Crítica | Casa de Areia e Névoa

estrelas 5,0

O existencialismo, como aponta um intrigante artigo na revista Superinteressante, “é para poucos, pois exige uma honestidade que poucos possuem”. “Deus quis assim”, “A vida está nos testando”. Quem nunca leu ou escutou essas expressões? Estamos sempre responsabilizando o “outro” pelas coisas, pois raramente tomamos partido das nossas atitudes, daí o surgimento do jargão “o inferno são os outros”, de Jean-Paul Sartre. Uma obra que nos ajuda a compreender o jargão é o filme Casa de Areia de Névoa, dirigido por Vadim Perelman, baseado no romance homônimo do escritor Andre Dubus III, russo radicado no Canadá há tempos.

Na produção, duas pessoas travam uma disputa acirrada por uma casa. De um lado há a frágil Kathy (Jennifer Connely), jovem que passa por um processo de depressão após ter sido abandonada pelo marido. Por conta de uma falha documental do governo ela é expulsa de casa. Desesperada, contrata um advogado para recuperar a casa, um local que ela acredita ser o único símbolo da sua dignidade. Do outro lado, por sua vez, está Massoud Amir Behrani (Ben Kingsley), um imigrante iraniano que depois de muito trabalho, comprou a casa de Kathy por um quarto do valor, tendo em vista vende-la futuramente para ter dinheiro suficiente para a educação superior do seu filho adolescente.

Para Amir esta é uma oportunidade de dar conforto a mulher e ao filho, além de recuperar o padrão de vida que tinham no passado, enquanto moradores do Irã. Ele tem os seus interesses. Ela também tem. O que pode resultar quando o limite de um ultrapassa o do outro? Muita tensão, obviamente. A chegada de um policial serão ponto catalisador dos problemas, o que levará os personagens rumo aos trágicos acontecimentos finais.

O filme todo é uma sucessão de eficientes estratégias narrativas, tendo como destaques o roteiro assinado pelo cineasta Perelman (em parceria com Shaw Lawrence Otto) e a direção de fotografia de Deakins. No caso do texto, observamos a capacidade de não promover algum muito comum em narrativas tendenciosas: apelar para o maniqueísmo e apontar o mocinho e o vilão. Em Casa de Areia e Névoa, somos levados a defender Kathy numa cena, para na seguinte pender a nossa defesa para Amir.

Kathy é uma alcóolatra que encontrou a abstinência recentemente. Abandonada pelo marido, ela desligou-se do mundo e entrou num estado de depressão profunda, o que ocasionou a perda de interesse por abrir as correspondências. O conteúdo destes documentos informava que a falta de pagamento ou devido encaminhamento para um processo judicial resultaria na perda da casa. No entanto, quem conhece, conheceu ou está passando por um processo de depressão sabe a dor e o sofrimento de uma pessoa acometida por tal processo. Como lidar?

O conflito surge porque também precisamos compreender o outro lado. Se ela não pagou os impostos ou recorreu, perdeu o imóvel num leilão, o que o comprador que não a conhece tem a ver com isso? É neste ponto que entra Amir, um coronel do Irã, atuante no regime do Xá antes da tomada do poder pelos aiotalás, o que culminou em sua fuga com a família para terra do american way of life.

Será nos Estados Unidos que ele encontrará uma vida diferente. Anteriormente um homem poderoso, passa a sobreviver em dois subempregos para manter o antigo padrão da família: pavimentador de estradas e caixa de um posto de gasolina. Amir vive de aparências, recém forneceu um casamento de luxo para a sua filha e depois de guardar o dinheiro adequado, comprou a casa que leiloada. Capitalista? Doentio? Avarento? São esses alguns dos questionamentos que o espectador pode fazer, no entanto, o roteiro o coloca apenas como uma pessoa em busca de seus sonhos.

Por conta do problema de Kathy, até então uma desconhecida, ele teria de abandonar o conforto da sua família? O que fazer diante de uma situação como essa? O “inferno” de um começa a adentrar o do “outro”. E as coisas se tornam ainda piores por causa do policial Lester Burdon, um homem que vem de um casamento fracassado, no qual dos nove anos de casado, deixou de desejar a mulher desde o segundo, pois em determinado cena, alegou ter “se casado com a melhor amiga”. Ele é o policial responsável por expulsar Kathy da casa. Logo de cara, ao ver a fragilidade da moça, ele a ajuda no processo de desocupação, mas adiante vai se envolver de tal forma que as coisas perderão o controle, principalmente pela postura xenofóbica adotada nos momentos derradeiros da história.

Os desempenhos dos atores tornam a experiência ainda mais fantástica. Jennifer Connely consegue dar uma dimensão dramática bastante eficiente para o sofrimento de Kathy, num paralelo com o personagem de Ben Kingsley, um dos trabalhos mais arrebatadores do ator. Shohreh Aghdashloo, a esposa de Amir, encontra-se num verdadeiro caos psicológico, no entanto, as suas emoções são contidas, mesmo que ela esteja a ponto de um colapso. O fato dela não compreender a língua inglesa ajuda a ampliar a dimensão das suas angústias, o que a torna um caso de personagem bem sucedido dramaturgicamente.

Perelman, ao escolher um ótimo diretor de fotografia para acompanha-lo, torna a sua jornada trágica mais surpreendente. Roger Deakins, responsável pela fotografia do ótimo Fargo, dá o devido tratamento para a névoa, tornando-a uma espécie de personagem da trama, pois a presença do fenômeno natural envolve a casa e circunda determinados espaços de uma maneira assustadora.

Ao longo dos 126 minutos de narrativa, somos apresentados a dois personagens irredutíveis, pois cada um é dono da “sua verdade”, o que vai culminar numa tragédia sem precedentes na vida dos envolvidos, nesta caminhada cheia de antíteses, bem costurada graças ao competente trabalho de montagem assinado pela editora Lisa Zeno Churgin. A trama, ao versar sobre a falta de limites das pessoas quando são movimentadas pelos inflamáveis combustíveis de suas respectivas razões, adentra também em um tema muito comum nas obras do mainstream de 2003: o desmoronamento do que convencionamos chamar de lar. Basta se lembrar dos excepcionais Sobre Meninos e Lobos e 21 Gramas, dramas igualmente arrebatadores.

Amir enxerga na casa um reflexo do que foi a sua vida no passado. Se deportado, pode encontrar a morte no Irã. Kathy também enxerga a casa como um ícone do passado, pois herdou do pai e mantê-la é uma prova cabal da sua maturidade e da capacidade de se tornar uma pessoa que sabe cuidar de si própria.

Na época do lançamento, um crítico escreveu um texto bastante elucidativo, utilizando dois ícones do século XX: Freud e Saramago. “Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fossemos de ferro”, disse Freud. “Se tens um coração de ferro, bom proveito! O meu fizeram-no de carne e sangra todo dia”. Excertos que refletem antíteses que parecem em algum momento se complementar diante da poderosa narrativa de Casa de Areia e Névoa.

A direção iniciante de Vadim Perelman, profissional que veio de uma frutífera carreira na publicidade, não deixa a desejar em momento algum, numa demonstração de domínio absurdo da linguagem cinematográfica. O filme é uma obra-prima poderosa, integrante da tríade do sufixo “ante”: inquietante, angustiante e sufocante, a materialização audiovisual do jargão de Sartre que trafega constantemente pelas bifurcações da contemporaneidade: “o inferno são os outros” e em Casa de Areia e Névoa adentra a existência e o destino de cada um dos personagens.

Casa de Areia e Névoa (House of  Sand and Fog) – Estados Unidos/2003
Direção: Vadim Perelman
Roteiro: Vadim Peralman, Shawn Lawrence Otto
Elenco: Ben Kingsley, Frances Fisher, Jennifer Connelly, Kia Jam, Kim Dickens, Navi Rawat, Ron Eldard, Shohreh Aghdashloo
Duração: 126 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.