Crítica | Caso 39

estrelas 3

Todos os dias são registrados uma enorme quantia de casos envolvendo abuso infantil ao redor do planeta. Um dos tópicos mais frequentes é a tortura psicológica. Em Caso 39, somos inicialmente apresentados ao tema e ficamos com bastante aflição ao acompanhar o sofrimento da pequena Lilith (Jodelle Ferlandi), entretanto, ao passo que o filme vai se desenvolvendo, percebemos que a garota não é tão inocente. Ela é um personagem do subgênero “crianças malditas”, um campo fecundo dentro do amplo espaço de produção dos filmes de terror ao longo da história do cinema.

Clássicos como A Tara Maldita, A Cidade dos Amaldiçoados, Colheita Maldita, A Profecia e O Exorcista são a prova cabal que crianças possuídas ou malignas podem ser mais assustadoras que psicopatas mascarados, espíritos vingativos e monstros gigantescos. Tema polêmico nas diversas esferas de debates intelectuais do mundo, a maldade e a crueza com a qual certas crianças e adolescentes empregam em seus delitos, como o terrível caso Isabela Nardoni, ocorrido aqui no Brasil há alguns anos, são argumentos da realidade que ganham as telas do cinema frequentemente, como no tenso Anjo Malvado e A Órfã, ambos presos aos aspectos comportamentais dos seus algozes, fora do eixo possessão e espiritualidade.

Em Caso 39, o direcionamento é a presença de um demônio para atormentar a vida da assistente social Emily Jerkins (Reneé Zelweger), uma profissional idealista e solitária que luta para salvar a vida de uma garota chamada Lilith, supostamente vítima de pais abusivos. Há uma abertura digna, com movimentos tensos e montagem frenética, mas equilibrada, alternando tensão e apresentação dos personagens e do enredo.

Após achar que salvou a vida da menina, a assistente social vai se ver diante de um pesadelo: pessoas começam a morrer misteriosamente, todas vítimas da menina perigosa. É nesse momento que Emily descobrirá que está dormindo com o inimigo na sua casa, nada mais que o demônio na pela de uma garota aparentemente inocente. Mas como diz a fala popular contemporânea, “só que não”. Basta observar o seu nome: Lilith é o nome de um demônio conhecido por incentivar o adultério, a destruição de qualquer espaço físico ou abstrato (relacionamentos, amor, respeito) e prega as maldades mais inimagináveis.

O filme é interessante, mas flerta com outros exemplares do gênero, como A Profecia e O Chamado, e por estes serem bem melhores, Caso 39 tem os seus defeitos delineados pelo espectador mais exigente: primeiro, o clima estabelecido na abertura se perde ao longo do filme. O demônio, que deveria ser mais astuto, não é. Basta dormir para ser eliminado. “Como assim produção?”. A assistente social perde o seu celular e só percebe isso dois dias depois, o que soa absurdo: o aparelho é fundamental para o desenvolvimento do trabalho da personagem.

A atriz Reneé Zelweger não é ruim, a postura lerda e vaga da moça é possui verossímel diante do perfil que nos é apresentado: alguém solitária, inerte e aparentemente sofrida. O problema é o tom de voz infantilizado empregado na atuação, algo no mínimo Minnie, da Disney, algo muito estranho. O clichê personagens céticos (que duvidam das suposições de Emily) x personagens crentes (que entendem as preocupações de Emily com o macabro) não atrapalham a narrativa, mas soam como mais do mesmo.

No que tange ao trabalho visual, Caso 39 é ótimo. O designer de produção John Willet cria um tom excepcional na casa dos pais de Lilith, um ambiente claustrofóbico e com requintes de opressão, adornado por papeis de parede sujos e representados com símbolos que nos remete à tristeza. Os efeitos sonoros ajudam na tentativa de criar um “tom” para o filme, mas não é nada surpreendente ou que já tenha sido feito melhor antes. Em linhas gerais, o filme é tecnicamente eficiente, se não fosse alguns dos seus problemas narrativos, mas nada que seja tão ruim a ponto de estragar a sessão.

Filmado em 2006, mas lançado apenas em 2009, o filme passou pelas famosas maldições de bastidores. Uma delas foi um incêndio que destruiu parte do set de filmagens, acontecimento que colaborou com as velhas teorias macabras que todos nós gostamos de ouvir. Caso 39 torna-se emblemático no bojo da indústria cinematográfica por dois aspectos: é o retorno da atriz Reneé Zelweger aos filmes de terror, haja vista que ela participou do horroroso O Massacre da Serra Elétrica 3, em 1994, e a produção é um daqueles filmes que chegam primeiro ao Brasil, sendo lançado em seu país de origem, os Estados Unidos, depois, um sinal de que os investidores locais não estavam muito interessados na produção.

Caso 39 (Case 39, EUA – Canadá – 2009)
Direção: Christian Alvart
Roteiro: Ray Wright
Elenco: Renee Zelweger, Georgia Craig, Alexander Conti, Bradley Cooper, Jodelle Ferland, Ian Mcshane, Callum Keith Rennie.
Duração: 109 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.