Crítica | Chaos on the Bridge

estrelas 4,5

As histórias de bastidores da longeva franquia Star Trek são tão ou mais ricas do que as até agora seis séries televisivas (3o temporadas!) e 13 filmes lançados. Sempre abraçada com carinho por uma legião de fãs, mas de alguma forma permanecendo muito longe do estrondoso sucesso da franquia “rival”, a jornada que começou em 1966 e foi abruptamente interrompida em 1969, somente para ser reiniciada nos cinemas em 1979 (sim, houve a série animada antes, mas falo de recomeço de verdade) e na TV em 1987, constantemente sofreu para achar sua audiência e justificar investimento pelas redes de TV. Basta ver os vários quase-cancelamentos da Série Original, os diversos problemas no começo de A Nova Geração e a dificuldade que foi manter Enterprise no ar por apenas quatro temporadas.

E William Shatner, uma das figuras mais míticas de toda a série, resolveu abordar, em seu terceiro documentário sobre Star Trek, justamente as dificuldades do início da produção de A Nova Geração. Usando animações simples para dramatizar eventos e uma boa quantidade – e variedade – de muito bem editadas entrevistas com o elenco e com os produtores da série, Shatner evita os problemas de seu The Captains, de três anos antes, ao resumir tudo a menos de um hora de projeção e seguindo uma linha mestre de raciocínio que se vale da cronologia dos acontecimentos.

Com uma pegada simples, mas eficiente e que evita idolatrar Gene Roddenberry ou mesmo qualquer outro envolvido na produção, Shatner, que também escreve e apresenta o documentário, começa literalmente do começo, com a solidificação da franquia no cinema (no ano anterior ao lançamento de A Nova Geração, o grande sucesso Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa era lançado) que leva ao renascimento do interesse em uma nova série, passando pela ideia então absurda e “ultrajante” de algo novo, sem Kirk e Spock, chegando ao sucesso estrondoso que ela angariou depois que passou de seus complicados primeiros anos. É como ver uma perfeita fórmula para o fracasso sendo lentamente formada, somente para, de repente, os ventos mudarem e a série, contra todas as probabilidades, cair no gosto popular.

A personalidade difícil de Roddenberry é o ponto focal do trabalho de Shatner. Ele, que trabalhou com o criador sabe isso de cadeira, mas ele deixa seus entrevistados falarem livremente, sem muita interferência aparente. Vê-se, assim, um misto de hesitação e de alívio em todos os entrevistados, que acabam reconhecendo o preciosismo e o brilhantismo do pai de Star Trek que tinha como diretiva fundamental para a nova série a ausência completa de conflito na tripulação. Isso, claro, causou espécie aos roteiristas, que se viram presos a situações externas à Federação dos Planetas Unidos, dificultando a progressão narrativa. Mas era a irredutível visão de Roddenberry que, nesse começo, tinha ainda muita voz.

É interessante ouvir de Patrick Stewart como ele foi rejeitado inicial pelo produtor/criador e, depois, aceito como o único que poderia viver o personagem. E é particularmente assustador quando Brannon Braga e Ronald D. Moore, que assumiriam cada vez mais posições-chave na série ao longo das temporadas, afirmam como a obsessão de Roddenberry quase transformou a série em um produto natimorto.

Mas não há crucificação de Roddenberry. Isso cabe apenas ao seu advogado Leonard Maizlish que é universalmente odiado pelos entrevistados. Conforme os relatos, especialmente o do produtor e roteirista David Gerrold (que chega a dizer que gostaria de ter jogado o sujeito pela janela), ele não só defendia seu cliente com unhas e dentes, às vezes impedindo acordos razoáveis, como também espionava os demais roteiristas e alterava, de próprio punho, seus trabalhos, criando o caos do título. Essa visão é sempre importante, pois é muito comum aos espectadores culparem os estúdios pelas mazelas na produção, com o que se percebe como a interferência indevida de gente que não sabe nada sobre a franquia em determinado filme ou série. Em Chaos on the Bridge, vemos o outro lado da moeda e que nem sempre os vilões são só os estúdios.

O melhor do documentário, porém, é mesmo seu passo rápido e ritmado. Shatner não tem tempo a perder, não deixa que longos trechos de entrevista atravanquem o andamento, cortando-os para tamanhos bons e com conteúdo, sem deixar qualquer traço de enrolação ou auto-elogios. A inserção de animações para fins de dramatizações também funciona muito bem, pois empresta um ar de ficção à obra e consegue até mesmo emprestar um viés de suspense cômico. E o próprio Shatner, quando aparece, deixa transparecer aquele seu ar bonachão, quase debochado, ao lidar com os intervalos narrativos e as poucas intervenções nas entrevistas. Ele encontra um ótimo equilíbrio entre informação e drama, apresentando um documentário curto, mas repleto de situações muito peculiares desse riquíssimo mundo de bastidores de Star Trek.

Chaos on the Bridge é uma abordagem leve, bem vinda e de fácil digestão sobre eventos que quase impediram a vida longa de uma das mais importantes séries de ficção científica já feitas. Shatner consegue criar interesse sem aparente esforço, tornado o documentário essencial para fãs da franquia.

Chaos on the Bridge (Canadá/EUA – 2014)
Direção: William Shatner
Roteiro: William Shatner
Com: William Shatner, Richard Arnold, Ira Steven Behr, Rick Berman, Brannon Braga, Denise Cosby, John de Lancie, Lolita Fatjo, D.C. Fontana, Jonathan Frakes, David Gerrold, Maurice Hurley, Jeffrey Katzenberg, David Livingston, Gates McFadden, Leslie Moonves, Ronald D. Moore, Diana Muldaur, Patrick Stewart
Duração: 59 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.