Crítica | Cartas de um Homem Morto

estrelas 5

Há duas décadas, quem falasse sobre os perigos da poluição e do futuro catastrófico que se ensaiava para o nosso planeta, tinha a descrença e o desprezo por parte dos adeptos da marcha tecnológica. Hoje, medidas internacionais e campanhas de conscientização do tipo “Salvem o Planeta Terra” são mais do que comuns. O tema do futuro da humanidade voltou à baila, embebido na escatologia do Apocalipse e com a vantagem de ainda contar com mais um agravante: a multiplicação de armas de destruição em massa por todo o planeta. Em O Efeito Contrário, eu parti de um curta-metragem lituano para cercar, mesmo que en passant, a questão de uma possível catástrofe causada pelo uso das armas atômicas à época da Guerra Fria; e é esse tema, fora da disputa terminada em 1991, que rotaremos aqui.

A ficção científica literária se encarregou, muito antes do cinema e da televisão, de problematizar sobre as futuras catástrofes na Terra. Autores como Ray Bradbury, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Philip K. Dick, William Gibson, H.G. Wells, George Orwell trouxeram em seus livros situações limites, nas quais, a vida humana ameaçada, defendia-se ou procurava a melhor saída possível para as aterradoras situações. Questionamentos sobre moral e ética são a base dessas narrativas, tendo em vista que a sociedade então relatada assenta-se sobre outras necessidades (sobreviver, principalmente). O contrato social se refaz, nos “novos-mundos” da ficção científica.

Penso que não existe um clássico do cinema que melhor represente essas questões do que o excelente filme de Franklin J. Schaffner, Planeta dos Macacos (1968)¹. A partir de então, o mercado cinematográfico e a TV encarregaram-se de expor avalanches de obras do gênero.

Dos autores soviéticos, os irmãos Boris e Arcady Strugatski são os principais representantes. Foi de um dos contos da dupla que Andrei Tarkóvski adaptou o roteiro de Stalker, e o próprio Boris Strugatski foi um dos autores do roteiro de Cartas de um Homem Morto (1986), filme dirigido por Konstantin Lopushanski. A história se passa no planeta Terra após o apocalipse nuclear. Um físico premiado com o Prêmio Nobel, sua esposa em estado terminal e alguns outros companheiros, sobrevivem no porão de um Museu de História. Fracas luzes incandescentes estão espalhadas por todos os corredores do antigo Museu. Mas em meio a desesperançada realidade, uma centelha de esperança e várias dúvidas surgem. O que será da vida humana a partir de então?
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A pós-humanidade
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Já não é provável que venha de fora algum perigo mortal à civilização. A natureza já foi domada e não há bárbaros ameaçando destruir o que não podem compreender, como os mongóis ameaçaram a Europa durante séculos. […] O perigo é que uma civilização global, universalmente correlata, possa produzir bárbaros em seu próprio seio por forçar milhões de pessoas a condições que, a despeito de todas as aparências, são as condições da selvageria.

Hannah Arendt

Cartas de um homem morto é um filme lancinante. Assim como o inominável Vá e Veja, de Elem Klimov, filmado um ano antes, a obra de Lopushanski constrói e problematiza a dor, investiga as causas possíveis do ato trágico e das mortes em massa, critica tanto a estrutura social destruída quanto a que então se ergue. O roteiro é denso desde o início – a introdução do filme é um apanhado geral da angústia que se construirá a partir de então, e o clímax visual e dramático dessa primeira sequência é quando a câmera afasta-se em lento zoom para trás (recurso muito usado no filme), revelando uma grande pilha de concreto com uma pequena passagem, a única saída para os que estão no porão do Museu. Aos poucos, a visão da personagem que sai à superfície torna-se cada vez menor enquanto aumenta o mundo de ruínas à sua volta.

Em dado momento, um dos homens que estão no porão diz que “no mar de sangue e nas pilhas de mortos da superfície é que está o verdadeiro museu, a verdadeira obra de arte da humanidade”. A colérica afirmação tem fundamento, se considerarmos a produção artística do homem do fim do Paleolítico Superior (10000 a.C.) até 1986, e então temos quase 12000 anos de história e criação, desenvolvimento tecnológico e civilização destruídos em poucos minutos. A citação de Hannah Arendt posta na epígrafe acima, resume muito bem o impasse.

O “novo mundo” conta com dois tipos de pessoas, os humanistas (aqueles que “amam ainda mais a humanidade por ela não mais existir”) e os realistas (aqueles que deixam-se levar pelo ódio, e a partir daí, seguem um caminho de ações violentas contra tudo o que se opor aos novos valores para sobreviver à miséria e à desolação).

Existem vários espaços em que as cenas transcorrem, mas o cenário principal (aliás, a maioria dos cenários, já que o filme tem poucas externas) é o claustrofóbico porão subterrâneo. Entre bustos de filósofos gregos, esculturas clássicas, montanhas de livros e outros objetos, acompanhamos um pequeno número de pessoas em sua marcha pela sobrevivência. Aos poucos, cada um dos sobreviventes traça o seu próprio destino, baseados naquilo que acreditam. Um homem comete suicídio; a maior parte do grupo vai para o chamado Abrigo Central (controlado pelo governo de tendência fascista que então vigora), e o protagonista resolve ficar no porão com um grupo de crianças catalépticas.

Rolan Bykov é quem dá vida a esse protagonista que durante todo o tempo escreve mentalmente cartas para o seu filho Erick, desaparecido no desastre. Esse recurso também serve como linha narrativa para o desenvolvimento da trama, mais um acerto dos roteiristas. Cheio de esperança, o renomado físico tenta trabalhar para o bem comum e aposta em uma reestruturação da sociedade, em uma retomada da vida humana na terra, em uma interrupção da guerra. Quando todos os companheiros resolvem partir para o Abrigo Central, o velho físico e as crianças que ele adota passam a conviver como se fossem uma família e a sequência em que preparam os enfeites para uma improvisada árvore de Natal é uma das coisas mais emocionantes que eu já vi no cinema.

O amor, segundo o físico, é a força motriz do universo, o ponto de partida para a vontade do homem em criar, e através dessa arte, fazer com que o mundo se torne habitável ou suportável: “… o amor está em todo o universo”. É realmente um paradoxo esse discurso vindo de um físico. A preocupação dele com o mundo concreto assemelha-se muito ao pensamento central dos pré-socráticos e a sua tese sobre o amor me fez lembrar uma tela de Frida Kahlo pintada em 1944, cujo título não poderia ser mais exato: O Amor Abraça o Universo.
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Esperança viva
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Se a direção de Lopushansky é competente para trazer a densidade do tema que se destinou trabalhar, também o é a equipe técnica, principalmente o fotógrafo Nikolai Pokoptsev e o compositor Aleksandr Zhurbin.

A fotografia de Pokoptsev só tem duas tonalidades gerais, o descolorido de aparência sépia e o P&B para alguns flashbacks ou algumas fugas dramáticas no meio do filme. Com essas duas tonalidades, ele consegue causar uma sensação de incômodo no espectador, além de contextualizar visualmente as necessidades que sente um mundo destruído por uma guerra nuclear. O mesmo vale para os técnicos de efeitos especiais e visuais, e nesse campo, destaco a estonteante sequência em que os mísseis são lançados. Imagine o leitor assistir às explosões finais do QG do General Kurtz em Apocalipse Now em sépia, com uma montagem que dá a impressão de câmera estar circulando pelo local e com apenas a audição do sussurro de uma criança. Pois bem, adicione a isso uma grande saturação da cor amarela, paisagens sendo devoradas por explosões monumentais e você saber que aquela é a reprodução do momento exato em que o mundo deixou de ser mundo. Ao pensar nisso, o leitor estará próximo do poder imagético e sensorial que essa sequência nos causa, tudo graças a um estupendo trabalho de efeitos visuais e especiais e de fotografia.

A música de Aleksandr Zhurbin segue uma tendência minimalista, repetindo trechos, notas, e mantendo uma linha tonal que pouco se alterna. Já na introdução do filme a música ajuda a criar a atmosfera de desespero que só se intensifica no decorrer da projeção.

Cartas de um Homem Morto tem o mérito de criar um mundo e teorizar a respeito de uma hipótese catastrófica, mas não se atém ao drama fatalista, nem se desvia para a facilidade de um futuro certamente promissor. O que pulsa na pessoa do físico protagonista é a crença no amor e na arte, numa força motriz mais velha que o próprio Universo, capaz de fazer o homem ter vontade de viver e de partir para a desconhecida futura civilização. A caminhada rumo ao desconhecido é a aposta em um recomeço, é o mais alto louvor que alguém pode dar à vida. Se a mensagem final do filme volta-se para o discurso científico, para o alerta do perigo que as armas nucleares podem causar, certamente esse não é o único problema a que somos convidados a pensar. Entre a dor, a morte e a destruição, surge uma esperança viva. Cartas de um Homem Morto incomoda, faz-nos refletir sobre o paradoxo da Civilização, coloca em cheque a humanidade; no entanto, dá muito mais do que tira, faz com que o espectador sinta a necessidade de amar a vida, de se sobrepor à angústia e ao sofrimento e lutar para criar um mundo melhor.

1 – Refilmado em 2001, por Tim Burton.

Cartas de um Homem Morto (Pisma Myortvogo Cheloveka , URSS, 1986)
Direção: Konstantin Lopushansky
Roteiro: Konstantin Lopushansky, Viacheslav Ribakov, Boris Strugatsky
Elenco: Rolan Bykov, Iosif Ryklin, Viktor Mikhaylov, Aleksandr Sabinin, Nora Gryakalova, Vera Mayorova, Vatslav Dvorzhetsky, Svetlana Smirnova, Nikolai Alkanov, Vadim Lobanov
Duração: 87min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.