Crítica | Carrie, A Estranha (1976)

estrelas 4

Carrie foi o primeiro romance escrito pelo lendário Stephen King, lançado em 1974 e tido até hoje como um dos melhores livros do autor. Utilizando documentos ficcionais, no objetivo de trazer veracidade à história de Carrie White, a primeira adaptação da obra veio apenas dois anos depois sob a tutela de Brian De Palma, que mais tarde viria a ser considerado um dos grandes diretores da década de 70/80 e um dos principais sucessores do mestre Alfred Hitchcock.

E De Palma (na época em que ainda fazia bons filmes) faz jus à obra de Stephen King ao transformar a adaptação num estudo extremamente profundo e complexo sobre temas que, ainda hoje, permanecem atuais, tal como o bullyng, a descoberta da sexualidade e o fanatismo religioso. E na imagem de Carrie White, uma garota tímida, isolada e fragilizada, tais temas encontram o reflexo perfeito.

Carry White (Sissy Spacek) é uma jovem que não faz amigos em virtude de morar em quase total isolamento com Margareth (Piper Laurie), sua mãe e uma pregadora religiosa cada vez mais ensandecida. Carrie foi menosprezada pelas colegas num incidente, sua professora fica espantada pela sua falta de informação e Sue Snell (Amy Irving), uma das alunas que zombaram dela, fica arrependida e pede a Tommy Ross (William Katt), seu namorado e um aluno muito popular, para que convide Carrie para um baile no colégio. Mas Chris Hargenson (Nancy Allen), uma aluna que foi proibida de ir festa, prepara uma terrível armadilha para deixar Carrie ridicularizada em público…

Apesar de ter envelhecido com o tempo (há algumas cenas que hoje acabam gerando risadas involuntárias), Carrie, A Estranha ainda permanece como uma das grandes brincadeiras visuais de De Palma, um mestre em trabalhar com sua câmera em prol de adicionar novas camadas em sua narrativa. De fato, a famosa sequência de abertura, onde Carrie acaba tendo sua primeira menstruação durante um banho, é lindamente desenhada pelo diretor que faz uso da câmera lenta como uma forma de ressaltar a sensualidade do momento, onde diversas garotas se arrumam no vestiário, enquanto Carrie toma um banho calmo, mas logo é vitíma da humilhação de suas colegas.

Não seria errado afirmar que Carrie, do início ao fim, é uma gigantesca metáfora sobre o prazer e o desprazer do sexo, algo que pode ser visto principalmente na loucura da mãe de Carrie, uma católica fervorosa que, em determinado momento, nos revela que fora casa durante anos sem nunca tocar em seu marido com algum objetivo sexual, o que o levou a “tomá-la” em determinada noite, e foi deste ato movido pelo desejo incontrolável que Carrie acabou sendo concebida, e Margareth ainda ressalta que gostou do ato, o que imediatamente nos remete aos tempos da criação, onde segundo a Bíblia, homem e mulher pecaram ao comer o fruto proibido, onde o homem culpa a mulher por ter lhe oferecido tal fruto, e a mulher acaba recebendo o castigo da dor durante o parto e a maldição do sangramento, a menstruação. Tudo está ligado ao sexo e suas consequências.

Assim sendo, Carrie sofre de uma enorme pressão por todos os lados, transformando-a numa garota repleta de desejos justamente pela vida que a impede de realizá-los. Quando Carrie é convidada para ir ao baile pelo namorado de uma das meninas que a humilharam (a pedido da própria), sua resposta pode ser vista como a entrega definitiva da garota às coisas satisfatórias da vida, coisas que vão além do desejo sexual, mas que envolvem o desejo de inclusão e aceitação, algo que Carrie nunca teve.

Trabalhando estas nuances com calma, sem pressa de chegar ao clímax, De Palma cria uma narrativa de tensão crescente, sem muitas surpresas (de fato, o filme até sofre de uma certa previsibilidade), mas sempre ressaltando a claustrofobia constantemente presente na vida de Carrie. O diretor demonstra toda a sua força visual no desfecho, onde Carrie é humilhada perante toda a escola ao ser eleita rainha do baile e receber um banho de sangue de porco, o que traz à tona toda a sua fúria acumulada durante todos os anos em que foi vítima do preconceito, o que acaba levando-a a cometer um massacre, assassinando todos os alunos do colégio. Através de diversos planos e ângulos, De Palma captura o momento com maestria, explorando cada detalhe do massacre ao criar uma tela divida que exibe uma visão dupla do caos emocional que reina sobre Carrie. Neste momento, Sissy Spacek faz jus a sua escolha para o papel, transformando a fragilidade de Carrie num ataque de dor, sofrimento e vingança.

Com uma cena final de concepção um tanto duvidosa, Carrie, A Estranha permanece como uma das grandes adaptações de uma obra de Stephen King, assim como também segue sendo uma das grandes realizações de Brian De Palma, que transformou seu filme numa obra de terror atemporal.

Carrie, a Estranha (Carrie, EUA, 1976)
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Lawrence D. Cohen, baseado em livro de Stephen King
Elenco: Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, William Katt, Betty Buckley, Nancy Allen, John Travolta, P.J. Soles
Duração: 98 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.