Crítica | “Channel Orange” – Frank Ocean

estrelas 5,0

Em minha cidade natal, costumava gostar de escutar uma rádio chamada Light FM quando eu era criança. Enquanto as outras FMs não cansavam de tocar o máximo do mainstream, a Light FM se dedicava aos ouvintes mais tranquilos e mais dedicados a ouvir uma música mais específica. Você ouvia alí canções acústicas e de ambientação mais leve, desde clássicos da música a artistas em início de carreira, tudo isso principalmente na faixa da noite. Escutar Channel ORANGE de Frank Ocean me traz alguma lembrança dessa rádio, já que durante todo o álbum se tem a impressão de estar escutando um programa de FM na madrugada.

Inicialmente conhecido por seu trabalho como rapper junto do grupo Odd Future, encabeçado por Tyler The Creator, Frank conquistou a muitos com sua mixtape Nostalgia, Ultra. No entanto, sua real explosão e tremendo sucesso de crítica e público foi com seu primeira trabalho de estúdio, Channel ORANGE. Aqui, o artista reformula um novo R&B para o cenário musical atual. Cheio de pop, soul e eletro-funk, tudo isso com falsetes afinadíssimos de seu timbre invejável, Fran Ocean é a escolha de alguns pra comparações afim de intitular o “novo Michael Jackson“, já que a mídia tem uma incrível necessidade de comparar qualquer cantor de R&B emergente ao rei do pop. Entretanto, seus temas e sua abordagem romântica um tanto depressiva permite relacionar Frank muito mais a um “Marvin Gaye moderno”.

Assim como um dos pilares da música negra fez em seu tempo com o clássico What’s Going On?, Frank insere diferentes temas no atual Soul/R&B americano. Ao mesmo tempo que aborda romantismo e amor não correspondido, também fala de drogas (Crack Rock), decadência, e assume sua homossexualidade (Bad ReligionForrest Gump). Entre vários intervalos de faixas encontramos áudios e frases soltas que roubam a cena (It’s not just about money, it’s about happiness, ou The only thing we shared was the refrigerator). São outros tempos, é interessante ver também o sábio uso de sintetizadores, sempre criando belas baladas eletrônicas como o pop contagiante do refrão de Lost, ou a fantástica Pyramids e seus incansáveis 9 minutos onde há espaço inclusive pra um derradeiro tocante solo de guitarra de John Mayer (que também aparece na ótima faixa de ligação, White). Desde a genial introdução do disco com Start – melhor abertura de álbum que já vi e que será nostálgica pra alguns – até o ar meio psicodélico, meio radiofônico do encerramento End, Channel ORANGE assume várias faces – do romantismo à conscientização – mas permanece na mesma linha objetiva de maneira impecável.

Channel ORANGE se trata de um álbum que, uma vez que te conquista, permanece frequentemente entre suas opções. Sem se prender somente a modelos pré-estabelecidos, o cantor cria usando sua própria fórmula um clássico moderno que se deve ter orgulho, principalmente por conseguir voar alto e conquistar não só crítica como também o grande público. Tudo indica que o conforto oferecido nas primeiras notas de teclado de Sweet Life e a voz acalentadora de Frank são marcos da música negra que podem ser comparados a grandes obras da Motown.

Aumenta!: Pyramids
Diminui!:
Minha canção preferida: Sweet Life

Channel ORANGE
Artista: Frank Ocean
País: Estados Unidos
Lançamento: 10 de julho de 2012
Gravadora: Def Jam
Estilo: R&B, Pop Soul

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.