Crítica | Carros

estrelas 3,5

O desenvolvimento de Carros começou ainda na época de Vida de Inseto, em idos de 1998, concebido a princípio por Jorgen Klubien e sob o nome The Yellow Car. A ideia é que este fosse o filme seguinte a Vida de Inseto, mas as coisas começaram a pender para o lado de Toy Story 2 e o projeto de Carros só foi retomado após iniciativa de John Lasseter, que impressionado por uma viagem que fez cruzando parte do país pela Rota 66 com seus filhos, contratou o historiador Michael Wallis, especialista na história da Rota, e começou a pesquisa para o roteiro.

Talvez aqui tenhamos o núcleo do impasse narrativo no roteiro de Carros — que se tornaria vergonhoso em Carros 2 — que é o desvio da história para um pit stop reflexivo na vida do queridinho Relâmpago McQueen. Embora haja uma constante tentativa de integrar a primeira e a última parte do longa ao aprendizado do modelo em Radiator Springs, a fusão entre o mundo badalado e fútil das corrias e o mundo quieto e cheio de laços automobilísticos (eu queria dizer “laços humanos”, mas não dá) ficou encaixado, um pouco forçado nas relações entre os personagens e o destino que vão ter na reta final.

Essa menor organicidade do texto não inutilizou os valores da obra, fruto de um largo time de roteiristas (vejam na ficha técnica ao final da crítica), mas funcionam bem melhor vistos em separado. Tome como exemplo a primeira e a última parte do filme, com McQueen no mundo que o mima e o adora. É evidente que estamos falando de duas fases diferentes na vida do personagem (mistura genérica de modelos da NASCAR), mas essas duas partes, a despeito da intenção de contraste entre mundos, não se liga com o quase idílico “paraíso” do miolo da animação, e não estou falando em composição geográfica e de outros cenários, porque isso é óbvio. Estou falando em continuidade, em narrativa. Parece que estamos falando de dois filmes emendados por uma causalidade, a primeira e a última parte juntas e a parte do meio sozinha.

Olhando de perto, porém, a história muda um pouco. Porque o espectador não consegue ficar indiferente aos inúmeros detalhes que a equipe de animação da Pixar inseriu em Carros, desde a movimentação dos veículos, dependendo da idade e modelo, até as muitas simulações de desgaste (ferrugem) e acidentes que um carro específico pode ter. A simpatia da antropomorfização dos automóveis se tornou ainda maior pela localização menos estranha dos olhos, que estão no vidro frontal e não nos faróis, como normalmente se utiliza em animações; do agradável uso das rodas, cada uma com um tipo de mobilidade perfeitamente adequada aos modelos; e, principalmente, o notável uso de reflexo, refração, brilho e opacidade das luz e das cores nos desenhos.

Adaptando a técnica de um algoritmo de computação gráfica usado para síntese (renderização) de imagens tridimensionais, o ray tracing, a equipe de produção fez manualmente (aplausos, aplausos!) todo o processo de inserção de luz e suas muitas variações no filme, com propositais exageros para que todos os espectadores pudessem ver uma parte do trabalho, que é quando alguns personagens refratam a luz do sol no olho do outro. Esse processo específico para uso de luzes a fim de dar maior realidade às cores e aos contornos dos desenhos permaneceu manual até o início da produção de Universidade Monstros (2013), quando passou para uma divisão com software próprio, gerando o trabalho que vimos em Divertida Mente (2015).

Ao lado de uma bem escolhida trilha sonora, como hino americano em arranjo e versão de Jimi Hendrix; Our Town, de James Taylor; Route 66, de Chuck Berry e Songbird, de Kenny G, não há quem resista a lição de simplicidade aprendida por Relâmpago McQueen e a lição de moral que ele nos ensina. Além disso, a maior parte do trajeto é muito bem acompanhado por personagens como o caminhão guincho da Chevrolet 1955 (Mater), que é um amigão meio bobo, carinhoso e um pouco desastrado; o Porsche 911 versão 2002 (Sally), que passou por uma fase de mudanças na vida e está tentando fugir do ambiente agitado que a aprisionava e entristecia: a cidade grande; o lendário Hudson Hornet 1951 (Doc Hudson), o vitorioso abandonado que resolveu colocar a si mesmo no ostracismo, tornando-se rabugento mas nunca se esquecendo que tem um bom coração… ah, eu poderia falar de todos eles e suas caraterísticas e também de como o roteiro consegue mostrá-los com carisma e nos conquistar, mas vou parar por aqui. Acredito que se a elaboração do enredo fosse mais orgânica e sequências como o flashback para o passado de Radiator Springs, a “integração” de McQueen na nova cidade e a forma como ele volta para a Copa Pistão fossem melhor compostas ou parcialmente cortadas, a situação seria outra.

Carros não é exatamente uma das joias da coroa da Pixar, mas é um bom filme, cheio de ternura e momentos de fraternidade que pode emocionar os espectadores mais molengas. O longa foi o último filme realizado pelo ator Paul Newman, que fez um trabalho primoroso na forma carrancuda mas não assustadora de seu personagem. O ator ainda dublou Doc Hudson para o video game lançado em junho de 2006 e para o curta-metragem Mate e a Luz Fantasma, do mesmo ano. Outros destaques da dublagem original vão para Owen Wilson e seu sotaque amigável, como Relâmpago McQueen e o excelente trabalho de Larry the Cable Guy como Mate, o caipira que fala errado e com a voz anasalada, porque lhe falta o capô.

Carros recebeu duas indicações ao Oscar (Melhor Canção e Melhor Animação) e levou o Globo de Ouro na categoria de Melhor Animação. Dele, ainda veríamos a série animada de curtas Cars Toons: As Grandes Histórias do Mate e o desprezível Carros 2, além de um spin-off chamado Aviões, laçando em 2013. Como se vê, mesmo em um de seus “filmes menores”, a Pixar consegue ser grande.

Publicado originalmente em 22/09/15.

Carros (Cars) — EUA, 2006
Direção: John Lasseter, Joe Ranft
Roteiro: Dan Fogelman, John Lasseter, Joe Ranft, Kiel Murray, Phil Lorin, Jorgen Klubien (com adição de material adiciona ao roteiro feita foi Bonnie Hunt, Robert L. Baird, Daniel Gerson, Don Lake, Steve Purcell, Dan Scanlon).
Elenco (vozes originais de): Owen Wilson, Paul Newman, Bonnie Hunt, Larry the Cable Guy, Cheech Marin, Tony Shalhoub, Guido Quaroni, Jenifer Lewis, Paul Dooley, Michael Wallis
Duração: 117 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.