Crítica | Chamada de Emergência

estrelas 3

Em “O Meio é a Mensagem”, capítulo introdutório de Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem, um dos livros “bíblicos” da Comunicação, o teórico Marshall McLuhan afirma que “quando uma sociedade configura-se baseada no apoio ofertado por alguns poucos bens, tende a aceita-los como elos sociais, transformando-os em partes intrínsecas da cultura”. É com esta certeza que o roteiro de Chamada de Emergência se desenvolve, pois o celular, um dos aparelhos que denotam a “extensão dos humanos”, é parte central dos principais momentos da narrativa, em especial os dois primeiros atos.

A abertura é bastante eficiente, com produção sonora de John Debney, nos conduzindo ao polifônico clima urbano onde o roteiro assinado por Richard D’Ovidio a partir de história dele, Jon Bokenkamp e Nicole D’Ovidio se desenvolverá. Com zenitais que captam a circulação nas agitadas ruas da cidade, o filme adentra o espaço de trabalho das operadoras da central de emergência 911, tendo Jordan (Halle Berry) como a personagem central. Ela é uma cuidadosa profissional que se desesperar durante um atendimento de invasão domiciliar, acaba saindo do protocolo e retorna a ligação da jovem e chamando à atenção do psicopata que já estava próximo a sair do local. Com este trauma, Jordan é retirada do atendimento e passa a ser treinadora da central de atendimentos, trabalhando com dados, dicas e sugestões para os futuros funcionários do local.

Certo dia, durante um treinamento seis meses depois da ligação que terminou em tragédia, Jordan é colocada em outra situação conflitante: há um criminoso em série a sequestrar adolescentes e a última vítima, Casey (Abigail Breslin), entra em contato com a central. Ao perceber uma das atendentes nervosas e sem traquejo para conduzir a ligação sem perder o contato, Jordan toma o espaço e começa a melhor linha narrativa, interligada com outros elementos poucos importantes e subtramas, tais como a do seu noivo Phillips (Morris Chestnut) e dos problemas pessoais que não acrescentam em nada ao filme.

Casey está com o celular sem chip, conhecido como descartável, graças ao esquecimento da amiga, adolescente irresponsável que deixou o aparelho numa das bandejas da praça de alimentação. Ao guardar o aparelho no bolso, a garota que sequer desconfiava do sequestro no estacionamento do shopping, tem algo que a conecta com o mundo e lhe possibilita tentar salvar a própria pele. O problema é que por ser descartável, os atributos da cibercultura não conseguem dar conta de ajuda-la, pois Jordan e a sua equipe não conseguem fazer o devido rastreamento por GPS.

O clima dos primeiros atos é frenético, graças ao ótimo trabalho de edição, bem como a dinâmica entre Jordan e Casey, desesperadas por meio de uma ligação via celular que tende a cair a qualquer instante. Os planos inquietos, o desempenho das atrizes o ritmo veloz da trilha sonora tornam a experiência tensa e inquietante. Ao longo de boa parte dos 96 minutos, a operadora aconselha a adolescente, pede paciência, aproxima-se para acalmá-la e fornece dicas para que a moça consiga descobrir o seu paradeiro, haja vista o porta-malas fechado e a impossibilidade de saber para onde está sendo guiada.

Casey faz o possível: quebra um dos faróis traseiros, coloca as mãos para o lado de fora, chama a atenção de alguns motoristas da estrada, mas nada dá certo por conta da incompetência dos policiais comuns ao gênero suspense-terror, além da necessidade dos envolvidos na produção em nos levar ao terceiro, último e absurdo ato. Depois de perder o contato via celular, a gerente de operações, ciente dos traumas da ação anterior, afasta Jordan da central e pede que ela descanse e aguarde os resultados da investigação policial. Antes, todos são informados que por conta do interesse em terminar o seu projeto, o psicopata Michael (Michael Eklund) deixou um razoável rastro de sangue pela cidade, dando cabo de qualquer pessoa que viesse a atrapalhar o seu caminho.

Até então, o filme seguiu uma linha frenética, mas não descambou no absurdo. Infelizmente, o roteiro brinca com o bom senso de quem está assistindo e investe numa postura detetive de Jordan. Ela escuta um barulho, aparentemente um fio de metal batendo num mastro e segue para o local, tendo em vista descobrir alguma coisa sobre o crime. A questão é: como ela imaginou este local? Somos apresentados aos constantes momentos de repetição da gravação da ligação, mas este é um motivo pífio para fazer a devida conexão e levá-la ao local. Talvez o som de uma fábrica específica de fundo, ou alguma manifestação sonora da natureza, comum ao espaço em que os personagens habitam, mas infelizmente estes não são os caminhos escolhidos.

É aí que Chamada de Emergência adentra numa perigosa seara de absurdos. Se o interesse era chocar o público, caprichassem mais no roteiro. Se pensarmos que ambas acabaram de passar por um trauma, torna-se aceitável a decisão tomada diante do confronto com o assassino que depois dos típicos gritos, correria e lutas corporais, perde para as duas e é colocado numa situação curiosa.  A impressão que se tem é que o cineasta Brad Anderson não finalizou o trabalho, pois o final se difere completamente das duas primeiras metades.

De volta ao compêndio de McLuhan, em “O Telefone: Metais Sonoros ou Símbolos Tilintantes?”, o autor discorre sobre o impacto das tecnologias em nossas vidas e aponta que o telefone, inicialmente, tinha o papel decorativo e de luxo nos lares em que se estabeleceu, entretanto, com os avanços tecnológicos comuns ao ambiente social em que vivemos na contemporaneidade, o aparelho deixou de ser apenas fixo, tornou-se móvel e representante de um dos ícones de extensão humana com grande nível de participação diária na vida social. Jordan e Casey são a prova cabal disso, afinal, é através do celular que elas conseguem estabelecer o elo que vai desaguar na resolução dos conflitos estabelecidos logo nos primeiros momentos do roteiro, não é mesmo, caro leitor?

Chamada de Emergência (The Call) – Estados Unidos/2013
Direção: Brad Anderson
Roteiro: Richard D’ Ovidio
Elenco: Abigail Breslin, Halle Berry, Michael Eklund, Morris Chestnut, Michael Imperioli, Evie Thompson, David Otunga, Jenna Lamia, Ross Gallo
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.