Crítica | Castlevania – 2ª Temporada

A 2ª temporada de Castlevania é tudo que a não é. A começar pelo fato que, agora, podemos chamar os episódios, em seu conjunto, de temporada mesmo e não de um prólogo meia-boca jogado de qualquer jeito na plataforma Netflix para agradar os fãs da clássica e adorada franquia de games da Konami. Temos arcos desenvolvidos e personagens bem estabelecidos com os irritantes textos expositivos reduzidos a um patamar aceitável, mesmo que ainda problemático. E, finalmente, temos há uma harmonia muito maior entre ação e contemplação, além de uma lógica menos histérica e forçada para a forma como a violência e o linguajar repleto de palavrões são utilizados.

Em outras palavras, a série animada escrita por Warren Ellis e que ficou no chamado development hell por mais de uma década ganhou um merecido upgrade. A narrativa é dividida em essencialmente dois grupos. O primeiro é o trio formado por Trevor Belmont, o último caçador de vampiros, Sypha Belnades, uma Oradora mágica e Alucard, o filho de Drácula com Lisa, uma humana. O segundo é, claro, Drácula e seus minions, aqui representados por personagens novos na série, os humanos Hector (Theo James) e Isaac (Adetokumboh M’Cormack), dois Mestres da Forja e braços direitos do Príncipe dos Vampiros e os vampiros Godbrand (Peter Stormare) e Carmilla (Jaime Murray), representantes de facções do exército de Drácula.

Tanto a interação do grupo heróico quanto as maquinações e traições no seio da armada vampiresca são clichês até não poderem mais, só que ser clichê, por si só, não é suficiente para retirar a qualidade de uma narrativa. E, felizmente, aqui, esses clichês são bem utilizados, com uma crescente e interessante conexão entre Belmont, Sypha e Alucard, que começa bem fria, mas ganha estofo e desenvolvimento a contento e dentro de uma lógica bem estruturada e com uma abordagem madura para os planos dentro de planos entre Carmilla, Godbrand e, principalmente, os dois humanos que odeiam a humanidade, mas de maneiras diferentes, valendo especial destaque para a alma torturada de Isaac.

Com isso, apesar de metade da temporada ser usada para construir com uma certa lentidão o embate final no deslumbrante castelo de Drácula, com momentos morosos no subterrâneo do lar ancestral dos Belmont (o “plano” de procurar alguma coisa que pudesse ajudar na resistência do trio é patético em formação e execução e completamente aleatório em conclusão, mas tudo bem…), o fato é que os fins acabam justificando os meios. Além disso, a trama dentro do castelo, antes da chegada do trio, é curiosamente auto-contida e com resolução própria, sem que os personagens novos resvalem na linha narrativa dos heróis, o que, no final das contas, serve para abrir o caminho para uma luta franca e muito bem bolada, entre Belmont, Sypha e Alucard contra Drácula, com direito à variedade de armas, magia e com um final bonito e trágico.

Aliás, Drácula é o grande destaque na temporada. Apesar de ele ser provavelmente o personagem que menos aparece, sua presença é sentida o tempo todo e, quando ele ganha o palco, é sempre de maneira mais do que eficiente, com o imponente trabalho de voz de Graham McTavish que, mesmo diante das várias ótimas performances da temporada – valendo destaque para Peter Stormare como Godbrand – consegue destacar-se. O ângulo do imortal sanguinário suicida é muito bem-vindo e bem explorado, acrescentando camadas para o grande vilão genocida ao ponto de ser possível até torcer por ele (eu sei que eu torci – me julguem!).

E o mesmo vale para o design de produção que mantém a qualidade do prólogo e traz novos personagens cativantes em sua aparência, ainda que seja um pouco cansativa e forçada a correlação de Alucard com a figura de Cristo. A fluidez das sequências de ação e a estrutura de game, com direito a upgrade de armas (ainda prefiro o chicote original de Belmont, porém) e final boss é outro ponto alto, que não deixa a temporada esmorecer demais assim que a ação começa de verdade.

O roteiro, com mencionei na abertura, ganha propósito. O que antes era um dilúvio de diálogos dolorosamente expositivos que tomavam grande parte de cada episódio sem deixar espaço para a imaginação ou para a dedução (não que fosse necessário, pois a história é óbvia, simples e objetiva), agora ganha em qualidade com os já abordados usos inteligentes de clichês e estereótipos do gênero. Se o durão e bêbado Belmont e a simpática e sempre positiva Sypha vão de A para B sem surpresas, a jornada é bem trabalhada, mesmo não sendo espetacular. O mesmo vale para Alucard, ainda que, no começo da temporada, a necessidade do texto de apontar que seu nome é o contrário de Drácula tenha me deixado receoso pelos episódios seguintes.

Do lado vilanesco, Godbrand é o bonachão divertido e Carmilla a malévola traiçoeira sem esconder essas condições desde o primeiro segundo em que eles aparecem. As exceções ficam mesmo com Hector e Isaac, que ganham contornos razoavelmente mais complexos e fora da curva e que podem ser adições interessantes para uma futura nova temporada.

Falando em futura continuação, a produção perdeu a oportunidade de acabar a temporada no momento certo. Afinal, tudo o que realmente importa chega a seu fim no penúltimo episódio, evitando maiores enrolações. Mas eis que o último e maior(!!!) capítulo vem para armar uma próxima temporada, criando um gigantesco dénouement que esfria completamente o clímax e freia bruscamente o bom trabalho que vinha sendo feito. Tudo o que vemos ali poderia ser inserido em três minutos ao final do sétimo episódio ou no começo da próxima temporada. Aguentar 28 minutos do que essencialmente são “cenas dos próximos capítulos” não só é uma péssima técnica narrativa, como ficou chato, por falta de adjetivo mais elegante.

Mesmo com seus problemas, a série animada finalmente faz jus ao nome Castlevania e apresenta uma temporada realmente boa. É torcer para que o afã de trazer mais conteúdo com velocidade ao espectador não faça com que a produção solte um interlúdio incompleto ano que vem.

Castlevania – 2ª Temporada (EUA, 26 de outubro de 2018)
Direção: Sam Deats, Spencer Wan, Adam Deats
Roteiro: Warren Ellis
Elenco (vozes originais): Richard Armitage, Graham McTavish, Alejandra Reynoso, James Callis, Tony Amendola, Matt Frewer, Emily Swallow, Theo James, Adetokumboh M’Cormack, Jaime Murray, Peter Stormare
Duração: 8 episódios de aprox. 25 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.