Crítica | Chaga de Fogo

estrelas 4

Obs: Contém spoilers.

É provável que Chaga de Fogo ofenda muita gente hoje em dia por sua pegada que, na superfície, sem dúvida é moralista, notadamente no tocante à condição da mulher em uma sociedade machista. Por isso é necessário um certo distanciamento para que seja possível aceitar o filme com os olhos atuais e uma volta à década de 50 e à mentalidade que muitos considerarão retrógrada. E isso, claro, somente para quem não conseguir interpretar de verdade o que o roteiro faz aqui.

Mas, se não tivermos a capacidade de nos transportarmos para a época em que um filme foi produzido, deixaremos de apreciar grandes obras-primas que levaram à formação da Sétima Arte. Chaga de Fogo, que rendeu a primeira indicação ao Globo de Ouro a Kirk Douglas, além de ter concorrido a quatro Oscar (Atriz, Atriz Coadjuvante, Direção e Roteiro), não é, definitivamente, uma dessas obras-primas que precisam ser assistidas incondicionalmente, mas é um filme muito interessante, às vezes brilhante, que em muitos funciona quase que como o estabelecimento do arquétipo do policial e do bandido novaiorquino que veríamos em centenas de filmes e séries de TV até hoje em dia. Não que a fita marque a “invenção” desse tipo de personagem, longe disso, mas é um dos mais eficientes, nestes primórdios, em estabelecer uma dinâmica complexa e bem coreografada contendo uma gama de personagens que hoje seriam vistos como clichê.

Em seus melhores momentos, portanto, a obra dirigida por William Wyler coloca o espectador como um observador na 21ª Delegacia de Polícia de Nova York, lidando com o delegado, seus detetives, diferentes criminosos, um advogado, jornalistas e até um faxineiro, tudo em uma impecável e fluida história que tem um caso central e vários paralelos que comentam como um coro grego a linha mestra narrativa que envolve a investigação de mais de um ano, feita pelo Detetive James McLeod (Douglas), durão, irascível e que só vê o mundo em duas cores, sobre o médico de abortos Karl Schneider (George Macready).

A escolha cenográfica de Wyler é impecável. O roteiro, que fora escrito por Philip Yordan e Robert Wyler (irmão mais velho do diretor), baseia-se em peça teatral de 1949 escrita por Sidney Kingsley e a ideia foi manter o conceito original, o que faz com que grande parte da fita se passe em apenas um detalhadíssimo cenário, a sala principal da delegacia de polícia. É lá que vemos a interação entre detetives e entre eles e os criminosos, com uma constante entrada e saída que aos poucos acrescenta camadas à narrativa e que prende o espectador muito fortemente aos dramas que se desenrolam paralelamente.

O cuidado no desenho de produção, portanto, é de se aplaudir de pé. Nada de uma sala enorme e espaçosa. O conceito é manter a narrativa ritmada e o espaço confinado da sala, com mesas e cadeiras encostando umas nas outras, papeis empilhados, uma evidente impressão de “mundo vivido” e uma encenação que bebe diretamente da peça teatral (às vezes até um pouco demais) dá organicidade invejável à trama que Wyler (o diretor) aproveita ao máximo com planos sequência mais longos contrastando com close-ups dramáticos de todos os envolvidos, especialmente McLeod, que é o centro das atenções em razão de seu caso importante e de como ele o envolve pessoalmente sem ele ter ideia disso.

É particularmente notável como, nesse espaço pequeno e cheio de gente – todos com funções narrativas claras – Wyler posiciona suas câmeras. Ele nos proporciona impressionantes tomadas em plano geral a partir do teto do cenário – que, por incrível que pareça, por ser uma raridade no Cinema, é visível em grande parte do filme, acrescentando à impressão claustrofóbica – em que a disposição cenográfica salta aos olhos em toda sua glória, assim como tomadas em magníficos plongées e contra-plongées para enfatizar as posições de superioridade e inferioridade dos mais diversos personagens, com McLeod, na medida da progressão da história, sendo “diminuído” e “esmagado” por tudo que aprende sobre o passado de sua esposa Mary (Eleanor Parker) e como sua personalidade é parecida com a de seu pai que ele sempre odiou ao lidar com o assunto.

Mesmo com as paredes se fechando ao redor de McLeod, o roteiro não esquece de lidar com os quatro outros criminosos que são investigados pelo detetives. Uma mulher (Lee Grant) um tanto perdida que roubara uma bolsa em uma loja e que passa a ser uma observadora passiva de todos os acontecimentos, um jovem ex-combatente (Craig Hill) que rouba dinheiro de seu chefe para impressionar sua namorada e dois ladrões de carreira – um bobalhão (Michael Strong)  e outro histriônico ao limite (Joseph Wiseman) – que são pegos com a boca (ou, melhor, as mãos) na botija. O que começa apenas com alegorias de “tipos criminosos” vai aos poucos se desenvolvendo em algo mais. Enquanto o espectador consegue criar empatia quase que automaticamente com a ladra contumaz, possivelmente alguém com algum tipo de distúrbio, Arthur (o jovem ex-militar) intriga como um ladrão de primeira viagem que claramente se arrepende do que fez, mas é orgulhoso demais para pedir ajuda. A dupla reincidente, especialmente Charley Gennini (Wiseman) representa, de certa forma, o futuro de Arthur se ele assim continuar.

Mas, muito mais do que personagens soltos, cada um é uma faceta de McLeod. A inocência da ladra reveste a personalidade do policial durão. Arthur é uma versão de sua consciência e Charley é a “prova” de que o posicionamento rígido e intolerante sobre crimes em geral que McLeod tem é a única saída. A combinação de todos eles começam a mostrar que o mundo, muito diferente de ter apenas duas cores, é repleta de nuances que precisam ser levadas em consideração. Além disso, o final trágico que, na verdade, é a única saída possível para o dilema moral que assola McLeod, torna-se orgânico justamente em razão dessas sub-tramas paralelas que vemos desenrolar ao longo da principal.

E é por isso que Chaga de Fogo (o título em português, apesar de bem diferente do original, até tem seu significado justificado dentro do roteiro) não é o filme moralista que alguns podem interpretar se não prestarem atenção ao que acontece em cena. Muito ao contrário, a sujeição de Mary à incompreensão e à violência verbal do marido em razão de, digamos, indiscrições passadas, não é glorificada na trama. Caso contrário, o final – que foi responsável pela crucial mudança do famigerado e restritivo Código de Produção então em vigor para permiti-lo – condena McLeod e todos aqueles que seguem um código de conduta intolerante, por mais que sua aparência exterior e suas intenções sejam as melhores possíveis.

Apesar de não ser longo, a forma como o roteiro lida com os momentos posteriores à grande revelação que leva ao confronto entre McLeod e Mary acaba forçando o diretor a lidar com algumas repetições temáticas que resulta em redundância narrativa e que poderiam ser cortadas. Em determinado momento, Mary sai de cena apenas para voltar algum tempo depois e gerar um segundo confronto que leva a um terceiro que não funciona dramaticamente, uma vez que a personalidade rígida de McLeod já havia ficado muito claramente estabelecida. Uns 15 minutos a menos na ilha de edição teria resolvido essa questão, mantendo o passo acelerado e fluido que a fita apresenta até esse momento.

Além disso, apesar de já firmado como astro, Kirk Douglas tem uma atuação que remete a seus tempos de teatro aqui. Em determinados momentos, suas dúvidas morais o leva a expressões faciais e trejeitos corporais que funcionariam muito bem no palco, mas que, no longa, parecem artificiais e exagerados. Mesmos assim, ele convence na maioria do tempo que está em tela.

Mesmo com esses problemas, Chaga de Fogo é, para aqueles que souberem transpor-se para o tempo da produção e compreenderem o que o final faz com todo o moralismo que transparece, uma obra muito interessante e que permite uma visão de camarote da gênese dos filmes e sobretudo séries “de polícia” que vemos por aí diariamente. É isso sem contar com o grande exemplo “de teatro filmado” que é o trabalho de William Wyler.

Chaga de Fogo (Detective Story, EUA – 1951)
Direção: William Wyler
Roteiro: Philip Yordan, Robert Wyler (baseado na peça de Sidney Kingsley)
Elenco: Kirk Douglas, Eleanor Parker, William Bendix, Cathy O’Donnell, George Macready, Horace McMahon, Gladys George, Joseph Wiseman, Lee Grant, Gerald Mohr
Duração: 103 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.