Crítica | Castlevania – 1ª Temporada

estrelas 5,0

Uma das franquias mais icônicas dos games, existente desde os tempos do NES, Castlevania é também uma das que mais vem sido destratada nos últimos anos, com a Konami, sua desenvolvedora, insistindo em não entregar o que os fãs pedem: o retorno do clássico “metroidvania” aos moldes de Symphony of the Night. Fã de longa data da série de jogos, órfão desde Order of Ecclesia, naturalmente vibrei com o anúncio do seriado animado a ser produzido pela Netflix, que adaptaria para as telinhas a trama de Castlevania III: Dracula’s Curse. Quando descobri que o roteiro seria escrito por Warren Ellis, de Hellblazer, a ansiedade, claro, apenas aumentou.

Essa primeira temporada da série tem início com eventos que soarão familiares aos fãs da franquia: Lisa (Emily Swallow), esposa humana de Vlad Drácula Tepes (Graham McTavish), é queimada na fogueira, acusada de bruxaria pela Igreja. Ao descobrir sobre o ocorrido, Drácula jura vingança, prometendo soltar seu exército sobre a Wallachia um ano a partir daquela data. Quando o dia chega, as cidades da região começam a ser assoladas por demônios, com seus cidadãos sendo mortos indiscriminadamente. Não muito longe do epicentro desse cataclisma, encontramos Trevor Belmont (Richard Armitage), último da linhagem Belmont, lendários caçadores de vampiros que foram excomungados pela Igreja (percebem o padrão?). Cabe a ele descobrir uma forma de impedir as hordas demoníacas e derrotar o senhor das trevas.

Depois de tantos anos é uma grata surpresa enxergar as tramas de Castlevania IIISymphony of the Night serem utilizadas para compor essa série. Temos aqui um retorno à velha figura do vampiro, que pode ser combatido por aquilo que é sagrado, algo muito bem vindo após tantas releituras da criatura sobrenatural (algumas verdadeiramente vergonhosas). Ellis, que assina o roteiro dos quatro episódios, deixa sua marca de maneira bem clara, espelhando seu Trevor em John Constantine, quando se trata da personalidade. De imeciato conseguimos nos identificar com o personagem, que muito bem representa a luz da razão nessas trevas dominadas pelo controle firme da Igreja.

Apesar de ser uma clássica história do bem contra o mal, Ellis garante profundidade à sua trama ao explicar (não justificar) as ações do conde vampiro. As chamas da Inquisição são retratadas como um terror tão grande quanto os próprios demônios e a morte de Lisa é trágica ao ponto que simpatizamos com as ações do principal antagonista da série, torcendo para que ele destrua os fanáticos religiosos que queimaram aquela mulher somente porque ela utilizava a ciência para ajudar as pessoas. Além disso, é criado o paralelo imediato com os Belmonts, a tal ponto que a família e Drácula representam os dois lados da mesma moeda, já que ambos tiveram destinos similares.

Há de ser louvado todo o trabalho de design, que respeita a aparência original dos personagens e se apoia em clássicos elementos da franquia de video-games, em especial o próprio castelo de Drácula, que apresenta construções muito à frente de seu tempo, com engrenagens e luz elétrica. O lado sobrenatural caminha junto da ficção científica aqui, formando um híbrido que muito bem remete aos games originais. Por ser um desenho para adultos (o grau de violência deixa isso bem claro), tons mais escuros são permitidos, fornecendo o necessário ar de mistério à morada do vampiro, que aparece brevemente e a todo o restante do cenário, que realmente passa o ar de uma terra em decadência.

É preciso ressaltar que essa temporada de Castlevania não busca entregar ação desenfreada, seu intuito é o de contar uma história – dito isso, as sequências de ação são limitadas, todas organicamente encaixadas com a trama, sendo usadas para desenvolver seus personagens. Sam Deats, na direção, acerta em cheio nessas, sabendo quando agilizar ou tornar as coisas um pouco mais lentas, a tal ponto que nos vemos engajados pelo que ocorre em tela. Por ser R-rated, a presença de sangue, visceras e mortes em tela aumenta a sensação de urgência, fazendo com que efetivamente sintamos o peso de cada embate, em especial o último, que marca o clímax da temporada.

Ao finalizar os quatro episódios, enxergamos com clareza os planos de Warren Ellis, que compõe o primeiro arco da história aqui. O roteirista nos entrega uma trama fechada em si própria, deixando em aberto, claro, a caçada ao vampiro, que há de ser, verdadeiramente, iniciada a partir do segundo ano (previsto para 2018). Aqui conhecemos os personagens e os vimos se posicionando nesse tabuleiro, resta saber como cada um irá se mover a partir daqui.

Com isso, Sam Deats e Warren Ellis nos entregam um belo início dessa série baseada nos games da Konami. Castlevania conta com um enorme potencial, que, desde já, expande a mitologia da franquia, trazendo seus icônicos personagens para as telinhas. Com um dinâmico trabalho de animação, design que respeita os jogos originais e um texto que pluraliza o embate do bem contra o mal, temos aqui uma série que há de ser apreciada por qualquer fã de Castlevania ou dos trabalhos anteriores de Ellis.

Castlevania – 1ª Temporada (EUA, 07 de julho de 2017)
Direção: Sam Deats
Roteiro: Warren Ellis
Elenco (vozes originais): Richard Armitage, Graham McTavish, Alejandra Reynoso, James Callis, Tony Amendola, Matt Frewer, Emily Swallow
Duração: 4 episódios de aprox. 23 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.