Crítica | Cavaleiros do Zodíaco – Vol. 1 (Kanzenban)

estrelas 4,5

Que época para se gostar de mangá! Pode-se dizer que essa boa safra de mangás publicados no Brasil começou em 2016, com o início de Vagabond, Blade, que saiu no final de 2015, The Ghost in The Shell, One Punch Man e muitas outras excelentes obras orientais. O ano de 2017 não foi diferente, estamos vendo Akira voltar para o nosso país, Lobo Solitário, Slam Dunk, Dr. SlumpInuyashiki… enfim, inúmeros títulos sendo republicados ou lançados. Dentre todas essas obras encontramos Cavaleiros do Zodíaco, essa que talvez seja a mais ousada atitude que a Editora JBC tomou nos últimos anos.

Digo ousada pois o formato escolhido para publicar a obra máxima de Masami Kurumda foi o kanzenban, que reúne diversas edições do original, permitindo-se utilizar um material mais rebuscado. É claro que todo esse capricho editorial não tornaria o produto barato, dificultando a compra de muitos colecionadores e consumidores sazonais. A conta fica ainda mais apertada quando adicionamos o número de edições que esse Kanzenban possui, 22 volumes em um formato de luxo é algo que nenhuma editora se arriscou a fazer no mercado de mangás brasileiro, a JBC arriscou muito dando a largada para essa linha, já que cancelar um título no meio é algo imperdoável para as editoras orientais, que torcem a orelha para o mercado nacional, pois muito do que foi publicado no passado não chegou a ser encerrado.

É nesse cenário que encontramos Cavaleiros do Zodíaco, a saga que narra a jornada de Saint Seiya, Cavaleiro de Pégaso e seus amigos Shiryu, Cavaleiro de Dragão, Hyoga, Cavaleiro de Cisne e Shun, Cavaleiro de Andrômeda e todos os outros cavaleiros de bronze. Mas antes de discorrermos sobre a história desses personagens, comentemos um pouco sobre Masami Kurumada. Ao contrário do que muitos pensam, a história de Seiya não foi a primeira a ser publicada pelo mangaká, antes disso ele já possuía diversas obras como OtokorakuKojiroOtoko Zaka entre outras. Entretanto nenhuma delas teve tanto impacto na cultura oriental e ocidental como a saga do Zodíaco.

O volume um do kanzenban justifica toda essa relevância que a obra possui, somos inseridos na história no momento em que Seiya está treinando. Kurumada não se delonga com todo esse treinamento, logo vemos o protagonista ganhar sua armadura e ir ao encontro de sua irmã, que está no Japão. Quando ele chega vê um cenário diferente daquele que esperava, sua irmã está desaparecida e ele descobre o real motivo pelo qual foi treinado, participar de um torneio que reunirá todos os Cavaleiros de Bronze.

E assim começa o campeonato, nele somos apresentados ao resto dos personagens e também é nele que vemos a verdadeira qualidade da narrativa de Kurumada, que gosta de desenvolver sua trama por meio de lutas. Quando um autor coloca ação em sua história ele tem como intenção agitar sua trama, relaxar ou irritar seu espectador, é difícil ver alguém que desenvolve sua narrativa no meio da batalha e é mais difícil ainda encontrar um quadrinista que faça isso de uma forma interessante. Masami Kurumada é uma exceção à regra, ele progride por meio de flashbacks, narrações, diálogos e principalmente por meio da narrativa gráfica.

Outro aspecto que vale ser destacado do roteiro é a sua capacidade em apresentar bons personagens, mesmo com pouco tempo de página os coadjuvantes da saga se mostram muito interessantes, Seiya é o protagonista e às vezes amá-lo é difícil, já seu elenco de apoio é maravilhoso, principalmente Hyoga, que é apresentado em poucas páginas que não possuem diálogos, mas são carregadas de significado.

É claro que Cavaleiros possui os maneirismos de sua mídia, os mangás podem ser repetitivos, infantis e ter um humor muito peculiar, porém, errado está aquele que acha isso um ponto fraco, não dá pra interpretar uma obra sem usar as lentes do povo que a originou, a cultura oriental é muito diferente da nossa, isso afeta em todos os aspectos e a forma de contar uma história não fica livre dessa visão.

Se existe um país que sabe fazer quadrinhos, esse pais é o Japão. É lindo ver como os orientais enxergam a narrativa gráfica, Masami Karumada possui um esmero em cada quadro de sua obra, as lutas são bem narradas, splash pages são utilizados da forma correta, dando o impacto que realmente precisam, tudo é pensado e muito bem executado, até as poucas páginas que possuem cores são bem feitas, dinâmicas, com cores chapadas e únicas, causando um efeito de macabro, chocante e muito interessante.

Existem alguns defeitos na trama de Kurumada, em alguns momentos vemos que a atenção do autor foca em partes de sua trama que não são relevantes, isso faz com que grandes momentos, ou apresentações de personagens e suas motivações sejam colocados de lado. Isso ocorre bastante, mas não ao ponto de manchar aquilo que é bem feito em toda a narrativa.

Que época para se gostar de mangá! Cavaleiros dos Zodíaco só vem para agregar ainda mais o excelente número de títulos que estão sendo publicados aqui. Parabéns para a Editora JBC, que foi ousada e publicou um Kanzenban de capa dura com mais de 22 edições. Que a saga de Saint Seiya e seus amigos possa continuar cada vez mais divertida, intrigante e principalmente competente.

Saint Seiya: Cavaleiros do Zodiaco – Vol. 1 — Japão 1986
Roteiro: Masami Kurumada
Arte: Masami Kurumada
Editora original: Shōnen Jump
Datas originais de publicação: 2016
Editora no Brasil: Editora JBC
PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".