Crítica | Carmen (1983)

estrelas 3

Pouca gente já ouviu falar de Prosper Mérimée. Historiador, arqueólogo e escritor da geração romântica francesa, ele foi responsável por dar vida a uma das personagens femininas mais sensuais e indomáveis da literatura, da ópera ou do cinema, alguns anos depois. Amigo de Stendhal – apesar das duas décadas de idade que os separavam – Mérimée também nutria uma paixão literária pelo misticismo (por pura curiosidade e atração pelo insólito), pela negação da religião, pela sensualidade e por “culturas exóticas”, com destaque para a russa e a espanhola.

Mérimée começou na literatura em 1825, com O Teatro de Clara Gazul. A série de publicações que teve a partir de então foi grande e bem variada de temas, dentre as quais podemos destacar La Jacquerie (1828), história de uma insurreição camponesa na Idade Média; La Vénus d’Ille (1837), um conto de horror sobre uma estátua de bronze que ganha vida; Colomba (1840), um romance de sucesso sobre uma jovem que obriga seu irmão a cometer um crime para se vingar; e Carmen (1845), a história de uma bela cigana que é morta por seu amante militar por ter-lhe sido infiel.

Em 1875 a ópera Carmen, de Georges Bizet estreava em Paris. Baseada na novela de Mérimée, a ópera representava com grande paixão a personagem principal, mas pecava nos derramamentos sentimentais do libretto, algo que o original sequer passava perto. Décadas depois, o cinema também traria para suas telas o drama da cigana sedutora. Ao longo dos anos foram diversas adaptações encabeçadas por diferentes diretores e com montagens e orçamentos também distintos. A adaptação que nos interessa nesse texto é de 1983, e foi dirigida pelo mestre espanhol Carlos Saura.

Vindo de uma carreira cinematográfica essencialmente política, à época em que filmou Carmen, Saura já tinha no currículo filmes como Peppermint FrappéAna e os LobosCría Cuervos e Mamãe Faz 100 Anos. Sua filmografia, no entanto, foi tomada por uma onda musical na década de 1980, a começar por Bodas de Sangue (1981), filme que com Carmen (1983) e El Amor Brujo (1986) formam a Trilogia Flamenca.

Carmen é certamente o mais badalado dos três filmes, e conta a história de um grupo de dançarinos flamencos que ensaiam uma versão da obra. Liderados por Antonio Gades, grande dançarino flamenco falecido em 2004, que teria as suas três últimas participações no cinema ao lado de Saura, justamente na Trilogia Flamenca, o grupo é vislumbrado pela câmera em diversos números de dança e em suas relações nos bastidores. E em meio a essas relações, temos a confusão e o entrelaçamento cada vez maior entre a ficção e a realidade. Ao se apaixonar por Carmen (Laura del Sol), Antonio (Antonio Gades) acaba dando início a uma série de eventos que o aproximam da obra de Mérimée.

Contando ainda com o violão de Paco de Lucía, Carmen tem uma belíssima execução artística no que se refere a questão musical e de expressão corporal, cabendo apenas às relações externas ao palco e à representação os pontos mais fracos da fita. Em algum ponto, a interessante confusão entre arte e realidade conquista o espectador, mas ao final, essa confusão acaba por fazer com que o enredo perca um pouco a força, um resultado que obviamente não veio apenas pela finalização mas por pontos fracos que abordam esses temas do mundo real como os takes no quarto de Antonio, a visita de Carmen ao marido preso e o reencontro dos dois num momento de festividade do grupo de dançarinos.

É evidente que Carmen é um bom filme, e que marca um ponto importante na a carreira Carlos Saura – que seguiria com temas musicais, chegando a obras-primas como Tango e Ibéria – mas a dualidade que ele carrega acaba por enfraquecer a própria proposta artística que propõe. Mesmo assim, a questão do velho ditado “a vida imita a arte” aparece com força redobrada e com certeza garante uma boa sessão e uma boa discussão para o público.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.