Crítica | Cavaleiro da Lua: Recomeço (Vol.6 – #7 a 12)

estrelas 4,5

Dando continuidade à saga de Marc Spector em Los Angeles, Bendis traz na segunda metade de sua passagem pelo título do Cavaleiro da Lua o mesmo humor das primeiras edições, sem vergonha de colocar a cada três páginas uma nuance surreal na história, graças à(s) personalidade(s) do próprio herói. A grande jogada do autor, todavia, é adicionar um pouco mais de tensão à um enredo que permite acontecimentos muito mais pesados do que vimos até agora.

Com o aval do Capitão América, Spector planeja utilizar a cabeça de Ultron que caiu em suas mãos para capturar o rei do crime da costa oeste americana. Contando com a ajuda de Maya López, a Echo, e de Buck Lime, ex-agente da SHIELD, vemos um herói em constante dúvida e cheio de insegurança para planejar um plano decente e que funcione. Nesse contexto, as Interações com Buck e as quase que constantes expressões de “que p@#$! é essa” de Echo mantém o tom leve e muito bem-humorado das edições passadas, dignas dos roteiros que Joss Whedon cansou de nos proporcionar no cinema, na tv e nos quadrinhos.

Ao mesmo tempo, Bendis coloca um questionamento sutil e bem-humorado da loucura inerente a todo super-herói mascarado, brincando com o absurdo da situação, mas também mostrando que as diferenças entre o Cavaleiro da Lua e os Vingadores não são tão absurdas quanto parecem. É na utilização dos próprios super-heróis que o roteirista traz os melhores momentos das doze edições desse arco do Cavaleiro. Os conselhos do Homem-aranha são simplesmente hilários e a entrada de Wolverine é tipicamente intensa.

Mas Bendis aproveita o tom humorístico para surpreender e cortar as risadas com acontecimentos importantes para os personagens envolvidos, deixando as últimas edições com um tom muito mais sério e fazendo com que Spector, junto com o leitor, caia na dura realidade do cenário ali mostrado. A mistura de sensações que ocorre é um dos grandes trunfos desse volume de Cavaleiro da Lua, que aproveita todo o humor inerente ao protagonista como também mostra as ações inconsequentes e o heroísmo de um dos vigilantes mais lunáticos do universo Marvel.

Graças à arte de Maleev e às cores precisasmente escuras de Holingsworth, nunca saímos completamente do clima sombrio da história. Por mais que personagens como o Conde Nefaria apareçam, cheio de luzes, monóculos e capas, dificilmente nos distanciamos da realidade de uma Los Angeles criminosa, cheia de interesses e subornos. A questão é que o trio criador sabe disfarçar muitíssimo bem tal clima nos acostumando com ações estabanadas, um herói – e um vilão – em carreira descendente dentro do próprio Universo Marvel e coadjuvantes que mais servem como o bom-senso do leitor que falta à Spector do que como efetivos personagens na história. Assim, caímos na armadilha de bom grado quando uma narrativa, ainda que pouco ambiciosa, nos mostra um bom desenvolvimento de personagem e mais do que piadas bem elaboradas.

Cavaleiro da Lua vol.6 – #7-12
No Brasil: Cavaleiro da Lua #2 Recomeço
Roteiro: Brian Michael Bendis
Desenhos: Alex Maleev
Cores: Matt Hollingsworth
Editora: Marvel Comics
Páginas: 132

ANTHONIO DELBON . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.