Crítica | Chef’s Table – 1ª Temporada

estrelas 4

Durante o segundo episódio de Chef’s Table, o chefe Dan Barber diz “temos um poder agora que nunca tivemos”, referindo-se a fama que os chefes de cozinha têm hoje em dia. O aumento na popularidade dos cozinheiros gastronômicos ocorreu grande parte ao aumento da exposição deles na mídia, com a criação de programas de televisão e reality shows, levando  aos holofotes esses profissionais que, até então, eram reconhecidos apenas pelos círculos sociais mais altos. Diante disso, como o interesse do público aumentou, a indústria passou a produzir mais conteúdos sobre a área, gerando projetos como Chef’s Table.

A série explora a história e culinária de seis dos maiores chefes do planeta, destacando suas técnicas e restaurantes onde cozinham espalhados pelo mundo. Os profissionais que protagonizam cada episódio são Massimo Bottura, Dan Barber, Francis Mallmann, Niki Nakayama, Ben Shewry e Magnus Nilsson e cada um conta sobre sua vida, influências e estilo culinário.

Logo no início de cada episódio, antes mesmo da sequência de abertura, o roteiro preocupa-se em humanizar os chefes, mostrando-os contando alguma passagem de suas vidas. Essa escolha pelos realizadores mostra-se extremamente acertada, pois o mundo gastronômico ainda é elitizado, fato destacado por alguns cozinheiros quando comentam sobre seus clientes, sendo necessário desvincular essa imagem deles. Para atingir ainda mais esse objetivo o recurso utilizado é, além de mostrar o trabalho de cada um, destacar os obstáculos que cada um teve que enfrentar, aproximando-os do público.

Claro que, devido ao tempo curto de cada episódio, algumas informações sobre origem dos cozinheiros são ignoradas, deixando detalhes importantes de fora da história, mas isso é compensado pela mensagem que cada um traz e vale ressaltar como a escolha de quais chefes protagonizariam cada episódio foi acertada, uma vez que, se eles não tivessem algo interessante para transmitir a série teria a sensação de repetitiva. Logo, vamos que enquanto Massimo Bottura é extremamente apegado a cidade de Módena e valoriza seus laços afetivos com a cidade e  família, Francis Mallmann é o aposto, exaltando seu espírito livre e raramente permanecendo mais de dois dias em um local, permanecendo pouco tempo com a filha. Essas diferenças ideológicas entre todos os cozinheiros fazem com que cada episódio seja um universo extremamente diferente a ser explorado, o que contribui para que a série não caia na monotonia.

Mas o verdadeiro foco dos realizadores é ressaltar o talento e criatividade de cada chefe, dando amplo destaque para o estilo culinário de cada um, sendo incrível constatar como eles se diferenciam nesse quesito. Então, enquanto Dan Barber usa a ciência e ecologia para ter ingredientes mais saborosos e sem conservantes, com a ajuda de um técnico agrônomo, Francis Mallmann recorre a técnicas ancestrais, como cozinhar em fossas e cobrir alimentos com argila. Já Niki Nakayama pratica a tradicional técnica kaiseki da culinária japonesa, enquanto Ben Shewry foca na modernidade e invencionismo para criar seus pratos. Ao comparar essas diferenças, o conteúdo apresentado na série mostra-se ainda mais rico, variado e interessante.

Tamanha intimidade com o mundo gastronômico deve-se ao fato do criador da série ser David Gelb, que já havia dirigido o documentário O Sushi dos Sonhos de Jiro, que conta sobre a culinária japonesa e um dos melhores restaurantes de sushi do mundo. Em Chef’s Table o diretor demonstra ainda mais conhecimento sobre o assunto, tendo muito cuidado para valorizar o trabalho de cada chefe. Uma dos recursos utilizados para isso é fotografar os pratos sempre em close-ups extremos e planos macro, ressaltando detalhes milimétricos que passariam despercebidos caso fossem utilizados planos mais amplos, ressaltando o cuidado que foi necessário para construir cada prato. Outra técnica presente é o slow motion, utilizado toda vez que um chefe está cozinhando e montando seu prato, permitindo que o público veja claramente cada movimento sutil feito por eles no processo. Além disso, ao final de cada episódio são mostrados os pratos característicos de cada um enquanto a edição intercala essas imagens com uma música instrumental, sendo uma forma sutil de comparar as criações deles com a de qualquer outro artista.

Mesmo com o aumento de popularidade dito no início, a culinária gourmet ainda sofre o preconceito de algumas pessoas, sendo objeto de várias montagens nas redes sociais, como, por exemplo, o raio gourmetizador. Outra crítica direcionada a culinária gastronômica é a quantidade de comida das refeições, com algumas pessoas alegando que seria necessária uma quantidade enorme de porções como aquelas para poderem se alimentar (comentário que eu já fiz, aliás). Porém, Chef’s Table busca justamente quebrar esse preconceito, destacando o esforço e criatividade colocados pelos cozinheiros em cada prato. Ao fim da temporada e tendo conhecido o trabalho daqueles profissionais é possível constatar que ao jantar em um restaurante gastronômico não se pode ter como objetivo se fartar de tanto comer, uma vez que, o verdadeiro sabor dos ingredientes se perde nesse processo, como alguns chefes comentam, mas a prioridade nesses locais deve ser apreciar a criação deles, assim como quem visita uma galeria deve ir para admirar as obras dos artistas.

Chef’s Table – 1ª Temporada (EUA, 2015)
Showrunner: David Gelb
Direção: David Gelb, Clay Jeter, Brian McGinn, Andrew Fried
Roteiro: Claire Dagress, Danny O’Malley
Elenco: Massimo Bottura, Dan Barber, Francis Mallmann, Niki Nakayama, Ben Shewry, Magnus Nilsson
Duração: 50 minutos (cada episódio)

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.