Crítica | “Changes” – Charles Bradley

estrelas 4,5

O mundo da música é, com certeza, um lugar fascinante onde você encontra diversas histórias de vida. No meio delas você encontra contos incríveis como o de Charles Bradley, um dos maiores destaques a surgir na Soul Music recente. Nascido em Gainesville (Flórida) e crescido no Brooklyn (Nova York), Charles só veio a ver seu sonho de lançar um álbum e ter grande reconhecimento no auge de seus 60 anos. Chega a ser irônico chamá-lo de um dos representantes da nova safra do soul já que ouvir o cantor é como escutar um gigante da música negra. Changes – seu recém lançado terceiro álbum – é mais um exemplo disso. Temos a impressão de estar ouvindo um clássico sem precedentes da soul music.

Charles Bradley passou quase sua vida inteira como cozinheiro, tendo passagens trabalhando por Boston, Califórnia e até Alaska. Até mesmo após seguir seu sonho e começar a carreira artística – descoberto por um dono de gravadora – as coisas não permaneceram fáceis para o cantor. Pouco depois de assinar com a Daptone Records, recebeu a notícia de que seu sobrinho havia matado seu irmão em uma discussão, carga emocional que este despejou em seu ótimo debut, No Time For Dreaming.

A história de vida de Charles dá aval suficiente para este entregar músicas sobre amor e sofrimento em interpretações extraordinariamente verdadeiras. Sim, pois falar da voz do cantor é chover no molhado, é nível técnico de lendas como James Brown. O que o distingue de muitos artistas de soul é a legitimidade impressionante que traz às canções. O cover de Black Sabbath e single do disco, Changes, é a prova máxima disso. Charles pega os versos de Ozzy como se sempre tivessem esperado décadas para cair nas mãos de seu real intérprete, tamanha a originalidade e emoção presente na faixa.

Abrindo com God Bless America, faixa bem nacionalista, Charles presta tributo a sua pátria, a famosa “terra das oportunidades”, citando ele mesmo como exemplo de homem que passou por tanto sofrimento e finalmente conseguiu agarrar uma chance preciosa que esta ofereceu. Há uma ligação perfeita com a segunda faixa, Good To Be Back At Home, mantendo o espírito nacionalista em um fantástico funk com entradas pontuais de metais e versos que dizem muito sobre o artista (“Tudo que passei/ É bom estar de volta em casa”).

Changes certamente é seu disco mais pessoal, é sobre as mudanças em sua vida desde que assumiu a carreira artística. “É a minha vez de amar e ser amado” ele grita no início do groove deslumbrante e enérgico de Ain’t It A Sin, demonstrando uma fome de viver enorme. O interessante é que Charles passeia por diferentes facetas da soul music, desde a pegada blues na guitarra de Ain’t Gonna Give It Up, até ares mais melancólicos, como em Slow Love, encerramento que lembra clássicos de Marvin Gaye.

Seria pecado não mencionar o brilhante papel da banda Menahan Street Band aqui. Esta tem a fundamental importância de preencher os emotivos versos com arranjos que vão do espetáculo a minunciosidade. Vai dos marcantes metais gritantes de Change The World até a descontração do baixo e belos vocais de Things We Do For Love. Banda e vocalista andam sempre lado a lado, perceba como chegam juntos ao clímax de Nobody But You, quando o cantor entrega seu agudo mais inacreditável em meio a uma tempestade de instrumentos de sopro.

Mesmo sendo um trabalho que se apoia no modelo retrô do soul (não se trata de nenhuma reinvenção da roda), Charles entrega um espetáculo de interpretação e voz, tudo unido a arranjos primorosos recheados de técnica. Changes é um mergulho em sua vida e as mudanças pelas quais esta passou. É o disco que coroa o cantor de vez como um dos reis da nova safra da música negra.

Aumenta!: Change The World
Diminui!:
Minha canção preferida: Good To Be Back At Home

Changes
Artista: Charles Bradley
País: Estados Unidos
Lançamento: 1 de abril de 2016
Gravadora: Daptone Records
Estilo: Soul, Funk

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.