Crítica | Cavaleiro da Lua: Na Noite (Vol.7 #13 a 17)

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estrelas 3

A última parte do volume 5 do Cavaleiro da Lua vem com as cinco edições que formam o pequeno run de Cullen Bunn, autor rodado na própria Marvel – principalmente em histórias do Deadpool – que fecha o ciclo iniciado por Warren Ellis e continuado por Brian Wood. Trata-se da segunda melhor entre as três fases, ainda que seja bom ressaltar a excelência do run de Ellis e a decepção do run de Wood.

Bunn retoma o que se tornou o principal acerto do presente volume: despretensiosas histórias fechadas em cada número. Apostando no misticismo, condizente com a mitologia do herói, o roteirista cria cinco contos regulares, ainda que seu tema principal seja mal justificado. O sacerdotismo do vigilante em relação ao seu deus é uma abordagem interessante, ainda mais quando misturado com as escuras e escatológicas cores de Dan Brown. Também é louvável notar a manutenção de estilo na arte, no geral, mesmo que três desenhistas tenham se alternado. Os constantes problemas, porém, fazem desse encadernado nada mais do que medíocre.

Tomando distância do Sr. Da Lua recortado de Shalvey, a arte das edições de Bunn cumpre com o necessário sem correr maiores riscos, principalmente nos momentos de ação. Peca, todavia, ao focar em quadros fechados, realçando os rostos demasiadamente expressivos de coadjuvantes, beirando caricaturas quando em momentos de desespero. É de se notar, entretanto, que o ritmo cômico volta aqui com melhor timing junto com uma crescente violência na história, algo que é sempre bom quando se trata do Cavaleiro da Lua.

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A terceira edição é a melhor do encadernado e resume bem a mistura de uma arte suja com ótima colorização, transformando o quarto de uma garota em uma agradável chuva de sangue. Vilões sobrenaturais tomam conta de cada conto. Mais do que os desenhos, que ao priorizarem a ação em detrimento de caras e bocas, conseguem se destacar – a mudança de Ron Ackins para German Peralta se faz notar nestes cenários – o roteiro, aqui, estabelece um conflito que vai além do mero embate entre herói e vilão, aspecto abusado por Ellis e bem retomado, ainda que pontualmente.

As duas últimas edições dão continuidade a um embate que dá, em suma, o tom do autor. Explorar Khonshu, ainda que o duelo não envolva nada além de seitas clichês que mais servem para dar um verniz de crítica à fé cega de qualquer forma de coletivismo, acabou sendo um critério original que renovou a mensal do herói depois da quebra brusca de qualidade sofrida na passagem de Ellis para Wood. Não ver, pela milésima vez, edições focadas no problema psicológico de Spector, também é um acerto do roteirista. Bunn consegue dar uma “cara” decente ao seu run, sem fazer dele o norte para um arco fechado ou uma história grandiosa.

Infelizmente, arrisco dizer, a ausência de roteiros com subtextos mais poderosos deixa a sensação de que o escritor poderia ter alcançado um lugar melhor na história de roteiro do vigilante. Também fica clara uma falta de sincronia entre texto e a arte mais, digamos, quadrinhesca e efusiva, principalmente se tratando de Ackins. Basicamente, não há nada de memorável, ainda que o tema tenha potencial. Em mãos mais cuidadosas, tanto em arte quanto em roteiro, um Cavaleiro da Lua ainda melhor poderia ser retratado.

Cavaleiro da Lua – Vol. 7 #13-17
No Brasil: Cavaleiro da Lua #3 Na Noite
Roteiro: Cullen Bunn
Desenhos: Ron Ackins, Steven Sanders e German Peralta
Cores: Dan Brown
Editora: Marvel Comics
Páginas: 108

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.