Crítica | Casanova 70

estrelas 4,5

O Major Andrea Rossi-Colombotti (Mastroianni) sempre foi um “homem normal”. Isso quer dizer que ele, segundo seu próprio julgamento, sempre teve uma vida sexual saudável. Até que começou a perceber um comportamento estranho em sua libido. Ele tinha vontade de fazer sexo, mas a excitação só parecia vir quando ele estava em algum momento de perigo, diante de algo que o deixasse com medo ou com muita raiva, algo que o colocasse em uma situação difícil, arriscada ou constrangedora. Este é o plot central desta adorável comédia de Mario Monicelli, que ao trazer mais um ‘Giacomo Casanova‘ para o cinema, o fez atacando o personagem (e ao homens), onde mais lhe fere o ego: na virilidade.

Casanova 70 pode ter seus momentos estranhos, abordagem um tanto confusa para algumas mulheres e ritmo que requer do espectador entendimento imediato da proposta — caso contrário, não se verá na fita nada demais além de uma sequência de aventuras sexuais juntas em um único filme –, mas nenhum desses pequenos pontos roubam o brilho do roteiro ou das atuações hilárias de Marcello Mastroianni (Andrea) e Enrico Maria Salerno (Psicanalista).

Em um primeiro momento, tentamos entender a origem dessa nova necessidade do protagonista e nos assustamos com suas atitudes precipitadas e um pouco ilógicas, mesmo percebendo que ele está à procura de um jogo erótico. Mas é quando ele tem a sua primeira, única e magistralmente bem dirigida consulta com o psicanalista — que é misógino –, que temos uma explicação mais ou menos coerente para o “problema da excitação”, algo que o Doutor tenta curar com o seguinte conselho: afaste-se das mulheres. Monicelli e seus parceiros de escrita pegaram todos os clichês possíveis de um homem que necessita de impulso além do físico para excitar-se — o que no início é confundido com impotência pelo protagonista — e exagera o quando pode as situações em que ele se colocaria, caso não pudesse controlar, a necessidade de expor-se ao perigo.

Em um olhar superficial, o texto se estrutura nas desventuras de Andrea em tentativas de transar com alguma mulher, mas basta prestar atenção ao que é narrado e o espectador verá quais tipos de mulheres ele encontra pelo caminho, a forma como ele se apresenta a cada uma delas ou tenta moldar-se ao seu mundo, aos seus costumes. No final, quando ele fala sobre a “arte da conquista” é exatamente isso que concluímos de cada “esquete”, com o detalhe de haver um estudo comportamental e social juntamente com a comédia libidinosa, de onde se sobressaem uma contundente crítica à igreja e ao sistema judiciário, o que sempre gera alguma discussão entre as mulheres, dependendo de sua forma de olhar o mundo e as relações amorosas: o agradecimento que elas fazem ao Major, após o julgamento de Andrea.

Já ouvi defesas e condenações de todos os lados sobre esse momento do filme. Afinal, Monicelli e os outros roteiristas estavam dizendo que as mulheres são “o sexo frágil, harpias, serpentes” e que forçavam o pobre Major àquele tipo de situação; ou são libidinosas que se sentem orgulhosas em ter um homem viciado em sentir perigo para conquistá-las? Sinceramente, não vejo nenhum tipo de preconceito ou machismo no roteiro de Casanova 70. Muito pelo contrário, vejo-o como uma bela homenagem, pois que as mulheres aqui não dependem do protagonista para conseguir o que querem. A bem da verdade, elas controlam a situação e, se há dentre elas pessoas boas ou ruins, o texto as mostra como são. Como disse anteriormente, um olhar superficial para o filme pode fazer o público perder muita coisa a seu respeito.

Junto a uma equipe técnica funcionando em perfeita sintonia (o maior destaque vai para a direção de arte, pelo design do castelo do Conde, interpretado maravilhosamente pelo também diretor Marco Ferreri; e pelo consultório do psicanalista), um elenco bem escolhido e uma direção ágil, Casanova 70 é um convite ao riso e à discussão sobre sexo e fetiches, algo muito familiar a todos nós e o que torna o longa uma clássica, humana e obrigatória comédia italiana.

Casanova 70 (Itália, França, 1965)
Direção: Mario Monicelli
Roteiro: Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Mario Monicelli, Tonino Guerra, Giorgio Salvioni, Suso Cecchi D’Amico
Elenco: Marcello Mastroianni, Virna Lisi, Marisa Mell, Michèle Mercier, Enrico Maria Salerno, Liana Orfei, Guido Alberti, Beba Loncar, Moira Orfei, Marco Ferreri
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.