Crítica | Carros 2

estrelas 2,5

O retumbante sucesso do primeiro Carros somado, claro, ao seu potencial praticamente infinito de gerar milhares de variados brinquedos (Hot Wheels está aí para provar que carrinhos sempre venderão), naturalmente motivaria a criação da sequência, Carros 2, que, para os padrões da indústria cinematográfica hollywoodiana até demorou para aparecer. De fato, por mais que ambos estejam longe de serem as melhores animações da Pixar, há de se entender a necessidade de criar uma franquia que gere lucro além de seu tempo em exibição, afinal, antes de mais nada o estúdio precisa gerar lucro e o celebrado Studio Ghibli mais do que prova que, infelizmente, somente fazer Arte não é o suficiente para pagar as contas.

A obra tem início com uma completamente desnecessária sequência que gira em torno de um carro-espião, Finn McMissile (Michael Caine), buscando algo dentro de uma plataforma de petróleo comandada por carros malvados. Após esse pequeno prelúdio, que já nos prepara para o tom de espionagem à la James Bond que o filme adota, seguimos para Radiator Springs, onde reencontramos Mater (Larry the Cable Guy) e Lightning McQueen (Owen Wilson), o qual não demora muito a aceitar o desafio de outro corredor para fazer parte de um Grand Prix ao redor do mundo. Pouco sabiam eles que acabariam se metendo em uma trama envolvendo espiões e sabotagens, tudo girando em torno do novo combustível sustentável desenvolvido por Miles Axlerod (Eddie Izzard).

Um dos aspectos que certamente mais incomodam quando se trata da franquia Carros é a base desse universo em si. Claro que a Pixar já nos trouxera filmes nos quais monstros existem, brinquedos tem vida, peixes falam, mas todos esses, de alguma forma, se encaixam com a nossa própria realidade, funcionando como uma espécie de “e se…?”. O universo de Carros, porém, é um ponto fora da curva, que substitui absolutamente tudo por veículos com vida própria (e que, ainda assim contam com vidros nas portas e maçanetas!). Isso, naturalmente, gera um inevitável distanciamento entre nós e os personagens em questão, por mais humanizados que eles sejam – infinitas perguntas são geradas, sem nenhuma perspectiva de resposta, ao passo que devemos apenas aceitar tudo o que vemos em tela. Naturalmente que a boa e velha suspensão de descrença nunca esteve fora da equação, mas, aqui, ela é requisitada em surpreendentes níveis.

Mas já sabíamos disso tudo quando começamos a assistir essa continuação, portanto não seria muito justo julgar sua qualidade por esse fator. Carros 2, de fato, consegue divertir, nos proporcionando uma experiência que sabe, em geral, se diferenciar daquilo que vimos no primeiro longa, enquanto altera o foco para Mater, que assume os holofotes da sequência. Se no filme original tivéramos a história de um carro que aprendeu a ser humilde e a reconhecer as coisas simples da vida, aqui temos a história de um caminhão de reboque que descobre que todos o veem como idiota, apenas para descobrir que é esperto, fazendo com que alguns o enxerguem dessa forma – viram o problema? Não há um arco bem definido, já que ele não entra na jornada e acaba se livrando de seu problema, ele descobre seu problema no final da jornada praticamente! Com isso em mente, apesar de trazer uma atmosfera diferenciada, a obra se mantém no vazio por mais tempo que deveria.

O pior é que, durante todo esse tempo, o roteiro de Ben Queen, John Lasseter, Dan Fogelman e Brad Lewis fica enfiando goela abaixo no espectador infinitas piadas envolvendo a estupidez de Mater e, no fim, tem a audácia de nos dizer que ele não é um personagem burro. Vejam, não estou dizendo que qualquer pessoa mais simples é desprovida de inteligência e sim esse caso estereotipado ao extremo – afinal, qualquer um que tenha vivido na roça a vida inteira jamais passaria por qualquer uma das experiências pelas quais Mater passa ao longo do filme. A obra, portanto, pode muito bem ser definida pelo exagero, se apoiando em uma trama mais complicada do que deveria ser, gags excessivamente repetitivas, as quais se apoiam exclusivamente no jeito do caminhão de reboque e trabalho de voz de Larry the Cable Guy, e sequências de ação demasiadamente longas.

Felizmente, enquanto erra no roteiro, Lasseter acerta na direção e mesmo as mais cansativas cenas são conduzidas com dinamismo, sejam as corridas de McQueen (as quais ficam em segundo plano), ou as empreitadas no mundo da espionagem de Mater. Aliás, o diretor sabe transitar entre a atmosfera mais aventuresca e feel-good do primeiro Carros e o ar de James Bond presente sempre que McMissile se faz presente em tela – e o modelo do carro, claro, não passou despercebido, prestando clara homenagem a Goldfinger, questão bem pontuada pelo sotaque britânico de Michael Caine.

No fim, Carros 2 acaba sendo um longa-metragem animado que nos diverte, mas apenas isso, muito menos do que podemos dizer de grande parte do material produzido pela Pixar. A obra se apoia demais em piadas repetitivas e na demonstração de novos veículos e locações, deixando o roteiro em segundo plano, fazendo com que os personagens tenham pouco desenvolvimento, visto que seus arcos narrativos são demasiadamente simples. Fica bastante claro que esse é um filme feito com o objetivo de vender mais brinquedos, gerando, naturalmente mais lucro para o estúdio, não se preocupando em entregar algo que faça jus ao nome Pixar.

Carros 2 (Cars 2) — EUA, 2011
Direção: John Lasseter
Roteiro:
Ben Queen, John Lasseter, Dan Fogelman, Brad Lewis
Elenco:
Larry the Cable Guy, Owen Wilson, Michael Caine, Emily Mortimer, Eddie Izzard, John Turturro, Joe Mantegna, Bonnie Hunt, Thomas Kretschmann, Franco Nero, Peter Jacobson
Duração:
101 minutos.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.