Crítica | Channel Zero: Candle Cove

estrelas 4

A proposta de Channel Zero, nova série de horror do Canal SyFy, é trabalhar histórias diferentes em formato de antologia a cada temporada, histórias essas baseadas em creepypastas (vide definição ao final) populares. A primeira delas, Candle Cove, escrita por Kris Straub para o site Ichor Falls e desenvolvida para TV pelo autor e roteirista Nick Antosca, lida com aquelas misteriosas e fugidias lembranças de criança que provavelmente todos nós temos de uma forma ou de outra.

A mágica, aqui, é como essa premissa consegue ser transformada em uma mais do que eficiente série de horror que poderia muito bem ser uma espécie de herdeira espiritual de Twin Peaks. A comparação, aqui, reside muito mais na forma de execução do que no conteúdo em si, já que são séries muito diferentes, com a clássica obra de David Lynch sendo bem mais complexa e ambiciosa. Candle Cove incomoda por sua estranheza, fascina por sua simplicidade e atiça a curiosidade pelas bizarrices que vão se amontoando ao longo de seus breves seis episódios.

Na história, Mike Painter (Paul Schneider) é um psicólogo infantil que é atraído de volta a Iron Hills, seu vilarejo natal, para enfrentar os demônios de seu passado: as mortes de seus colegas e o desaparecimento de seu irmão gêmeo ao final da década de 80. Notando que novos acontecimentos locais envolvendo crianças têm conexão com o que viveu e sobretudo com as lembranças que ele e seus amigos sobreviventes têm sobre um mítico (e arrepiante) programa de TV com marionetes chamado Candle Cove, ele entra em uma espiral de mistério cada vez mais profunda e surreal que passa a desafiar sua sanidade mais uma vez, já que ele tem passagem por hospital psiquiátrico.

Mas Candle Cove não é tão linear quanto minha tentativa de sinopse pode deixar entrever. A produção ganha muitos pontos por ser minimalista e por valorizar a atuação estranha de Schneider, que compõe um personagem que não torna fácil a tarefa do espectador em criar empatia por ele. A ambivalência de suas ações, a forma quase blasé como ele lida com o que testemunha na cidadezinha e suas relações complicadas com a mãe, Marla (Fiona Shaw), sua paixão de infância Jessica (Natalie Brown), hoje casada com o chefe de polícia e amigo de infância dos dois Gary (Shaun Benson) e outros não permite que o espectador faça a ponte direta com o personagem, deixando-o em xeque por um bom tempo. E essa caracterização – proposital, claro – só amplifica a sensação de estranheza que a série passa desde seu primeiros minutos em que vemos Mike sendo entrevistado na TV e recebendo uma surpreendente ligação ao vivo.

Mas são os pequenos detalhes que diferenciam Candle Cove da maioria das séries de horror que estão disponíveis por aí. Contando com um orçamento visivelmente modesto, a produção é econômica em sustos fáceis, em fazer aquilo que é esperado. Sim, há criaturas estranhas e sim, há crianças agindo de maneira assustadora, mas não há trilha sonora subindo para nos ditar o que sentir, nem passeios por lugares escuros com lanterna na mão. Aqui, o menos é mais – muito mais! – e o mero programa de TV misterioso já é capaz de fazer os cabelos do braço se levantarem por mexerem com o inconsciente coletivo (a memória falha de situações que podem ou não ter acontecido da forma como lembramos quando éramos crianças).

Além disso, Candle Cove conta com uma direção interessante de Craig William Macneill, que precisa ser inventivo para construir a atmosfera pesada necessária para que acreditemos na gravidade da trama. Usando artifícios simples como contra-luz, manipulação da profundidade de campo, embaçamento de visão e filtros suaves para dar uma aura de imagens enevoadas sendo puxadas da memória, MacNeill é eficiente em transformar a fotografia em grande parte diurna e filmada em locação em uma cada vez mais sufocante e desesperadora viagem ao subconsciente do protagonista. Muitas vezes, por exemplo, o espectador não tem exata certeza de que o que vê realmente está acontecendo, em um belo uso de perspectiva não confiável (o que, aliás, vem sendo empregado com sucesso em Westworld).

Mas talvez o verdadeiro ponto alto da série seja sua arquitetura sonora. Mencionei acima que a trilha sonora, composta por Jeff Russo (prolífico compositor para TV, responsável por The Night Of e Fargo, dentre outras), não é o que esperamos de filmes e séries de terror. No lugar de ditar sentimentos, ela cria atmosfera e funciona em linha com a direção de MacNeill para “fechar o cenário” ao redor dos personagens e tornar a experiência “desagradável” (no bom sentido da palavra) para o espectador. Mas o som, aqui, vai muito além da trilha. Há um excepcional cuidado em lidar com a edição e mixagem sonoras, de forma que a sensação de inevitabilidade, de que algo está muito errado seja eficientemente criada. São pequenos sons – portas fechando, dentes tilintando, rajadas de vento passando – que contribuem para que o nosso subconsciente seja mantido em alerta, seja preparado para o pior, sem que necessariamente o que esperamos aconteça e sempre (ou quase sempre) pervertendo ou frustrando nossas espectativas. Aliás, mesmo com a perturbadora criatura “dentária” que aparece aqui e ali, o que não vemos é, naturalmente, bem mais terrível do que o que vemos e o som nos ajuda nessa jornada que, ao mesmo tempo em que queremos ir, algo nos diz para ficar, para fechar os olhos.

De certa forma, porém, o fechamento da história, ao mesmo tempo que tem o mérito de ser satisfatório, talvez por isso mesmo destoe do conjunto da obra. Deixe-me explicar a aparente contradição. Apesar de ser curta, Candle Cove é uma série de “queima lenta”, em que os acontecimentos evoluem a passos moderados, sem pressa, por vezes acumulando mistérios que o espectador, ao mesmo tempo que espera resolução, provavelmente sabe que ela não virá completamente. É assim durante os quatro primeiros e mais do que intrigantes episódios. Na medida, porém, que Antosca parte para encerrar sua narrativa, as peças começam a encaixar-se de forma conveniente e corrida demais, com um último episódio que afasta o mistério, afasta a discrição e a construção atmosférica para explicitar tudo em razoáveis detalhes tanto em termos de roteiro quanto em design de produção, tornando a experiência nesse momento muito mais, digamos, “comum”. Portanto, esperem um fim, mas ao mesmo tempo preparem-se para talvez preferir algo mais enevoado, mais em linha com o tipo de mistério estabelecido desde o primeiro minuto da narrativa.

Mesmo com um encerramento menos do que perfeito – mas que foi uma escolha consciente e lógica de Antosca – Candle Cove cumpre seu objetivo de canalizar o que de mais arrepiante e bizarro Twin Peaks tinha em uma história que está longe de ser verdadeiramente comparável ao trabalho de Lynch, mas que decididamente nos traz algo diferente e refrescante no gênero do horror televisivo. É, definitivamente, um trabalho que merece destaque mesmo entre a vasta oferta da televisão nos dias de hoje.

**Creepypasta é uma palavra formada por intermédio de uma brincadeira e corruptela da expressão copy and paste (“copia e cola”) para designar contos de horror fabricadas no âmbito da internet, como uma mistura de lenda urbana com aquelas histórias contadas ao redor de uma fogueira em acampamentos de filmes americanos.

Channel Zero: Candle Cove (EUA, 11 de outubro a 15 de novembro de 2016)
Criação:  Nick Antosca (baseada em creepypasta de  Kris Straub)
Direção: Craig William Macneill
Roteiro: Nick Antosca, Don Mancini, Harley Peyton, Erica Saleh, Katie Gruel, Mallory Westfall
Elenco: Paul Schneider, Fiona Shaw, Luisa D’Oliveira, Natalie Brown, Shaun Benson, Luca Villacis, Abigail Pniowsky, Marina Stephenson Kerr, Olivier de Sagazan
Duração: 43 min. aprox. (por episódio – 6 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.