Crítica | Casamento de Verdade

estrelas 1

Há quem diga que a arte imita a vida. Imitar parece um verbo mais do que apropriado, pois a arte, inclusive o cinema, conta com uma opção que cada ser humano, por si só, não possui: o de trabalhar com distintos pontos de vista principalmente, por permitir a inserção de toda uma equipe na elaboração de uma produção audiovisual, com cada membro tendo a chance, direta ou indiretamente, de colocar um pouco de si na obra.

Tal possibilidade, contudo, é aproveitada ao mínimo por Casamento de Verdade (Jenny’s Wedding). Na trama, a moça do título (Katherine Heigl), criada em uma típica família americana cristã, está na idade de se casar, mas apesar da constante pressão para que o faça, os dias passam e ela não apresenta sequer um namorado. A explicação surge quando o espectador descobre que Jenny, na verdade, é homossexual, namora e quer se casar com aquela que era apresentada como sua colega de quarto, Kitty (Alexis Bledel). Resoluta quanto ao casamento e com o apoio da namorada, resolve contar a verdade à família.

Num mundo onde as pessoas ainda têm tanta dificuldade em lidar com o diferente, é realmente triste observar como o longa cai na pior, porém mais comum armadilha possível para abordar o distinto, o novo. Tal armadilha é tentar tornar o diferente não como a coisa mais natural possível, mas como algo tão igual ou aceitável ao seu próprio padrão de vida. Assim, de tanto se querer igualar coisas inigualáveis, aquilo que foge ao padrão de cada um acaba parecendo não só mais diferente do que realmente é, mas, aí sim, uma aberração, uma mentira. Tem-se aí o grande problema de Casamento de Verdade. O filme passa tanto tempo ocupado em convencer o público conservador (entenda-se por conservador um público cristão, hétero e que tem problemas em aceitar mudanças de gênero sexual) de que ser gay é normal. Assim, todo o grande foco do longa acaba caindo sobre o conflito ocasionado pela revelação sexual de Jenny nos pais e mesmo na irmã da personagem, mas, adivinhe, é quase nulo no que diz respeito à própria Jenny e sua companheira.

Observe-se que sequer é possível acreditar no amor das duas, quando tudo o que se vê, nos momentos em que as duas contracenam, não representa quase nenhuma intimidade real entre ambas. Veja bem, por intimidade não se quer dizer sexo ou beijos acalorados, ainda que, de fato, tais coisas não apareçam em momento algum em tela, mas pura e simplesmente uma retratação, no mínimo, mais inspirada, elaborada da cumplicidade inevitável de pessoas que estão, de fato, apaixonadas, cumplicidade que tem de dar um passo distinto da amizade. É como se o filme se preocupasse em privar seu público do eventual desconforto que tal retratação poderia ocasionar.

Há quem possa argumentar, equivocadamente, que um filme como Casamento de Verdade reflete a necessidade de certas pessoas terem de abrir sua mente para o novo com maior delicadeza, mais lentamente. Como dito, porém, um filme apenas imita a realidade e, no caso do presente longa, tal argumento não o salva do problema de focar em apenas num lado da história, de não dar voz às pessoas sobre as quais fala. Se quer bons títulos com temática semelhante à desse filme, assista ao ótimo brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho – filme leve, doce, sem cenas de amasso e, ainda assim, muito mais eficaz em sua narrativa -, ou ao mais ousado, porém, também belíssimo, francês Azul é a Cor Mais Quente.

Casamento de Verdade (Jenny’s Wedding), EUA – 2015
Direção: Mary Agnes Donoghue
Roteiro: Mary Agnes Donoghue
Elenco: Katherine Heigl, Tom Wilkinson, Linda Emond, Grace Gummer, Alexis Bledel, Sam McMurray, Diana Hardcastle, Matthew Metzger, Houston Rhines, Cathleen O’Malley
Duração: 94 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.