Crítica | Cavaleiro da Lua: Os Mortos se Levantam (Vol.7 #7 a 12)

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estrelas 2

Seguir as seis edições escritas por Warren Ellis e desenhadas por Declan Shalvey é tarefa árdua, principalmente com originalidade. Pode-se dizer que os presentes números se distinguem dos seus antecessores, tomando um caminho narrativamente amarrado e politicamente abordado em seus temas. Mas ao fugir da sombra da excelente dupla criativa citada, Brian Wood e Gregg Smallwood executam um monótono e insípido trabalho.

Antes de entrar no conteúdo em si – principal problema deste segundo encadernado – é bom ressaltar que tanto as capas, ainda desenhadas por Shalvey, quanto a própria formatação de quadros de Smallwood, acabam dando um ar de continuidade para esse volume do Cavaleiro da Lua, ainda que não vejamos tanto o Sr. Da Lua quanto antes. As cores de Jordie Bellaire também são de suma importância para ditar o tom de cada edição, que novamente se destaca individualmente com visuais distintos, da mesma forma que nas edições desenhadas por Shalvey.

O problema que me atormentou na leitura da obra foi, certamente, de roteiro. Tanto texto quanto arte perdem em qualidade, mas a queda do primeiro é vertiginosa. Além de tentar amarrar uma mesma e única trama, juntando todos os números em um arco maior – aspecto cuidadosamente evitado por Ellis e que, talvez, tenha sido seu grande mérito – Wood traz temas enjoativos, destes utilizados repetidas vezes no gênero super-heroico. Sua ambição chega a ser pretensão, o que bem pode definir o afastamento dessas histórias com relação aos escritos de Ellis, extremamente focados em pequenos contos. O exemplo maior é a utilização constante da Doutora que cuida de Marc Spector aqui e da sua quase total ausência nos primeiros roteiros deste volume.

cavaluawood

Mesmo deixando essa comparação de lado, utilizar um formato de crítica político-social em um herói tão despretensioso, que sempre beira a comédia, por mais soturno que seja, é um erro grave. Vindo de onde Wood vem – falo do aclamado DMZ, do selo Vertigo – é compreensível. Mas não aceitável. De terrorista descontente com o sistema financeiro à vingança pelo assassinato da família; de ditador africano que encarna o mal às acusações de hipocrisia; de discursos proselitistas à volta por cima do herói: são tantos lugares comuns que chega a dar enjoo.

Empurrar o Cavaleiro da Lua para o meio de uma trama politicamente motivada, além de ser uma decisão insana, peca exatamente por evitar a insanidade tão aprazível dos primeiros números e típica de Marc Spector. Mas não basta trazer esse tipo de história desenxabida. Wood ainda trata de criar conveniências de roteiro das mais previsíveis, sem transformações relevantes para o herói, que passa aqui de um conflito para outro sem sofrer, de fato, com eles. Em determinada edição, Spector sofre uma hipnose e começa a revisitar seu passado. Há ali um potencial criativo, mas Wood prefere inverter o jogo e nos fazer conhecer o passado de sua médica, para fins de andamento de roteiro. E seu passado é aquele que já cansamos de ver em filmes, séries e quadrinhos: criança pobre, que perde a família nas mãos de um ditador. Se a forma escolhida para mostrar fosse cercada de arroubos criativos, seria perdoável a utilização de um clichê deste tamanho. Mas nem isso a dupla criadora proporciona para o leitor.

Na metade da leitura, vi-me continuando mais por saudade dos seis primeiros números e por vontade de ser arrebatado novamente, mas, certamente, não por apreciar o andamento dado. Nem o conflito forçado com o deus Khonshu, muito menos as tentativas de espacialização nas cenas de ação de Smallwood – que não chegam aos pés da feita por Shalvey – sustentam essas edições dispensáveis. Politização en passant, além de não levar o personagem ao exterior de forma decente, consegue destruir um conflito interno de real relevância, tão caro à leitura do vigilante.

Cavaleiro da Lua vol. 7 #7-12
No Brasil: Cavaleiro da Lua #2 Os Mortos se Levantam
Roteiro: Brian Wood
Desenhos: Gregg Smallwood e Giuseppe Camuncoli
Cores: Jordie Bellaire
Editora: Marvel Comics
Páginas: 132

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.