Crítica | Carnaval Atlântida

A Atlântida foi uma era de produções bastante representativas para a história do cinema brasileiro, geralmente subserviente aos produtos estrangeiros, em especial, os hollywoodianos. Com filmes sem grande valor estético, as produções deste estúdio nos servem hoje como material de estudos da nossa história audiovisual. Carnaval Atlântida foi um dos sucessos, lançado em 1992, numa época de poucas leituras ou paródias cinematográficas do mito grego Helena de Troia, bem delineado no poema narrativo Ilíada, de Homero.

No filme dos típicos “malandros” cariocas apresentam para o produtor Cecílio B. de Milho (Renato Restier), poderoso gestor da Acrópole Filmes, o argumento para a produção de uma nova chanchada, promessa de sucesso. O realizador, entretanto, recusa a oferta, mas emprega os rapazes como faxineiros do estabelecimento. Será assim que Piro (Colé) e Miro (Grande Otelo) “carnavalizam” a produção alvo do interesse da empresa, uma adaptação épica de Helena de Tróia.

Cecílio fecha contrato com o professor Xenofontes (Oscarito), um especialista em mitologia grega do Colégio Atenas. Ele será o responsável por prestar assessoria na realização do filme. Desta forma, o roteiro escrito pelo trio formado por José Carlos Burle, Victor Lima e Berliet Jr. investe em situações cômicas em meio aos conflitos que transforma, no final das contas, tudo no mais puro carnaval. Com a instauração da paródia, o “musical” dialoga com as propostas do manifesto de fundação da Atlântida, isto é, um texto que dizia ser necessário o estabelecimento de um modelo de cinema com natureza industrial, representante do progresso, tendo em vista avançar no campo da técnica, das finanças e das transações comerciais.

Guiado pela condução musical de Lírio Panicalli e pela montagem eficaz de Wilson Monteiro, Carnaval Atlântida não vai além do básico. É narrador com base na estrutura dos filmes do estúdio, com apelo cômico e situações constantemente críticas, principalmente quando trata do servilismo brasileiro no que tange aos conflitos de concorrência com a supremacia da indústria hollywoodiana. Clássicos como Ai Que Saudade de Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago), No Tabuleiro da Baiana (de Ary Barroso, com Grande Otelo e Eliana Macedo), Ninguém me Ama (Fernando Lobo e Antônio Maria, com desempenho de Nora Ney), dentre outros, marcam os contagiantes números musicais.

Ao longo dos seus 95 minutos, a comédia dirigida por José Carlos Burle flerta com elementos entre a cultura erudita e as produções populares. Interessante notar que até o lançamento de Carnaval Atlântida, apenas dois filmes trataram da mitologia em torno de Helena: A Vida Privada de Helena de Troia, de Alexsander Korda, produção “perdida” que possui apenas alguns trechos num centro de estudos em Londres e Helena, de Manfred Noa, épico de 1924, restaurado por volta do ano 2000. Ao longo da segunda metade do século XX e nas primeiras décadas do século XXI, os conflitos entre troianos e espartanos, bem como o mito de Helena foram explorados constantemente pela indústria, afinal, rendem material dramatúrgico financeiramente rentável, hja vista o potencial da história que não cansa de ser recontada.

Carnaval Atlântida — Brasil, 1952
Direção: Calos Manga, José Carlos Burle
Roteiro: Berliet Júnior, José Carlos Burle, Victor Lima
Elenco: Cyl Farney, Eliana Colé Santana, Grande Otelo, José Lewgoy, María Antonieta Pons, Oscarito, Renato Restier
Duração: 95 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.