Crítica | Cavaleiro da Lua #1 a 6 (Vol. 1)

estrelas 4

Originalmente criado em 1975 por Doug Moench e Don Perlin como vilão na revista do Lobisomem, o Cavaleiro da Lua – ou Lunar, o Cavaleiro de Prata, como ficaria conhecido no Brasil – logo foi transformado em herói em pequenas participações nas histórias do Homem Aranha, dos Defensores e em tiras da revista do Hulk, tendo ganhado sua primeira série solo apenas em 1980, com roteiros de seu criador e desenhos do jovem Bill Sienkiewicz. Com 38 edições, o primeiro volume estabeleceu alguns pontos marcantes do chamado “Batman da Marvel”, como distintos alter-egos, gadgets tecnológicos, cenários urbanos sujos e, o que é típico da editora, abordagens sócio-políticas mais realistas e viscerais em suas entrelinhas. Nesta crítica, veremos as seis primeiras histórias de Marc Spector.

A origem do mercenário de consciência pesada, morto e ressuscitado em frente à estátua do deus egípcio Khonshu, está toda aqui. Em sua primeira edição, verborrágica como todas as outras, Moench tenta ir direto ao ponto: a trabalha o sentimentalismo do soldado em face às mortes de inocentes para traçar a figura do herói que, logo após renascer, já parte para as suas primeiras aventuras. Estabelecendo um dos pontos cruciais do personagem – a procura do “eu” seguro onde Marc Spector é por trás de todas as personalidades que assume – de maneira muito mais prática, Moench nada traz de esquizofrênico nessa relação. O foco da criação de Steven Grant, o milionário, e Jake Lockley, taxista, é puramente narrativo, uma amostra da inteligência e maleabilidade do herói.

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Visualmente, Sienkiewicz, fortemente influenciado por Neal Adams e sem experimentações expressionistas e com pinturas, que o deixariam famoso em parcerias com Frank Miller, como em Elektra Assassina, traça cenários distintos e aproveita muito bem as diferentes personas de Spector para ir de um Indiana Jones, no quente Egito com tesouros sendo procurados, para um James Bond urbano, com a postura de Steven Grant e a bond girl que se tornaria permanente, Marlene. Vemos também o uniforme clássico, com sua esvoaçante capa, e o francês, espécie de Alfred do herói que reforça as comparações com Bruce Wayne e suas histórias.

Se do lado do herói da DC são os vilões que fazem o Batman ser O Batman, a galeria de caras maus do Cavaleiro de Prata até tenta ser criativa, mas pouco consegue. Além de Bushman, primeiro nemesis do herói, somos apresentados a diversos vilões que viriam a se tornar clássicos em cada edição. O Homem da Meia Noite, o Comitê dos Cinco e o Cortador dão as caras, mas o mais interessante é notar o manejo com que Moench domina tantas máscaras do herói nessas histórias e, principalmente, o contexto em que cada vilão aparece.

O nítido exemplo está na segunda edição, do Cortador, que toma seu tempo em descrever o relato pessoal de Crowley, morador de rua que se torna ajudante de Spector e acaba roubando a cena, protagonizando uma boa reviravolta final. Um fim trágico bem trabalhado, sem esperança ou lição de moral escancarada. É bom lembrar que a morte de Gwen Stacy já tinha ocorrido em 1973, o que deu tempo para histórias deste tipo amadurecerem e se tornarem mais recorrentes. Ainda que sem o peso dramático evidente do clássico citado, a segunda história do herói mostra bem a violência banal que também marcaria o Cavaleiro da Lua, aqui mais como um pretexto para um triste conto do que um verdadeiro roteiro que enalteça as virtudes e a infalibilidade do mascarado.

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É evidente, todavia, que o Cavaleiro da Lua do primeiro volume traz maneirismos da época. Mas mesmo que o ganancioso Homem da Noite “adore roubar as coisas”, ou que ocorram as famigeradas lições de moral do herói para com as crianças, recorrentemente somos tirados deste politicamente correto, com as próprias crianças, filhas de Gena, amiga de Lockeley, entrando em perigosas ações, assim como Marlene não serve apenas como enfeite e resolve ajudar seu amado com reboladas em clubes adultos. A arte, por exemplo, mesmo sendo a padrão da época, tem lá suas boas transições entre os monólogos internos de cada personagem, destacados com tons azuis e sombreados precisos – méritos ao lendário Klaus Janson.

Entre vodus e fantasmas nas edições finais, a impressão que fica é de total controle da equipe criadora em determinar o tom do herói, variado como é sua personalidade. Do sobrenatural e místico ao serial killer, do combate à máfia aos vodus, a dupla criativa, lentamente, vai criando uma mitologia que faz do Cavaleiro da Lua uma grande mistura de gêneros, dando pequenas dicas das melhores histórias a serem escritas no futuro. Não à toa Marlene diz, sobre Spector e seus disfarces: “Mesmo que haja diferença, e só na sua mente”.

Cavaleiro da Lua (#1-6 – Vol. 1 – Eua, 1980)
Roteiro: Doug Moench
Arte: Bill Siekiewicz
Cores: Klaus Janson
Editora: Marvel Comics
Páginas: 150 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.