Crítica | Channel Zero: No-End House – 2ª Temporada

  • Há leves spoilers. Leia, aqui, a crítica da 1ª temporada.

Mantendo exatamente o mesmo time criativo da arrepiante Candle Cove, mudando apenas o elenco, Nick Antosca volta para a segunda história de sua antologia de horror Channel Zero, com cada temporada baseada em uma creepypasta diferente. E, mais uma vez, ele acerta.

A chave do trabalho de Antosca parece ser a simplicidade ou, talvez melhor dizendo, a simplicidade aparente. Sob a guisa de lidar com desaparecimentos de crianças, o que está na superfície da primeira temporada, ele faz um estudo psicológico sobre a memória e seus efeitos sobre mentes em formação. Em No-End House o foco das atenções, o catalisador da narrativa é uma casa mal-assombrada daquelas montadas em parques de diversão e outros lugares em que o objetivo é chegar até seu fim sem morrer de medo. Aqui, ela é uma lenda urbana que surge na cidadezinha onde mora Margot (Amy Forsyth), que perdera seu pai há pouco tempo e que recebe a visita de sua melhor amiga Jules (Aisha Dee), que se afastara para ir para a faculdade. Influenciadas por amigos, elas acabam entrando na tal casa e, lá, têm que lidar com as bizarrices de seu interior que começam a ficar mais e mais verdadeiras.

Quando as duas chegam à última porta, elas passam, então, a encarar seu maior desafio: um fac símile de onde vivem em que o pai de Margot, John, vivido por John Carroll Lynch – ou alguém muito parecido com ele – está vivo. A partir desse ponto, quando o espectador acha que já entendeu a série, os roteiros dos breves seis episódios vão se aprofundando, novamente lidando com a memória, mas, aqui, de forma mais direta e assustadora.

Aliás, é particularmente feliz a forma como Antosca comanda a temporada, organicamente dividindo-a em atos bem definidos, substancialmente em três terços com espaços físicos diferentes, mas estranhamente iguais, cada vez mais lidando com reviravoltas orgânicas à trama mesmo considerando o elenco bastante reduzido da temporada. Outro ponto que merece comenda é que aquilo que parece gratuito e inexplicável quando é visto pela primeira vez, ganha estrutura lógica dentro do universo ali criado, com suas próprias regras (a primeira e mais importante sendo que temos que aceitar que uma casa sobrenatural como essa pode existir, algo corriqueiro, talvez, mas que nem sempre é). Com isso, cada mistério, cada elemento que parece solto (como a escola em que vemos tudo escrito em russo) tem seu encaixe dentro da proposta de Antosca sem que, porém, ele precise ser didático ou, pior do que isso, ignore linhas narrativas que ele mesmo introduziu.

A fotografia em tons tendentes ao sépia aplicada a um cenário propositalmente monótono, reproduzindo o subúrbio americano clássico, cria uma atmosfera opressiva, claustrofóbica, kafkiana de um labirinto – que pode ser o da mente – em que não há saída, pelo menos não uma saída fácil, sem sacrifícios. Cada elemento cênico é cuidadosamente utilizado para evocar sentimentos confusos e até contraditórios no espectador: as casas evocando liberdade, mas que são prisões, o cercado que significa liberdade, as paredes finas que parecem querer gritar para nós que tudo ali é sim um cenário e assim por diante. E, permeando tudo isso, ligando cada elemento, vemos a memória como elemento guia primeiro de maneira um tanto aleatória, mas, depois, como chave para desvendarmos todos os mistérios.

Em última análise, Antosca, que se inspirou na criação de Brian Russell, quer nos perguntar o que exatamente é nossa vida senão uma coleção de memórias ou, talvez, mais precisamente, de percepções sobre o que vivemos? O que é a vida sem um passado? O que é o futuro sem os alicerces sobre os quais ele é construído? Mas não esperem respostas, pois No-End House só nos oferece perguntas que permanecem em nossa mente mesmo quando a lógica do que vemos na telinha é estabelecida.

Diferente de Candle Cove, o final da temporada é mais orgânico em No-End House, ainda que alguns furos de lógica passem aqui e ali, especialmente no que se refere à memória de Margot. Aliás, se a temporada não tem problema no final, é possível sentir uma leve “barriga” lá pela sua metade, quando os personagens estão em meio a uma fuga macabra. Parece que o tempo é esticado ali para permitir que a série alcance seu tempo regulamentar.

Por outro lado, as duas jovens que protagonizam a série constroem bons personagens que funcionam harmonicamente quando juntas em uma amizade em que uma lembra a outra suas falhas com constância, mantendo um interessante e constante atrito. No entanto, quem rouba as cenas é mesmo John Carroll Lynch, com aquele seu jeito bonachão que indica com todas as letras que há algo errado, mas que mesmo assim queremos nos aproximar para ver o que é. Diria que, em termos de elenco, é ele quem faz efetivamente a série funcionar, sacudindo-a com suas alterações de humor como um pai que não deveria estar ali e que carrega um pesado passado.

No-End House é a simplicidade funcionando a favor de uma história intrigante e assustadora que, porém, não tem ritmo alucinado ou sanguinolência exacerbada. É uma temporada de queima-lenta, mas agradável, que deixa os espectadores curiosos – e ressabiados – do começo ao fim.

Channel Zero: No-End House (EUA, 20 de setembro a 25 de outubro de 2017)
Criação:  Nick Antosca (baseada em creepypasta de Brian Russell)
Direção: Craig William Macneill
Roteiro: Nick Antosca, Don Mancini, Harley Peyton, Erica Saleh, Katie Gruel, Mallory Westfall
Elenco: Amy Forsyth, Aisha Dee, Jeff Ward, Seamus Patterson, Sebastian Pigott, Jess Salgueiro, Melanie Nicholls-King, John Carroll Lynch
Duração: 43 min. aprox. por episódio (6 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.