Crítica | Cassino Royale (1967)

estrelas 2,5

Para aqueles que acham que Cassino Royale, filme do 007 estrelando Daniel Craig, de 2006, foi a primeira adaptação cinematográfica da obra de mesmo nome de Ian Fleming, não deve ter ouvido falar do filme que comentarei aqui. Aliás, esse mesmo livro, já em 1954, havia se tornado um capítulo da série de TV da CBS chamada Climax!, em que Barry Nelson vivia um agente da CIA chamado Jimmy Bond. O filme de 1967 é, na verdade, muito mais uma curiosidade cinematográfica do que efetivamente um filme imperdível, já que, como verão, ele está longe de ser algo brilhante.

A primeira coisa que se deve perceber é que o Cassino Royale de 1967 não faz parte da série canônica de James Bond. Quando os direitos sobre as obras literárias de Ian Fleming foram negociados com a Eon Productions (Harry Saltzman e Albert R. Broccoli), Cassino Royale ficou de fora, pois já tinha sido vendido por Ian Fleming para Gregory Ratoff, em 1958. Isso tornou possível a produção de um filme baseado no livro fora da série principal por parte de Charles K. Feldman, que representou a viúva de Ratoff na manutenção dos direitos. Feldman, então, depois de tentar, mas não conseguir produzir um filme com a Eon, ofereceu-o para a Columbia Pictures na forma de uma sátira, já que sabia que não conseguiria competir com a série oficial dentro do mesmo gênero.

O resultado foi uma comédia escrachada “estilo Mel Brooks” tendo um James Bond mais envelhecido (David Niven) como protagonista. Mas essa história de bastidores torna-se ainda mais interessante – bem mais que o próprio filme – quando percebemos o impressionante elenco reunido pela Columbia: além de David Niven, participam de Cassino Royale atores como Ursula Andress (a inesquecível Honey Ryder voltando ao universo de James Bond, dessa vez como Vesper Lynd), Peter Sellers, Orson Welles (Le Chiffre), Woody Allen, Deborah Kerr, William Holden, John Huston, Jean-Paul Belmondo, George Raft, Jacqueline Bisset e diversos outros. Peter O’Toole e Geraldine Chaplin aparecem no filme sem receber créditos, assim como vemos os débuts cinematográficos de Anjelica Huston (mas só suas mãos!) e de David Prowse, mais conhecido como o ator que vestiu a armadura de Darth Vader em Star Wars.

Essa verdadeira salada no elenco já faz de Cassino Royale uma divertida “caça ao ator”. Pena, porém, que o roteiro e a montagem não nos forneçam algo concatenado e realmente engraçado como as gags rápidas e eficientes de Mel Brooks. Também pudera, o filme não teve apenas um ou dois diretores. Não, com um elenco desse tamanho, um total de seis diretores embarcaram no projeto: Val Guest, Ken Hughes, John Huston (sim, ele mesmo), Joseph McGrath, Robert Parrish e Richard Talmadge, sendo que Talmadge nem crédito recebeu. E roteiristas? – vocês devem estar perguntando. Foram três oficiais e creditados e mais sete sem créditos, incluindo Woody Allen, Billy Wilder e Peter Sellers.

Incrível, não?

E a cereja no bolo – e, provavelmente, a maior razão para a desconexão entre as cenas – é que cada diretor atuou em seu próprio mundinho, sendo responsável por determinadas cenas mais ou menos como funcionam os diretores de segunda unidade. Depois, coube a Bill Lenny, experiente, mas inexpressivo montador, trabalhar para juntar as cenas com alguma coerência, algo que acaba não conseguindo.

Outro aspecto folclórico do filme foi a famosa briga entre Sellers e Welles. A coisa foi tão séria que os dois não compartilharam o mesmo estúdio simultaneamente, a não ser por breves tomadas, tamanha era a incapacidade de Welles em aceitar o que chamava de “amadorismo” de Sellers. Por sua vez, o ator que viveu e continuaria a viver o Inspetor Clouseau, sentia-se “intimidado” pela presença de Welles. Só isso já valeria um filme inteiro, não?

Bom, se a história é importante para vocês, vamos à ela. O primeiro James Bond (Niven), aposentado, é trazido de volta à ativa por M (John Huston) para enfrentar a SMERSH, entidade vilanesca que vem eliminando os agentes secretos de vários países. Quando M morre em um ataque à mansão de Bond ordenado por ele próprio, Bond, que equaliza seu trabalho de espião ao celibato, passa a comandar o MI-6 e deflagra um confuso plano que recruta vários agentes, homens e mulheres (todos renomeados James Bond 007, assim mesmo, junto) para acabar com a ameaça. No meio do caminho vemos Bond (o original) ser assediado por mulheres da SMERSH que objetivam destruir sua imagem de celibatário, descobrimos que ele e a famosa espiã Mata Hari tiveram uma filha batizada de Mata Bond (Joanna Pettet) e aprendemos que ele tem um sobrinho chamado Jimmy Bond (Woody Allen), dentre vários outros acontecimentos que só podem ser classificados como bizarros, mesmo considerando-se a natureza do filme.

As sequências construídas para serem engraçadas são longas demais e engraçadas de menos, o que derruba o ritmo do filme em vários momentos. Por exemplo, a tentativa de sedução de Bond (Niven) na mansão de M demora uns bons vinte minutos, com uma repetição temática que elimina a graça em seus primeiros cinco minutos. Da mesma maneira, a cena da dança de Mata Bond é quase um musical a parte, afetando fortemente a continuidade do filme.

Mas nem tudo se perde. A trilha sonora de Burt Bacharach e Herb Alpert & the Tijuana Brass é ótima, além da canção The Look of Love, cantada por Dusty Springfield, que concorreu ao Oscar. Até mesmo o compositor da franquia oficial dá as caras, com a canção Born Free.

A qualidade da produção também é muito boa. Os detalhes dos figurinos e dos cenários são dignos de superproduções épicas e chegam a ser mais ostensivos que qualquer filme oficial de James Bond da época. Além disso, algumas piadas fazendo referência à série original, como Bond (Niven) reclamando que seu nome foi roubado por um maníaco sexual, são muito bem escritas. No entanto, a qualidade da produção e as poucas piadas se perdem no emaranhado da trama.

No alto de seus 131 minutos de projeção, Cassino Royale é uma confusão narrativa incoerente que não funciona bem nem como pastiche ou sátira nonsense. Pode ser divertido ver algumas atuações aqui e ali, procurar os diversos atores famosos que pontilham a obra e refestelar-se com a fleuma exagerada de um Bond celibatário vivido por David Niven (aliás, o ator preferido por Ian Fleming para viver Bond), mas o filme não passa de uma curiosidade.

Cassino Royale (Casino Royale, Inglaterra/Estados Unidos, 1967)
Direção:  Val Guest, Ken Hughes, John Huston, Joseph McGrath, Robert Parrish, Richard Talmadge
Roteiro: Wolf Mankowitz, John Law, Michael Sayers, Woody Allen, Val Guest, Ben Hecht, Joseph Heller, Terry Southern, Billy Wilder, Peter Sellers
Elenco:  David Niven, Peter Sellers, Ursula Andress, Orson Welles, Joanna Pettet, Daliah Lavi, Woody Allen, Deborah Kerr, William Holden, Charles Boyer, John Huston, Kurt Kasznar, George Raft, Jean-Paul Belmondo, Terence Cooper, Barbara Bouchet, Angela Scoular, Gabriella Licudi, Tracey Crisp, Elaine Taylor, Jacqueline Bisset, Alexandra Bastedo, Anna Quayle, Derek Nimmon, Ronnie Corbett, Colin Gordon, Geoffrey Bayldon, John Wells, Geraldine Chaplin, Anjelica Huston, Peter O’Toole, David Prowse
Duração: 131 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.