como um velho fanfarrão, beberrão e sedutor para não dizer outra coisa. É o alívio cômico do filme. A relação entre eles nunca supera a banalidade do momento.

A verdade é que todos os personagens são descartáveis, assim como é impossível ter alguma empatia com eles, inclusive com Frank já que agora ele é vivido pelo mediano Ed Skrein.

A direção fica por conta de Camille Dellamarre que dirigiu o último filme que Paul Walker gravou integralmente. Bom, sua técnica não é uma das piores, mas sua decupagem é bem pobre. Assim como a coreografia das lutas e das cenas de perseguição. Uma franquia como Carga Explosiva, cenas de ação decentes era o mínimo a se pedir.

Mesmo que elas sejam razoáveis, não há nada de realmente novo ou inédito aqui. Como o roteiro desses filmes são extremamente manjados pelo público, a tensão não surge e você acaba pouco se importando com o que ocorre diante de seus olhos.

Além disso, o diretor não é muito imaginativo para construir as outras cenas. Ele sempre dá a preferência para planos médios e planos conjuntos. Planos detalhe são raridades aqui, além de um jogo de cena inteligente. Às vezes, ele perde a mão e faz cenas completamente ridículas e absurdas. Um exemplo: após um assalto em uma danceteria, as três mulheres entram no carro de Frank para escapar. Porém, logo surgem mais capangas para Frank espancar. Então, ele deixa o carro no piloto automático seguindo uma linha reta a praticamente 5 quilómetros por hora e abandona as moças no carro. Imediatamente elas começam a surtar, a gritar como doidas dizendo que o veículo vai bater, capotar, explodir, etc.  Por razões óbvias nada disso acontece, o filme perde uma estrela na sua avaliação final e eu tomo mais um calmante. Acredito que o intuito da cena era provocar algum riso, mas o resultado é bem mais dramático para o espectador que praticamente perde a paciência.

Outros absurdos seguem em duas cenas: causa e efeito. Em uma das perseguições, uma das mulheres acaba baleada na barriga e quase morre. Na cena seguinte, após a cirurgia improvisada para retirar a bala, ela aparece exausta após uma noite de sexo selvagem com Frank Senior. Ou seja, a recuperação da personagem é tão fantástica quanto à de Wolverine.

Enfim, Dellamarre vacila em todos os aspectos possíveis. O ápice é quando ele insere quatro flashbacks no mesmo minuto (literalmente) para reapresentar os antagonistas que apareceram momentos antes. Sem saber como organizar melhor as perseguições, ele também insere obstáculos inexistentes em planos anteriores apenas para causar capotamentos em câmera lenta. Logo, as cenas de ação quase não têm coerência dentro delas próprias.

Para enterrar de vez o filme, ele insere um terceiro ato apressadíssimo que quase se atropela. Mata um monte de personagens de uma só vez sem a menor cerimônia e ainda consegue apresentar uma das piores lutas de clímax que eu já vi. Não porque ela é mal feita e mal coreografada, mas além disso, pelo simples fato de ser completamente desprovida de tesão.

É justamente isso que falta talvez no elenco inteiro, nos roteiristas e principalmente na direção. Falta muito tesão em criar algo novo e divertido. Infelizmente, Carga Explosiva: O Legado é um filme acometido com um problema crônico no cinema comercial atual: a falta de interesse dos envolvidos em tornar a experiência de assistir a um filme de ação algo realmente marcante e merecedor do seu dinheiro. Que te deixe com adrenalina pulsando nas veias.

Este é apenas mais um filme broxa.

Carga Explosiva: O Legado (The Transporter: Refueled, FRA, CHI, 2015)
Direção: Camille Dellamarre
Roteiro: Adam Cooper, Luc Besson e Bill Collage
Elenco: Ed Skrein, Ray Stevenson, Loan Chabanol, Gabriella Wright, Tatiana Pajkovic, Wenxia Yu, Radivoje Bukvic, Noémie Lanoir.
Duração: 96 minutos

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.