Crítica | Carrossel – O Filme

estrelas 2

Obs: Se quiser ler a crítica desse filme sob o ponto de vista de uma criança, leia nossa Crítica Infantil, aqui

É irônico observar como a marca Carrossel, cuja novela, tanto em sua versão original quanto na brasileira, centraliza suas estrelas mirins em uma escola, e como Carrossel – O Filme tem como grande problema o mesmo com o qual nos defrontamos na educação do país – fala-se aqui tão somente em matéria de currículo e de modo algum da competência dos docentes. O modelo pedagógico instalado no país ainda durante a ditadura passou a fornecer conclusões prontas, fast-food aos seus alunos, no qual se decora e não se compreende, pelo qual meramente se representa sem se mostrar na prática – que o diga a matemática -, que não estimula o estudante a interpretar informações e mesmo a acreditar no seu potencial.

Esse problema se reflete na tela do cinema em Carrossel, ao ponto do filme aparentemente acreditar que a criança, até mesmo um pré-adolescente ou jovem, não é capaz de pensar por conta própria. Crianças, por sinal, são o melhor do longa e o salvam de uma afronta total. A fita começa com a famosa turma de crianças da escola Mundial em seu último dia de aula, já um tanto crescidos desde o término da novela em 2013. O começo consegue ser divertido e informativo, logo apresentando as crianças e a personalidade de cada uma, explicando a ausência da professora Helena, da novela, devido a uma gravidez – a atriz Rozanne Mulholland migrou para a Rede Globo, não podendo integrar a produção do SBT – e definindo o destino dos garotos nas férias e o ambiente central da trama: o acampamento Panapaná.

Nesse princípio, o filme não perde tempo: a seguir, já vemos um ônibus levando a criançada ao acampamento, com a esperada farra embalando a viagem. Lá chegando, conhecemos o animado dono do acampamento (Orival Pissini), que adora crianças e dá início a uma gincana após dividi-las em dois grupos. Daí para diante, sejam brincando, sacaneando uns aos outros ou em cenas românticas, os meninos interagem entre si com grande naturalidade em tela e o hábito em contracenarem juntos, mesmo após algum tempo, na certa contribui com esse processo. Pena que o roteiro não aproveite essa interação para criar situações e diálogos mais interessantes. Também é graças ao roteiro que vemos nos adultos o grande problema da produção, cujos papéis deveriam, no mínimo, ser importantes, se vistos como espelhos pelos quais as crianças constroem sua identidade no mundo. O que temos, porém, são adultos caricatos, até cartunescos – que o diga Oscar Filho, que interpreta o exageradamente desajeitado Gonzalito, assistente do vilão Gonzales (Paulo Miklos). Os adultos responsáveis pelas crianças parecem estar lá quase que apenas para fazer a vontade delas  ou servir como uma espécie de mascotes, para não dizer marionetes. Muito poderia ser trabalhado do ponto de vista dos mais velhos em relação às crianças sem atrapalhar, mas, pelo contrário, enriquecendo a dinâmica dos garotos em tela, mas não é o que chega nem perto de acontecer.

Quanto à referida dupla de vilões, surgem no acampamento para sabotá-lo e assim adquirir a propriedade para a construção de uma fábrica poluente. Temos aí a clara proposta de educar ecologicamente, e para tanto se chega ao cúmulo de obrigar uma criança no cinema a ouvir ironias pastelonas do chefe, Gonzales, como a que ele deixará de morar em um trailer para viver em um ambiente mais imundo ainda – como se o homem realmente gostasse de viver na imundice explícita. De Gonzalito, então, nem se fala, que aparenta ser mudo e só não ter uma limitação intelectual que o impeça de cumprir as ordens do chefe; até que, já para o fim do longa, resolve falar sem motivo algum.

A trilha sonora tem bons momentos, destaque para os animados trechos com coral, para uma versão da clássica canção “We Will Rock You” e, é claro, o esperado tema sonoro da novela, “Embarque Nesse Carrossel“, que aparece nas circunstâncias adequadas. O problema é que eventualmente ela é usada desnecessariamente, querendo instigar sentimentos como tristeza ou contemplação, já estimulados pela cena em si.

Com um discurso sobre a importância da amizade forçado goela abaixo do expectador e também apresentando o problemático estereótipo da nordestina ignorante, o resultado é um grande insulto à narrativa juvenil, cabendo mesmo a crianças amenizá-la. Pode até divertir alguns, mas se também pretendia educar, o faz muito mal.

Carrossel – O Filme (Brasil, 2015)
Direção: Alexandre Boury, Mauricio Eça
Roteiro: Márcio Alemão, Mirna Nogueira
Elenco: Jean Paulo Campos, Larissa Manoela, Maisa Silva, Fernanda Concon, Stefany Vaz, Aysha Benelli, Ana Vitória Zimmermann, Nicholas Torres, Konstantino Atan, Matheus Ueta, Gustavo Daneluz, Guilherme Seta, Thomaz Costa, Lucas Santos, Esther Marcos, Léo Belmonte
Duração: 98 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.