Crítica | Chaplin (1992)

estrelas 3,5

Chaplin é, antes de mais nada, uma grande homenagem a um dos maiores artistas já existentes, é Richard Attenborough demonstrando sua completa admiração por Charlie, que irá deixar a qualquer admirador do ator/ diretor/ roteirista/ músico com lágrimas no canto do olho e muitos sorrisos. Dito isso, contudo, temos uma obra que não só foge da perfeição como peca na própria homenagem que se preza a fazer, se deixando levar muito por um lado específico da vida de Chaplin enquanto deixa outra com menos supervisão.

Ironicamente, a parcela da vida do artista que soa subaproveitada é justamente aquela que corresponde à sua maior contribuição: seus filmes. Ao invés de termos um foco em cima do processo criativo, dos motivos por trás de cada obra, o roteiro gasta um tempo desnecessário cobrindo as escapadas românticas e casamentos do artista. Em paralelo, Edna Purviance parece ignorada, ganhando pouco destaque, por mais que tenha acompanhado o diretor em mais de trinta filmes, inclusive em uma tentativa de lançar a atriz em uma carreira dramática através do ótimo Casamento ou Luxo. Não seria interessante observar essa crescente amizade?

Felizmente um outro laço significativo da vida de Charlie ganha o devido destaque, este é Douglas Fairbanks, com quem fundou a finada United Artists, na esperança de construir um local onde o departamento criativo tem mais voz que os produtores – não é preciso dizer que isso não se seguiu exatamente à risca, como vimos nos anos subsequentes do estúdio. O ótimo Kevin Kline dá vida à essa lenda do cinema e de imediato chama a atenção do espectador não só pela sua relação com Chaplin, mas por ser uma das peças fundamentais na construção do tom da obra. Por outro lado, a UA acaba, também, sendo ignorada pela maior parte do filme.

O tom dito acima é um de melancolia, uma tristeza muito singular de um homem que busca o riso a todos e que, por si só, não consegue conter toda essa felicidade. A peça fundamental para a construção dessa figura é ninguém menos que Robert Downey Jr., muito antes de encarnar o Homem de Ferro e alguns anos a priori de seu pior confronto com as drogas. Robert encarna perfeitamente Chaplin e nos faz acreditar, a cada instante, que estamos diante deste ídolo. O ator foi devidamente indicado ao Oscar pelo papel, mas acabou não levando a estatueta (afinal, competiu com o gigante Al Pacino em um de seus melhores papeis: Perfume de Mulher).

Essa tristeza vigente na projeção é muito bem exposta quando observamos o processo criativo por trás de Tempos Modernos e O Grande Ditador, nos quais o artista demonstra todo seu descontentamento com aspectos de sua sociedade, o motivando a realizar essas duas marcantes obras-primas. É interessante notar a incrível falta de sorrisos que observamos por parte de Chaplin em toda a obra – os poucos que chegamos a ver se limitam a algumas ironias e durante o dramático encerramento do longa-metragem.

A homenagem a Charlie também se faz presente na incrível trilha sonora de John Barry, que não só capta perfeitamente o tom da obra, como nos lembra de melodias compostas pelo próprio Chaplin. O destaque vai para as incríveis sequências envolvendo as complicações acerca da finalização de O Garoto, que quase foi roubado pela primeira esposa do artista. A construção de tais cenas é de cativar qualquer espectador, mimetizando de forma ideal a filmografia de Charles.

Chaplin conta, sim, com seus inúmeros defeitos. É um filme sobre um memorável homem que acaba sendo uma produção não tão memorável assim. Dito isso, o filme ainda consegue nos cativar durante seus 143 minutos graças ao inesquecível trabalho de Robert Downey Jr., que foge de seu “eu mesmo” de Tony Stark e nos entrega um homem apaixonado pelo que faz, apaixonado pela raça humana e profundamente abalado pelos acontecimentos ao seu redor. Com um claro potencial não utilizado, o filme continua causando uma forte impressão.

Chaplin (idem – EUA, 1992)
Direção: 
Richard Attenborough
Roteiro: William Boyd, Bryan Forbes, William Goldman
Elenco: Robert Downey Jr., Geraldine Chaplin, Paul Rhys, John Thaw, Moira Kelly, Anthony Hopkins, Milla Jovovich
Duração: 143 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.