Crítica | “Chasing Yesterday” – Noel Gallagher’s High Flying Birds

estrelas 5,0

Talvez a banda de rock de maior impacto no público na década de 90 e a que mais influencia o rock atual (para o bem ou para o mal), o Oasis deixou órfãos pelo mundo desde seu término em 2009. Os polêmicos irmãos Gallagher fizeram história ao conseguir misturar rock e pop de maneira extremamente decente. Desde o fim do grupo, enquanto a maioria permaneceu na banda Beady Eye, Noel Gallagher  resolveu seguir um novo caminho com o grupo Noel Gallagher’s High Flying Birds. Depois de um elogiado e homônimo debut, um dos artistas mais egocêntricos e polêmicos da década lança seu segundo disco, Chasing Yesterday.

É seguro dizer que o ego de Noel é seu principal aliado. Preferível artistas egocêntricos que levam seu som a sério a artistas que esbanjam uma falsa humildade e só entregam o mais do mesmo. Chasing Yesterday não só está longe do som mais garageiro do Oasis, como se mostra um som mais complexo e melódico, onde Noel se vê livre pra fazer música como bem quiser.

Abrindo com uma ótima escolha, Riverman carrega uma forte aura Oasis, surpreendendo com um arranjo tão introspectivo quanto foi Wonderwall para a antiga banda, além de mostrar uma grande característica do álbum: a ousadia. Somos apresentados a dois solos espetaculares, um de guitarra e um de saxofone (presença essa que faz alguns críticos insistirem em falsas influências jazzistas no álbum). Já em In The Heat Of The Moment, Noel entrega um excelente single pop bem produzido e propício a ir parar nas rádios, com um refrão impossível do ouvinte não cantarolar o clássico “Na Na Na”.

Inevitável também é escutar a introdução de The Girl With X-Ray Eyes e não lembrar Stairway To Heaven do Led Zeppelin. Papai Noel faz uma provável inicial homenagem a banda e depois transfere a melodia pra uma balada indie carregada de uma letra romântica. Entretanto, a maior balada do disco fica com a acústica The Dying Of The Light, faixa que trata sobre superação. Noel Gallagher mostra nela um lado sensível por trás do pop star egocêntrico, interpretando a canção muito bem em sua voz.

Um grande ponto do disco é trazer uma complexidade sonora que pode ser absorvida por qualquer público. Não se trata nada mais do que rock alternativo, que poderia ser comparada com alguma banda medíocre como Nickelback se não tivesse produção e arranjo tão impecáveis, como mostram Lock All The Doors e You Know You Can’t Go Back. Enquanto isso, o estilo pos-punk e indie clássico aparece tanto na letra, quanto nos riffs lentos e dançantes de The Mexican.

Pegue um calmo solo de saxofone, discretas notas de teclado, uma linha de baixo marcante, um vocal doce e melancólico, uma bateria bem executada, solos guitarrísticos bem melódicos e coloque tudo em um liquidificador. Então você tem The Right Stuff, uma pintura valiosa e a mais experimental. Interessante também a passagem desta para a profunda While The Song Remains The Same, uma conexão bela e sutil que reforça o esquecido conceito de como um álbum deve ser: homogênio e centrado. Por fim, em Ballad of The Mighty I – com a participação de Johnny Marr do The Smiths na guitarra o cantor dá uma aula de como compor uma canção extremamente bem escrita e bem inserida nos acordes, com uma temática romântica madura, passando longe do romantismo barato presente na indústria musical.

A versão deluxe ainda possui ótimos adicionais, mostrando lados diferentes do artista. Seja a fantástica Do The Damage – talvez a única verdadeiramente influenciada pelo Jazz -, a leveza da acústica Revolution Song (que prova que Noel não tira os Beatles de suas influências), o excelente rock sombrio de Freaky Teeth, ou a versão remix de The Heat Of The Moment que facilmente poderia tocar em uma balada.

Noel Gallagher e sua banda pega grande parte do que seguia o Oasis, mas diferente do que alguns dizem, não se apoia no passado. Seguindo o que foi apresentado em seu primeiro disco solo, Noel parece muito mais livre pra compor, inserindo melodias menos rockeiras e mais alternativas. Se trata de um disco raro de se encontrar nos dias de hoje, com um comprometimento musical tão grande quanto Bruce Springsteen teve nos inspirados arranjos de Born To Run, disco que, apesar das diferenças, poderíamos traçar um raso paralelo com Chasing Yesterday. Devido a seus primorosos arranjos, a obra do americano se tornou um clássico, assim como a de Noel Gallagher’s High Flying Birds um dia pode se tornar.

Chasing Yesterday
Artista: Noel Gallagher’s High Flying Birds
País: Inglaterra
Lançamento: 2 de Março
Gravadora: Sour Mash
Estilo: Rock Alternativo, Britpop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.