Crítica | Cavalo de Guerra

Apontar Cavalo de Guerra como um filme confortavelmente lapidado aos moldes das características mais clássicas de Steven Spielberg não é algo errado. O cineasta retorna aqui com sua ambientação do tom irracional da guerra e fala sobre uma improvável história de amizade, descobertas e reencontros, tal qual foi E.T. – O Extraterrestre, mas desta vez ampliando o escopo para um ser tão familiar ao ser humano, um cavalo. Batizado de Joey, o animal construirá inicialmente um forte laço de amizade com Albert (o infelizmente fraco Jeremy Irvine), cujo pai, Ted (Peter Mullan), comprou o animal para ajudar no trabalho da fazenda. Quando a I Guerra Mundial explode e o Joey é vendido novamente para a cavalaria dos soldados, o roteiro de Lee Hall e Richard Curtis, baseado no romance de Michael Morpurgo, irá destrinchar as desventuras do cavalo e sua passagem pela vida de diversas pessoas ao longo dos quatro anos de conflito.

Apelativa por si só, em especial quando o público oferece pouquíssima resistência para se aproximar de personagens não-humanos nos filmes, Spielberg toma o cuidado inicial de transformar o cavalo Joey numa presença tão humana, identificável e carismática quanto todos os outros rostos que irão surgir na tela durante os 140 minutos de projeção. Sendo o impulsionador da narrativa, o cavalo surge como um elemento vigoroso para desconstruir a irracionalidade da guerra e sua violência desmedida, assim como para exemplificar os conflitos entre a ruralidade do século XIX com a modernidade industrial que explodiu durante a I Guerra.

E como qualquer outro que conviveu neste período, Joey passa por todas as atribulações e consequências possíveis: sofre suas próprias perdas (num dos momentos mais comoventes do longa), luta, se machuca, abraça o auto-sacrifício pelo próximo, e no final de tudo, só deseja fugir daquela violência. Spielberg abraça sem medo o que há de inocente e vanguardista neste tipo de cinema que, em nossos tempos cínicos, encontram pouquíssimo espaço e, consequentemente, quase nenhum apelo junto ao público que rejeita essa abordagem clássica. Para alguém que deu vida aos melodramáticos A Lista de Schindler, A Cor Púrpura e Amistad, fica difícil para Spielberg escapulir de alguns sentimentalismos óbvios e momentos água-com-açúcar que extrapolam na própria apelação (e nesses momentos, a bela trilha sonora de John Williams se torna realmente um problema), mas Cavalo de Guerra é um filme mais sóbrio do que se espera, abraça o que há de fantasioso quando necessário (a cena em que os soldados dialogam democraticamente entre si somente para libertar o cavalo dos arames), homenageia o cinemão clássico quando lhe surge a oportunidade (referências a Victor Fleming, John Ford e David Lean belissimamente espalhadas na concepção visual da obra) e dota um animal irracional de sentimentos e reações como o medo, angústia, amor e esperança. É sim, aquele Spielberg piegas, otimista, mas também  conduzido com uma singularidade ímpar, de sintonia quase imediata e muito, mas muito bem filmada. É cinema americano dos grandes.

Cavalo de Guerra (War Horse) – 2011/EUA
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Lee Hall e Richard Curtis, baseado em livro de Michael Morpurgo
Elenco: Jeremy Irvine, Emily Watson, Peter Mullan, Tom Hiddleston, Benedict Cumberbatch, David Thewlis, David Kross, Eddie Marsan
Duração: 146 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.