Crítica | Charlie the Choo-Choo, de Beryl Evans [A Torre Negra]

estrelas 5,0

Charlie o Choo-Choo? Beryl Evans? O que raios é isso que você está criticando, Ritter Fan?

Tenho certeza que os que nunca leram absolutamente nada sobre a saga A Torre Negra de Stephen King devem estar se perguntando isso ou variações disso. E com razão, pois, mesmo tendo lido tudo disponível da série até agora, até mesmo eu cocei a cabeça quando descobri a existência desse livro infantil escrito por um ilustre desconhecido, mas que, diziam as reviews e comentários, se passava no Mundo-Médio, o mundo fictício criado por King como uma espécie de ponto de convergência de todo o multiverso, o local onde se encontra a mística Torre Negra que seu Pistoleiro, Roland Deschain, quer encontrar de qualquer maneira.

Bem, vamos então começar pelo começo, tentando passar o be-a-bá da mitologia.

Conforme estabelecido nos sete livros principais do épico moderno, o mundo de Roland – que é como se fosse um futuro de nossa Terra, mas tão no futuro que tudo que existe lá é um grande cenário de faroeste distópico – está em frangalhos, pois o misterioso Rei Rubro quer destruir a Torre Negra que, com os doze feixes que emanam de lá, segura toda a realidade no lugar. A cada feixe partido, um pedaço da realidade se vai. Roland, então, depois de viver um inferno de vida quando jovem, decide, sozinho, encontrar a Torre Negra e desfazer tudo o que foi feito. Aos poucos, porém, ele descobre que não conseguirá alcançar o lugar sem ajuda e, então, ele reúne o que ele chama de ka-tet, grupo de pessoas (que pode incluir animais também) unidos pelo destino e com um objetivo só. Mas, por razões que não explicarei aqui para não complicar, o ka-tet de Roland é formado por americanos vindo de épocas diferentes de Nova York por meio de portas interdimensionais: Susannah é uma mulher sem pernas e com múltiplas personalidades da NY de 1964, Jake Chambers é um garoto de 11 ou 12 anos da NY de 1977 e Eddie Dean é um viciado em drogas da NY de 1987. Uma vez reunidos, eles passam a enfrentar desafios tanto no Mundo-Médio quanto na Terra para chegar até a Torre Negra.

Jake Chambers é quem interessa pelo momento. No terceiro livro da série, As Terras Devastadas, o garoto, antes de chegar à porta que o levaria pela segunda vez ao Mundo-Médio (a primeira não cabe ser relatada aqui), é atraído por uma livraria/café em Nova York chamado Restaurante da Mente de Manhattan, onde encontra o livro infantil fictício Charlie the Choo-Choo, escrito por Beryl Evans, e ele o compra do dono do lugar, Calvin Tower (sim, tower = torre). O trem antropomórfico da capa tem um vago significado a ele em razão das visões que ele tem do monotrilho Blaine, que ele encontraria, tempos depois, já no Mundo-Médio. Blaine, na verdade, é um trem altamente tecnológico, mas consciente, com tendências, digamos… homicidas. No mundo de Roland, o mesmo livro existe, só que escrito por Claudia y Inez Bachman.

Quem conhece Stephen King, sabe que um dos pseudônimos que ele usa é Richard Bachman. Claudia y Inez Bachman é o pseudônimo da esposa de King, que é esposa de Richard Bachman. E o nome tem 19 letras, algo importante na mitologia da série (e não, novamente não explicarei o porquê).

Apenas com essas pinceladas, vocês, caros leitores, já podem começar a vislumbrar como é que raios a cabeça de Stephen King é, para usar um eufemismo, excêntrica. Não satisfeito em criar o livro Charlie the Choo-Choo e inseri-lo como artifício narrativo em sua  auto-declarada obra-prima, ele decidiu – sob o pseudônimo Beryl Evans (praticamente um personagem de A Torre Negra – e que tem significados maiores se, quem já leu, lembrar quem é que aparece mais para a frente na saga) – materializá-lo em 2016, com lançamento especial e limitado na San Diego Comic-Con. Hoje, o livro está disponível de forma “ilimitada”, mas foi um acontecimento nérdico quando King, digo, Evans, lançou o livro que antes era só fictício.

E sim, trata-se de uma obra voltada ao mercado infantil. Ele conta a história de Charlie o Choo-Choo, locomotiva consciente do Mundo-Médio comandada pelo Maquinista Bob e que é substituída por um monotrilho muito mais moderno, sendo largada para enferrujar no pátio da ferrovia. Mas é claro que a modernidade acaba mostrando seus problemas e Choo-Choo tem que entrar em funcionamento novamente, para alegria dele e de Bob, que, a essa altura do campeonato é conhecido como Faxineiro Bob. Trata-se de um conto brevíssimo, simpático, com um texto bem construído e simples, com moral clara e edificante para crianças.

Isso se elas não notarem o sorriso maligno de Charlie nos desenhos de Ned Dameron (vide a imagem que ilustra a presente crítica). E isso se elas não tiveram a mais remota ideia do que Charlie representa na saga A Torre Negra, ou seja, nada mais do que uma versão infantil do monotrilho Blaine, praticamente um assassino serial sobre trilhos.

E o mais interessante é que Evans nem tenta explicar as feições sinistras de Charlie. Muito pelo contrário até. O trem, que cantarola alegremente para seu maquinista, é tratado como o “amigo da criançada” como se as imagens que acompanham o texto estivessem em perfeita sintonia. E é isso que torna o livro tão, hummm, sinistro. É daí que vem minha conclusão sobre a “excentricidade” de King, algo, claro, que afirmo em tom jocoso (mas não tanto…). O restante da arte, vale dizer, segue pelo mesmo caminho se o leitor for atento aos detalhes. Paisagens desoladas, cores pasteis com tonalidades mais tristes e composição de páginas com elementos que parecem deslocados acrescentam à impressão quase subliminar de que há algo errado ali.

Se o livro é recomendado de verdade para crianças? Bem, tendo lido A Torre Negra de cabo a rabo, não consigo mais dissociar uma coisa da outra e minha resposta é que não, melhor poupar as mentes jovens das sandices do escritor do Maine. Não que o livro vá influenciar ou traumatizar alguém, mas sim porque, simplesmente, apesar de não parecer, ele foi escrito mesmo é para os leitores da saga, quase como um easter-egg.

E esses leitores, diga-se de passagem, simplesmente precisam ler o livrinho. Seja pelo inusitado da coisa, seja para poder bater no peito e dizer com orgulho que leu tudo sobre A Torre Negra, revelando uma obsessão muito parecida com a de Roland, talvez até pior…

Longos dias e belas noites!

Charlie The Choo-Choo (EUA, 2016)
Autor: Beryl Evans (Stephen King)
Ilustrador: Ned Dameron (baseado em)
Editoral original: Simon & Schuster Books
Data original de publicação: 22 de novembro de 2016
Editora no Brasil: não publicado no Brasil à data de lançamento da presente crítica
Páginas: 24

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.