Crítica | Cegonhas

estrelas 2,5

Por muito tempo as cegonhas eram a desculpa dada às crianças curiosas que perguntavam de onde vinham os bebês. Com o tempo, porém, a velha história do pássaro que traz os recém-nascidos acabou deixando de ser utilizada, substituída por uma versão amenizada da verdade, na maioria dos casos, é claro. Cegonhas aborda justamente essa questão, mas nos coloca em um universo no qual tais criaturas realmente existem. Do mesmo estúdio que trouxe Uma Aventura Lego, o filme traz um divertido olhar sobre essa difícil temática de se lidar com os filhos, mas será que faz uso de todo o seu potencial? Infelizmente não.

Após eras levando crianças para casais que desejavam ter um filho, as cegonhas decidem mudar sua área de atuação, indo para a área da loja de departamento por encomenda, uma espécie de Amazon ou Submarino. A trama gira em torno de uma dessas aves, Junior (Andy Samberg), que está prestes a se tornar um dos chefes da grande empresa. A única condição é que demita Tulipa (Katie Crown) uma órfã que jamais fora entregue e que viveu sua vida no meio desses animais e que agora já conta com seus quase dezoito anos. A tarefa, todavia, não é tão fácil, visto que um novo bebê é acidentalmente gerado pela menina e cabe a Junior e ela entregarem a criança em segredo para sua nova família.

Cegonhas definitivamente conta com uma boa e criativa premissa, o grande problema é a sua execução. Além de contar com um roteiro completamente previsível, o longa-metragem acaba perdendo muito tempo com um humor completamente exagerado, muitas vezes pastelão, que, no fim, não provoca qualquer risada na audiência. É claro que algumas das piadas da animação de fato surtem algum efeito, uma cena específica envolvendo pinguins nos trechos finais quase me vez cair da cadeira, mas, em geral, a obra gera um certo sentimento de apatia em virtude de sua inconstância humorística, que ora é over the top, ora na medida certa.

A construção de todo esse universo, porém, felizmente contrabalanceia esse deslize. Ao não se prender ao realismo, da mesma forma como fora o ótimo Uma Aventura Lego, a obra consegue nos prender pela criativa forma como alguns conceitos são desenvolvidos. A máquina de fazer bebês é um desses, que, apesar de pautado em algo puramente mágico, não deixa de ser fascinante, uma leitura divertida das histórias contadas às crianças antigamente. De fato, o longa mira praticamente de forma exclusiva no público infantil, uma escolha curiosa da equipe de produção, visto que há muito tempo animações desse porte se tornaram filmes para toda a família.

Felizmente o trabalho dos animadores em si não deixa nem um pouco a desejar, não só pelos criativos designs, definitivamente um dos pontos altos do longa, como pelo tratamento dado a cada personagem. Um bom exemplo disso é o cabelo de Tulipa, que tiveram bastante coragem ao fazer do tipo encaracolado, tornando a animação muito mais difícil de se realizar, visto que não basta apenas criar um bloco único, como é o caso de muitos desenhos em 3D que vemos por aí. Evidente que a experiência de Doug Sweetland, co-diretor do filme, contou muito, visto que por longos anos ele trabalhara na Pixar como animador, presenciando vários dos avanços tecnológicos desenvolvidos pelo estúdio.

Cegonhas, no fim, é um filme feito para crianças, mas que pode divertir adultos e adolescentes até certo ponto. Definitivamente está muito aquém de Uma Aventura Lego, mas que conta com alguns interessantes conceitos que o tornam perfeito para se mostrar ao filho que pergunta: de onde vem os bebês? Mais que isso, porém, é apenas algo para se assistir descontraidamente, sem esperar uma obra-prima da animação.

Cegonhas (Storks) – EUA, 2016
Direção: 
Nicholas Stoller, Doug Sweetland
Roteiro: Nicholas Stoller
Vozes: Andy Samberg, Katie Crown, Kelsey Grammer, Jennifer Aniston, Ty Burrell,  Anton Starkman
Duração: 89 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.