Crítica | César Deve Morrer

estrelas 4,5

Com mais de 80 anos de idade e 59 anos de carreira no cinema, os irmãos Paolo e Vittorio Taviani voltam a dirigir mais um filme, após a última obra em conjunto, lançada em 2007. Autores de filmes icônicos como Pai PatrãoA Noite de São LourençoKaos e Bom Dia Babilônia, a dupla é responsável por um cinema emocionalmente delicado, familiar e dramaticamente subjetivo, centrado nas emoções e quebras de contrato social ou emocional, fatos que acabam gerando sentimentos de culpa, mágoa, ódio e vingança em suas personagens, ingredientes recorrentes nos roteiros que assinaram ao longo dos anos.

Em César Deve Morrer, os irmãos Taviani reinventam a si mesmos, da concepção geral da obra ao formato utilizado para as filmagens. Em primeiro lugar, temos a primeira película digital dos cineastas, e este formato trouxe consigo outras investidas estruturais como a mobilidade entre os espaços cênicos filmados, a variedade e criatividade dos ângulos e o escrupuloso trabalho de decupagem das cenas, elemento exaltado pela montagem do veterano e já conhecido dos Taviani, Roberto Perpignani.

É necessário partir de um princípio importante antes de ver e/ou criar um juízo de valor sobre César Deve Morrer: não temos diante de nós um um documentário. Mesmo que as sequências e a forma como os diretores optaram por mostrar os ensaios da tragédia Júlio César, de William Shakespeare, em nenhum momento o filme tem a intenção de documentar, no sentido clássico da palavra e no caso estrito do gênero cinematográfico, a libertação dos prisioneiros através de uma atividade artística como o teatro.

A atmosfera claustrofóbica da prisão de segurança máxima de Rebibbia, na Itália, serve como motor dramático para a obra, além de contar com os não-atores que conheciam muito bem os elementos retratados na obra shakespeariana, da conspiração ao assassinato e à guerra entre dois grupos inimigos lutando pelo mesmo espaço. Todo o temor que a peça traz nas entrelinhas, o medo de uma Inglaterra sem um sucessor legítimo e possivelmente condenada a uma guerra civil (situação espelhada por Shakespeare no drama da Roma Antiga e a passagem do poder de César para Otávio) é transmitido com a maior naturalidade ao espectador através da atuação dos presidiários, que jamais ganham aura de inocentes ou recebem absolvição por parte dos diretores. O momento do teatro em suas vidas é apenas aproveitado e registrado como parte de um programa de reabilitação (psicológica?), e nesse processo, algumas vitórias são conseguidas – vide o presidiário que consegue se tornar ator de teatro e cinema.

O drama é enriquecido pela realidade sob a qual se constrói, mas infelizmente pode receber interpretações superficiais como sendo “um documentário que não se leva a sério”, ou “um filme que mistura inadvertidamente teatro e documentário”, como já disseram alguns textos de alcance considerável pela rede a fora. As afirmações são sintomas de uma má observação da obra e falta de discernimento de gêneros de cinema, especialmente esse tão incomum filme-ensaio que ora nos presenteiam os diretores octogenários. É inegável que exista a presença de cenas com caráter semelhante ao documentário e é até possível citá-las como elementos marcantes ou característicos do filme, mas nunca cobrar verossimilhança em diálogo ou separação marcada entre drama e realidade, posto que a obra em questão é um drama teatral com nuances de veracidade justamente por ter sido filmada dentro de uma prisão e ter um elenco de prisioneiros!

Marcado pelo trabalho de uma equipe técnica que se deve aplaudir de pé, César Deve Morrer constitui-se uma obra de renovo na filmografia dos irmãos Taviani e é (mais uma) prova de que a idade pode trazer, além de sabedoria, excelência no exercício da arte de dirigir filmes, além da possibilidade cada vez maior de se criar uma obra poderosa sem ter que apelar para exageros narrativos ou técnicos e rios de dinheiro como orçamento.

César Deve Morrer (Cesare deve morire, Itália, 2012)
Direção: Paolo Taviani, Vittorio Taviani
Roteiro: Paolo Taviani, Vittorio Taviani (adaptação da obra de William Shakespeare)
Elenco: Cosimo Rega, Salvatore Striano, Giovanni Arcuri, Antonio Frasca, Juan Dario Bonetti, Vincenzo Gallo, Rosario Majorana, Francesco De MasiGennaro Solito, Vittorio Parrella
Duração: 76 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.