Crítica | Chicago

Chicago

estrelas 4

Moulin Rouge – Amor em Vermelho foi um grande acontecimento na virada do século. A produção australiana dirigida por Baz Lurhmann trouxe renovação para um gênero, digamos, “esquecido” naquela época. O sucesso do filme ecoou nas principais premiações da época e abriu as portas para a nova sequência de musicais que estreariam logo à seguir, sendo Chicago, uma destas produções.

John Kander e Fredd Ebb, responsáveis pelas músicas e letras, respectivamente, da primeira montagem da versão teatral de Chicago, em 1975, juntaram-se aos produtores e ao cineasta Rob Marshall, em seu primeiro trabalho de direção para cinema, tendo em vista a adaptação da peça para a linguagem cinematográfica. O resultado foi promissor, pois o musical foi indicado em treze categorias na cerimônia do Oscar 2003, levando um pouco mais da metade.

Em Chicago, Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones) é a principal atração de uma boate em que trabalha. Certo dia, ela mata o seu marido e, curiosamente, torna-se uma celebridade local. Os motivos do crime estão relacionados à infidelidade do marido, um homem que a traia com a sua própria irmã. Sob as orientações do seu advogado Billy Flynn (Richard Gere), a moça luta para sair da cadeia.

Flynn é um homem que se aproveita bastante da situação, pois ao defender Velma, ganha bastante publicidade para a sua carreira, em suas palavras, “o tipo de publicidade que o dinheiro não pode comprar”. Paralelo a isso, temos a aspirante a cantora Roxie Hart (Renée Zellweger), uma sonhadora que diante de uma situação inoportuna, aniquila o seu amante.

Ao saber do crime, Billy se interessa em representar Roxie nos tribunais. Para isso, ele precisou, entretanto, ser convencido pelo marido traído, interpretado pelo ótimo John C. Reilly. Billy então adia ao máximo o julgamento de Velma, tendo em vista aumentar a sua imagem nos tabloides, e por tabela, na sociedade.

Tal como ocorreu com Velma, Roxie se torna uma celebridade da noite para o dia. Graças ao crime cometido, a moça ganha notoriedade, o que acaba por irritar a sua concorrente. Diante da disputa entre as duas pelo posto de “vedete”, Billy se aproveita da situação para ganhar mais prestígio, leia-se: dinheiro. Para isso, conta com a ajuda da diretora da prisão, Mama Morton (Queen Latifah), uma mulher corrupta, farejadora de dinheiro.

Assim, o filme alterna as cenas dentro da prisão com a mente fértil de Roxie diante dos fatos. A moça cria um número musical para cada situação, dentro e fora da prisão e do julgamento. Em suas elucubrações, as pessoas cantam e dançam diante dos problemas. Os números de abertura e encerramento são alguns destes momentos magicamente imaginativos.

A cenografia ambienta os anos 1920 com bastante competência, guiando os olhos do espectador diante daquele mundo que mescla realismo e magia. O elenco no geral está muito bem, tendo apenas Richard Gere como um elo fraco. O ator é muito bonito e carismático, mas não emplaca como o advogado, beirando ao caricato. No entanto, ironicamente, ele encabeça a apresentação musical mais significativa, o excepcional show em que, metaforicamente, faz da personagem de Renée Zelwegger a sua marionete.

O roteiro de Bill Condon apresenta um fiapo de história, mas consegue se erguer graças aos excelentes números musicais, material adornado pela eficiente Direção de Arte e Figurino, relacionados com a edição, setores, merecidamente, devidamente premiados.  As ressonâncias de Os Homens Preferem as Loiras e O Show Deve Continuar são as mais evidentes, mas ainda há traços de pontos positivos dos ótimos Moulin Rouge – Amor em Vermelho e Cabaret.

Os produtores queriam Britney Spears puxando a trilha sonora, algo semelhante ao que aconteceu com a (mais talentosa) Christina Aguilera em Moulin Rouge – Amor em Vermelho. Seria o elo MTV do filme e isso, acreditaram, traria uma proximidade com o público jovem, afinal, esta foi a Época de Ouro de Britney Spears, hoje uma artista medíocre e decadente. O projeto não foi adiante e o público foi poupado. E Britney também, pois provavelmente amargaria críticas terríveis e possivelmente tiraria Chicago da linhagem respeitosa alcançada pelo filme na época de seu lançamento.

Chicago é um filme de cineasta estreante no circuito cinematográfico, mas experiente no meio da produção artística. Uma mistura de sorte e talento, pois o cineasta assinou uma produção que ganhou como Melhor Filme, Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Direção de Arte, Melhor Mixagem de Som, Melhor Atriz Coadjuvante e ainda foi ovacionado em outras premiações, tais como o Globo de Ouro e o SAG Awards. Rob Marshall provou que sabe gerenciar muito bem um filme, prova disso é transformar o roteiro mediano em um filme exuberante.

Chicago (Chicago) Alemanha-EUA /2002
Direção: Rob Marshall
Roteiro: Bill Condon
Elenco: Amber-Kelly Mackereth, April Morgan, Audrey Martells, Bill Britt, Bill Corsair, Bill Hartung, Blake McGrath, Brendan Wall, Brett Caruso, Brittany Gray, Bruce Beaton, Capathia Jenkins, Catherine Chiarelli, Catherine Zeta-Jones, Charley King, Chita Rivera,ra Riggs,  Lisa Ferguson, Lucy Liu, Marc Calamia, Margaret Dorn, Martin Samuel, Marty Moreau, Mary Ann Lamb, Megan Fehlberg, Melanie A. Gage, Melissa Flerangile, Michelle Galati, Michelle Johnston, Monique Ganderton, Natalie Willes, Nicki Richards, Niki Wray, Patrick Salvagna, Paul Becker, Queen Latifah, Rachel Jacobs, Rebecca Leonard, Renée Zellweger, Rhonda Roberts, Richard Gere
Duração: 103 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.