Crítica | Carrie – A Estranha (2013)

estrelas 2

Em diversas entrevistas concedidas após sua escolha para comandar este novo remake de Carrie – A Estranha, a diretora Kimberly Peirce (de Meninos Não Choram e Stop-Loss: A Lei da Guerra) afirmou que sua versão para a clássica história de Stephen King seria diferente daquela concebida por Brian De Palma nos anos 70, prometendo ser mais fiel às palavras e descrições criadas por King. Ledo engano. Esta nova releitura da clássica história da garota que descobre possui poderes telecinéticos é, quase que em sua totalidade, uma regravação quadro a quadro do original, com o roteiro de Roberto-Aguirre Sacasa enxertando tentativas falhas de modernização e deixando de lado a metáfora que marcou o clássico de De Palma: o bullying, a fascinação pelo sexo e o fanatismo religioso.

Em seu livro, King nos apresenta Carrie White não como uma garota de poderes sobrenaturais, mas sim como o resultado das conseqüências geradas pelo bullyng, da não aceitação das diferenças e das crenças religiosas que insistem em querer nos “puritanizar” e deixar de lado nossa verdadeira natureza enquanto seres humanos. Já aqui, Carrie é simplesmente uma garota que após descobrir seus poderes, utiliza-os como forma de vingança pessoal contra aqueles que a oprimem. Mais clichê, impossível.

Pierce, aliás, deixa de lado qualquer sutileza ao colocar o desenvolvimento da protagonista de lado (poucos são os momentos em que podemos conhecer Carrie a fundo) e usa a condição da garota como uma desculpa para seu exibicionismo, e dá-lhe portas batendo, livros flutuando e lâmpadas queimando – e o curioso é que ninguém parece notar tais coisas acontecendo somente quando Carrie está por perto.

Desta forma, fica claro que o público que Peirce deseja atingir é diferente daqueles que formam a legião de fãs do original – há um estranho fetiche da câmera sobre Carrie, onde a tentativa de sensualização, tão sutil no longa de De Palma, surge aqui como uma tentativa de… bem, talvez não exista tentativa de nada, uma vez que o artifício não adiciona nada à narrativa e apenas vulgariza o andar da coisa.

O mais estranho é que, em tempos tão liberais, a diretora também se sinta incapacitada de explorar o poder do sexo, tal qual está presente na obra de King. Há uma pequena cena gratuita de um ato sexual com Sue Snell (Gabriella Wilde), mas sem nenhum significado. E a vilã Chris Hargensen, tão manipulativa no original, aqui é transformada numa subordinada de seu namorado, que é quem toma todas as iniciativas sobre o plano para humilhar Carrie no baile.

E a sequência do baile demonstra toda a cafonice e os equívocos na direção de Peirce. Ao receber o banho de sangue de porco, Carrie cria um total controle sobre seus poderes (algo sem sentido, se pensarmos que há pouco tempo ela nem sabia da existência de tais poderes) e desencadeia um massacre sobre seus amigos de escola. Massacre este regado por um uso apelativo de computação gráfica e CGI mais do que óbvio. Saudades da maneira prática com que De Palma filmou o original.

Que Chloë Grace Moretz é boa atriz, isso todo mundo sabe e ninguém nega. Mas sua escolha para interpretar Carrie também se mostrou equivocada. A atriz até se esforça, mas em nenhum momento convence como uma garota estranha e esquisita, que é o principal motivo para ser constantemente torturada por seus companheiros de escola. Chloë é linda demais para o papel (quem diria que beleza seria um problema, não é?), ao contrário de Sissy Spacek, que na época do filme original conseguia exalar uma estranheza natural que se adequava perfeitamente ao papel.

Julianne Moore, como a mãe beata de Carrie, se sai melhor com seus olhares e expressões insanos, mas sua personagem sofre com uma mudança de foco, onde o roteiro acaba dando mais espaço para sua insanidade do que a seu fanatismo religioso. Mais uma vez, um outro exemplo de covardia do filme.

No fim das contas, esta nova versão de Carrie é apenas mais uma dentre as muitas refilmagens inúteis que são lançadas anualmente, onde não existe propósito concreto para justificar sua existência. Sorte que ainda temos o clássico atemporal de De Palma para revisitar.

Carrie – A Estranha (Carrie, EUA, 2013)
Direção: Kimberly Peirce
Roteiro: Robert-Aguirre Sacasa, baseado em livro de Stephen King
Elenco: Chloë Grace Moretz, Julianne Moore, Ivana Baquero, Judy Greer
Duração: 100 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.