Crítica | Casablanca (1942)

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estrelas 4,5

Casablanca é, acima de qualquer outra consideração, um filme de amor. Uma narrativa de romance impossível em meio à guerra repleta de clichês e personagens criados a partir de arquétipos estabelecidos décadas antes. E, mesmo assim, Casablanca é Cinema em sua máxima expressão, um filme que transcende a época em que foi feito e que retrata, um filme que prende e emociona qualquer espectador, um filme que desvela que o clássico está nos detalhes e em uma conjunção quase aleatória de fatores.

Afinal, Casablanca foi concebido como um produto não tão especial assim, uma obra baseada em peça teatral que nem havia sido montada (e cujos direitos de adaptação cinematográfica foram comprados pelo valor recordista de 20 mil dólares) e que, apesar de juntar um elenco estelar – Humphrey Bogart, vindo de Relíquia Macabra e Ingrid Bergman, que ganhou fama com a refilmagem americana de Intermezzo, mas que vinha amargando fracassos em solo americano -, não era muito mais do que outra produção anti-Nazista propagandística, fator que também obviamente pesou em sua recepção pelo público da época e que foi amplificada pelo fato de ter usado atores refugiados da Europa tanto em papeis importantes (Peter Lorre, Paul Henried e Conrad Veidt) como em secundários (Trude Berliner, Ludwig Stössel e Wolfgang Zilzer para citar alguns).

Quase que completamente filmado em estúdio, com um orçamento pouco acima da média para filmes dessa natureza à época e com fotografia principal executada em oito semanas, Casablanca é um primor em seus detalhes. A ação é quase que integralmente passada no Marrocos, mas pouco vemos do local que não seja o Café Americain de Rick (Bogart) que, com algumas poucas mudanças, poderia facilmente ser um cabaré em Nova York. A mágica é feita por um desenho de produção que ao mesmo tempo é econômico e extremamente inteligente, dando atenção a minúcias aparentemente bobas, mas que emprestam legitimidade ao que vemos nas telas (é quase mítica a insistência de que um papagaio de verdade fosse usado no Blue Parrot).

Acima de tudo, porém, há o roteiro. É ele que realmente nos prende completamente à narrativa com seus diálogos que escondem mais do que revelam, com as meias-palavras, com o fantástico uso de duplo significado a todo o momento não só para fugir do famigerado Código de Produção, como também para evitar escândalos maiores na sociedade em geral (afinal, os favores sexuais obtidos pelo Capitão Louis Renault, vivido por Claude Rains, formam um dos pilares da narrativa). Não é à toa que o cuidadoso roteiro de Julius e Philip Epstein e Howard Koch não só arrebanhou o Oscar de melhor em sua categoria, como gerou um sem-número de frases até hoje repetidas por cinéfilos mundo afora (e que, dentre elas, não está “Play it again, Sam“, jamais dita no filme).

É o roteiro, também, que disfarça a narrativa de amor impossível ou proibido em uma emocionante história de fuga de um líder da Resistência, Victor Laszlo (Henreid) e sua acompanhante Ilsa (Bergman) por Casablanca até Lisboa para chegar aos EUA. Muita narrativa em off é usada no começo para explicar o funcionamento geográfico da fuga de refugiados da França pelo norte da África, mas é um artifício necessário que apenas prepara o espectador para um olhar íntimo e dedicado exclusivamente ao triângulo amoroso existente entre Rick, Ilsa e Victor.

Se há um problema na história, ele está localizado no uso do flashback em que aprendemos sobre o passado de Rick e Ilsa. Sempre me incomodei com ele e esse incômodo não desapareceu com uma nova conferida na fita para a elaboração da presente crítica. Afinal, sua função didática está lá para evitar o mistério, evitar que as meias palavras fiquem só assim. É uma muleta narrativa que vem de encontro aos anseios de um público que talvez queira tudo bem explicado, nada deixado para a imaginação. No entanto, esse é o típico caso em que a manutenção do mistério teria beneficiado incrivelmente a fluidez da história.

Mas o flashback é algo que podemos perdoar diante da magnífica construção dos personagens tanto pelos atores e roteiro como pela fotografia. Reparem, por exemplo, como Ilsa é vista pela câmera de Arthur Edeson (também vindo de Relíquia Macabra), o diretor de fotografia. Focando seu lado esquerdo na maioria das tomadas (exigência da atriz, ainda que ambos os lados de seu rosto sejam perfeitos), Edeson aplica um filtro que esmaece a imagem e que permite que os olhos da atriz reflitam os holofotes usados na iluminação. O resultado é um constante e inafastável ar melancólico na personagem, que parece carregar – e efetivamente carrega – o peso do mundo em suas costas. A tristeza palpável de Ilsa aliada à sua beleza arrebatadora é capaz de comover qualquer um, tornando-a uma personagem complexa, dividida entre dois amores que gosta de formas diferentes. Bergman consegue, sem transparecer dificuldade, transitar entre a mulher perdidamente apaixonada por Rick e a jovem que admira ao ponto da adoração seu ídolo Victor. É um papel difícil, sutil e que a atriz acerta a todo momento ao ponto de ter sido uma grande injustiça ela sequer ter concorrido ao Oscar.

Humphrey Bogart, por outro lado, faz o papel “bogartiano” típico: o homem durão que não liga para as pessoas, mas que tem um enorme coração. É como se todos os clichês do gênero noir fossem martelados em apenas um personagem. O grande diferencial está mesmo no quanto ele muda quando Ilsa entra em cena (“Of all the gin joints in all the towns in all the world, she walks into mine.“). Sua segurança e indiferença caem por terra. Sua frieza desmorona com o que óbvia e imediatamente identificamos como um amor profundo que ele sente por ela, mas um amor profundo ressentido, recrudescido por eventos no passado que são objetos do já mencionado flashback. Em circunstâncias normais, seria fácil classificar o personagem como meramente raso e clichê, pois ele é apresentado de uma forma e, em seguida, muda completamente, com sua apresentação exagerada (ele é basicamente a Suíça, nunca interferindo, nunca tomando partido em nada, algo que o roteiro repete à exaustão) servindo para criar a “surpresa” de sua reação a partir da chegada do amor de sua vida. E essa classificação, vejam bem, não estaria de todo errada não fosse uma espécie de conjunção astral que torna Casablanca o que é: um clássico inesperado que consegue agradar em praticamente todos os níveis. Se este era apenas “mais um filme” da Warner, então a oposição de Rick à Ilsa, a trama geopolítica dando estofo ao romance proibido, a forma cínica que os diálogos são falados e a fotografia preto-e-branco de Edeson se fundem em um resultado único, inimitável, inesquecível e Bogart, com seu jeito clichê de ser (seria até justo dizer que, de certa forma, ele criou esse tipo de personagem), faz um Rick Blaine indelevelmente ligado à trama, com sua rudeza refletindo a delicadeza de Bergman. É uma atuação que desafia convenções, definitivamente.

E o mesmo se pode dizer de Claude Rains, que vive o corrupto Capitão Louis Renault. Reparem como, em sua essência, seu personagem é asqueroso, vil, alguém que se beneficia de tudo e todos, inclusive sexualmente. Impossível gostar de um sujeito assim, não é mesmo? Mas Rains faz um Louis tão interessante (talvez também até caricato) que é até embaraçoso admitir que não dá para simplesmente deixar de sentir alguma afeição por ele. Confesso que usei até um eufemismo aqui, pois seu personagem é, para mim, fascinante, mais ainda que Rick. Um bon vivant completamente ciente do quão podre é, Louis é, no fundo – bem lá no fundo – um patriota e um grande amigo de Rick (“Louie, I think this is the beginning of a beautiful friendship.“), alguém que perdeu sua retidão moral, mas não completamente. Seus atos são indesculpáveis, mas, de alguma forma aceitamos e torcemos pelo personagem.

A direção de Michael Curtiz não é particularmente especial nem brilhante. Ele faz uso de plano médios e americanos simples, sem grande movimentação de câmera, jamais chamando atenção para si mesmo. E é justamente aí que ele acerta em cheio. Ao deixar sua câmera em “modo observação”, beneficiando-se quase que naturalmente da bela fotografia de Edeson, Curtiz dirige de maneira invisível, sem maneirismos ou intrusões indevidas. Com isso, o foco fica todo nas atuações, na fotografia e no desenho de produção, permitindo que o espectador mergulhe nos detalhes do cenário, na frieza inicial de Rick, na canalhice de Louis e na beleza melancólica de Ilsa.

Finalmente, o uso da música é particularmente notório em Casablanca. A trilha original, composta por Max Steiner (que antes compusera a de ...E o Vento Levou), é, assim como a direção de Curtiz, discreta, chamando muito pouca atenção para si mesma, o que é uma dádiva em razão do uso mais constante de composições não-originais, notadamente It Had to Be You, Shine, Avalon e Perfidia, além do hino francês La Marseillaise representando os aliados e Die Wacht am Rhein representando o Eixo na famosa “batalhada de hinos”, sendo que o primeiro assim como as notas introdutórias de Deutschlandlied, são usados ao longo da trilha de Steiner também para representar cada lado do conflito. Mas é claro que Casablanca imortalizou As Time Goes By, que muitos acham que foi composta para o filme, mas que, na verdade, foi composta em 1931, por Herman Hupfeld e usada na peça que serviu de base ao filme. Essa canção, que funciona como a música símbolo do romance entre Rick e Ilsa, é tocada por Sam (Dooley Wilson) três vezes no Café Americain e suas notas são também incorporadas na trilha de Steiner. O resultado dessa combinação quase que inusitada de canções preexistentes, hinos famosos e trilha original é perfeita para acompanhar a história, com cada nota tendo sua função narrativa assim como cada palavra nos diálogos. É um dos raros exemplos de trilha que faz parte inafastável da narrativa.

Provando que clichês e estereótipos podem funcionar dentro de uma estrutura enxuta e que preza pela simplicidade, com roteiro e atuações inesquecíveis, Casablanca é uma joia da Sétima
Arte, um filme que melhora a cada nova conferida. Here’s looking at you, kid.

Casablanca (Idem, EUA – 1942)
Direção: Michael Curtiz
Roteiro: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch (baseado em peça de Murray Burnett e Joan Alison)
Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet,  Peter Lorre, S.Z. Sakall, Madeleine Lebeau, Dooley Wilson, Joy Page
Duração: 102 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.