Crítica | Caverna dos Sonhos Esquecidos

estrelas 5

A descoberta da caverna de Chauvet em dezembro de 1994, subverteu a ideia que a arqueologia e a história tinham sobre a arte pré-histórica, seu início, adequações e maturidade. Localizada próxima a uma falésia do rio Ardèche, no sul da França, Chauvet Pont d’Arc guarda uma enorme quantidade de pinturas rupestres de diferentes épocas – as mais antigas ultrapassam 30 mil anos. Figuras de diferentes espécies de animais com uma enorme gama de movimentos podem ser encontradas na caverna, além de algumas representações humanas. Chamam a atenção as figuras de leões pré-históricos acasalando, rinocerontes brigando, cavalos, bisões, panteras, mamutes, insetos e borboletas, além dos vestígios de fogueiras, um possível altar com um crânio de urso encravado, e lascas de carvão que fizeram parte de tochas de algum visitante da caverna a cerca de 8 mil anos. Todo esse enigma e beleza do Paleolítico Superior foi filmado em 3D pelo diretor alemão Werner Herozg em seu sublime documentário Caverna dos Sonhos Esquecidos.

Durante uma hora e meia, voltamos milênios na história, e acompanhamos com um estado permanente de fascinação não apenas a arte rupestre, mas as transformações geológicas ocorridas na caverna durante os anos, e a aparência exótica e misteriosa que o local possui. É muito difícil descrever como um documentário de tema tão restrito (exploração de uma caverna pré-histórica) consegue alcançar um nível de qualidade tão grande e atingir ao espectador como se ele próprio estivesse vivenciando in loco aquela experiência.

Um outro fator interessante é a edição de Joe Bini e Maya Hawke, que adequam cada plano, duração e transição de uma imagem ou sequência para outra como se fossem parte de um único fôlego cinematográfico. Temos a impressão de que todo o tempo dentro da caverna é interligado, que a visitamos como espíritos que se movem rapidamente por entre as galerias e pinturas, de modo que nem percebemos o tempo passar, e quando menos esperamos, há o adendo e então o final do filme.

A reflexão que Herzog nos convida a fazer é sobre a passagem do tempo, porém, o tempo histórico, artístico ou cultural da humanidade parece não ter passado tanto assim. A caverna parece o broto de uma série de manifestações que milhares de anos depois surgiriam nas artes pelo mundo todo. O próprio cinema encontra a sua plena representação com a sobreposição das imagens de animais nas paredes, a ideia de sombra ancestral, os desenhos que indicam movimento e emoções. Em um dado momento, o diretor chega a denominar a figura de um rinoceronte como “proto-cinema”, dado o seu visível deslocamento na pintura. A sensação permanece para o espectador, e é impossível não assentir a essa primitiva representação da sétima arte, mesmo que em outro contexto, intenção e realidade.

Paralelamente, observamos os avanços da arqueologia e seguimos o trabalho dos pesquisadores e especialistas, que nos ajudam a entender a datação e ordem das pinturas na caverna. O trabalho de décadas em diversos lugares do Velho Continente para recolher e entender materiais e locais pré-históricos pode ser vislumbrado, mesmo que por pouco tempo, pelo espectador.

Caverna dos Sonhos esquecidos é um documentário que nos apresenta a um mundo passado, dentro da nossa história mas fora do nosso tempo. Mesmo assim, esse mundo foi preservado por um desabamento de rochas e hoje é visto em sua plenitude e beleza. Para qualquer cinéfilo ou entusiasta da arte, trata-se de um encontro com uma parte de si, aquela de mostra a manifestação artística de cada um em um tempo que nem a palavra e nem o conceito de arte existiam. E por isso mesmo é tocante, porque mostra que o homem traz consigo, desde que se tornou sapiens, o gérmen da cultura, da criação e da arte.

Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, Canadá, EUA, França, Alemanha, UK, 2010)
Direção: Werner Herzog
Roteiro: Werner Herzog
Duração: 90 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.