Crítica | Casa Grande

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estrelas 4

Já na cena de abertura de Casa Grande o diretor Fellipe Barbosa nos apresenta sua história. O personagem está na piscina tomando um uísque. Dali parte para a casa e com calma apaga as luzes de cada um dos cômodos. Na tela, o espectador é apresentado aos créditos do filme, do ator principal, passando pelos coadjuvantes, eletricistas, maquiadores, montadores, motoristas. Todos estão ali. Já no início Casa Grande mostra que é um filme de inclusão.

No Brasil de hoje o filme traz uma discussão muito pertinente: a eterna luta entre classes sociais. Ricos e pobres, brancos e negros, zona sul e favela. Jean (Thales Cavalcanti) é um adolescente de 17 anos que vive em um condomínio fechado na Barra da Tijuca, zona nobre do Rio de Janeiro. Estuda em um dos melhores colégios da cidade e todos os dias é acordado pelo pai Hugo (Marcello Novaes) e é levado pelo motorista até à escola.

Jean vive os problemas típicos de todo o adolescente nesta idade: quer pegar mulher, mas não sabe bem como fazer isso, precisa decidir seu futuro profissional e está em dúvida entre Comunicação, Direito e Economia, a preferência de seu pai. Quando o motorista da família, que trabalha na casa há 15 anos é demitido, Jean vê sua vida desmoronar. A família passa por sérios problemas financeiros. O pai, um economista de respeito, está perdendo fortunas na bolsa de valores e se vê endividado até os dentes (qualquer semelhança com a história real de Eike Batista não parece ser mera coincidência). Os quatro carros estacionados na garagem da família passam para “apenas” dois. Jean ganha do pai um cartão para usar no ônibus que o levará para casa. A família deixa de comer filé mignon e passa a saborear empanados de frango no jantar. É na nova rotina de “suburbano” que Jean conhece Luíza (Bruna Amaya), jovem que vive em São Conrado (apesar de ele achar que ela mora na Rosinha) e de cara engata um namoro com ela.

O roteiro escrito por Barbosa e Karen Sztajnberg é bastante fiel à realidade vivida hoje no Brasil. A história flui de forma leve, mas sem nunca deixar de lado o tom sério dos problemas vivenciados pelos personagens. É possível rir em algumas sequências, apesar de ainda me incomodar alguns aspectos usados para delimitar a linha entre ricos e pobres. Por exemplo, enquanto a família janta ouvindo música clássica a empregada na cozinha saboreia seu arroz com feijão e banana, os empregados da casa só ouvem forró e todos são felizes, apesar de passarem por muitas dificuldades na vida.

Talvez a minha maior crítica ao longa seja justamente em um desses momentos. A personagem Luíza visita pela primeira vez a “casa grande” do namorado. A família a recebe como manda o figurino e no meio do almoço regado à picanha, inicia-se uma discussão sobre cotas raciais. A menina, até então nunca tinha falado nada sobre o tema, levanta a bandeira por ser parda e se utilizar do sistema. Agride verbalmente o pai, a mãe e o almoço familiar é substituído por aquele climão. Não acho que a discussão de cotas não possa ser feita em almoços familiares, longe disso, mas no filme ela simplesmente fica um pouco deslocada.

Mas se alguns pontos do roteiro se mostram confusos, o mesmo não pode-se dizer do elenco. Os nomes misturam atores conhecidos (Marcello Novaes e Suzana Pires só para citar alguns) com alguns não-atores. Cavalcanti foi recrutado na escola onde seu personagem estuda e Amaya também estrela o seu primeiro longa. A mistura deu certo e rendeu prêmios em muitos festivais como o Festival de Paulínia (Melhor roteiro, melhor ator coadjuvante para Marcello Novaes, melhor atriz coadjuvante para Clarissa Pinheiro e o prêmio Especial do Júri para o diretor Fellipe Barbosa), Festival de Palmares, em Toulouse (Prêmio de público, prêmio de crítica internacional  e prêmio de crítica francesa), além de ser exibido nos festivais de Rotterdam e no Festival do Rio.

Casa Grande se mostra um filme necessário, principalmente neste momento em que o Brasil está vivendo. Ele abre uma discussão interessante, um debate que precisa ser travado na sociedade. Afinal, há um abismo que separa ricos e pobres nesse país e as políticas públicas criadas para diminuir essa distância são cada vez mais criticadas e mal utilizadas. O Brasil saiu da escravidão há muitos anos, mas ainda vemos hoje sim, em muitas cidades, uma diferença muito grande entre a casa grande e a senzala. A pergunta que fica é, até quando? Ou melhor, será que um dia essa diferença terá um fim?

Casa Grande – Brasil, 2014
Direção: 
Fellipe Barbosa
Roteiro: Felippe Barbosa e Karen Sztajnberg
Elenco: 
Thalles Cavalcanti, Marcello Novaes, Suzana Pires, Clarissa Pinheiro, Lucélia Santos, Bruna Amaya, Georgiana Góes e Sandro Rocha
Duração: 115 minutos

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.