Crítica | Chico Bento – Arvorada

Orlandeli plano critico arvorada

estrelas 4,5

SPOILERS!

Em seu 15º projeto, intitulado Arvorada (que carrega o duplo sentido de “alvorada” — nascer do sol — e “arvorar” — exibir, arborizar), o selo Graphic MSP nos traz uma emocionante história, daquelas capazes de arrancar lágrimas dos olhos do público em mais de uma ocasião durante a leitura. Como nos diz a epígrafe da saga, “esta é a história de um menino (Chico Bento), uma anciã (Vó Dita) e um Ipê Amarelo”. Lirismo, mitologia caipira e família unidos em mais um grande título deste projeto de releitura para os personagens de Mauricio de Souza.

O tom do roteiro de Orlandeli, que também assina a arte e a aplicação de cores do volume, é bastante diferente daquele utilizado por Gustavo Duarte em Pavor Espaciar (2013). Naquela ocasião, o humor e as inúmeras referências à cultura pop, em um cenário de ficção científica, eram os motes da trama. Já em Arvorada, temos um drama familiar que desemboca em um momento de amadurecimento para o Chico, com aquelas lições de humanidade para as quais os poetas sempre chamam a nossa atenção, o fato de amar e se apegar aos belos momentos da vida, pois não demora muito e eles serão apenas memórias. Essa linha poética se mistura a um acontecimento importante para a família do protagonista naquele momento, que é a doença da Vó Dita, oportunidade que permite o sempre tocante resgate da clássica Uma Estrelinha Chamada Mariana (1990), lembrança que deixa o caipira abalado e desata a nossa primeira onda de emoção dentro da história.

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Se em texto, Orlandeli já consegue um resultado aplaudível destacando as coisas mais comuns (e belas!) da vida; na arte, sua representação de emoções e complementos com símbolos não deixa nada a desejar e serve de banquete para os olhos. Com traços exagerados e finalização com diferentes aplicações de luz, pelos e machas na imagem, o artista consegue maior encanto através de um “tipo belo de feiura”, com personagens cujas partes do corpo servem mais como elemento narrativo do que exposição visual daquilo que estamos lendo nas curtas narrações e pequenos diálogos das páginas. Há primeiríssimos nos olhos (e óculos) da Vó Dita, bem como em sua boca e mãos; e também na cara espantada de Chico Bento… seja na “noite de assombração” — que acaba se revelando uma imensa surpresa –, seja quando ele está chorando, apreensivo pelo futuro da avó, ou feliz com alguma coisa.

Cobrindo tudo isso, temos os tons “climáticos” das páginas, que variam entre sépia, amarelo, verde, marrom, vermelho, roxo e preto (utilizado como um inteligente modelo de “teatro de sombras”); cada uma dessas cores gerais com variações tonais até mesmo dentro de um único quadro, marcando a atmosfera de sentimentos predominantes ali, mas ao mesmo tempo, sugerindo escapadas e possibilidades, além de tornar a página mais dinâmica. Este belo trabalho de contexto visual ainda é completado pelas cores normalmente atribuídas a um personagem ou objeto de tom contrastante e diferentes aplicações de luz sobre os rostos.

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Nesta aventura, um ponto impressionante do texto é a constante preocupação de Chico com a avó. Mesmo não deixando de fazer coisas que normalmente fazia no seu cotidiano, o menino vive espiando pela janela ou portas, ouvindo a conversa do médico com o pai e tentando entender o que está acontecendo. Não sei se “culpa” seria a palavra correta para atribuir ao personagem aqui, mas o amadurecimento dele ou o medo da perda podem ser a explicação para esta relação cada vez mais forte. Ele tinha se preparado e prometido ver a florada do Ipê com a avó, mas não foi possível. A memória da primeira vez certamente foi um ponto de impacto para esta mudança, porém nada disso é colocado de maneira negativa na obra. O autor nos convida a pensar sobre os “nãos” que dizemos para algumas pessoas em algumas ocasiões, sem sabermos que a oportunidade de um novo encontro ou de viver a mesma coisa ao lado da pessoa pode não voltar a acontecer. Este é um pensamento denso para se colocar em uma Graphic MSP, e fico feliz que Sidney Gusman tenha aceitado que o autor guiasse o roteiro por este caminho e que Mauricio tenha dado o seu aval.

Há pontas da Rosinha e do Zé Lelé, além dos pais de Chico e do porquinho Torresmo nessa história, todos sendo atingidos, de alguma forma, pela doença da Vó Dita e pela tristeza e luta do Chico para sua recuperação. No fim, a grande lição é dada e molda o misterioso narrador, que junto da tristeza e da alegria de compartilhar alguns momentos, nota que a lembrança desses “pedaços da vida” pode servir de inspiração para quem ouvi-los; e que o chamado para olhar com cuidado as coisas comuns em nosso dia a dia, pode também ser um convite para saborear o que temos de melhor à nossa volta e, na pressa, não se percebemos. Infelizmente, muitos de nós somos campeões nisso.

Chico Bento – Arvorada – Brasil, 2017
Roteiro: Orlandeli
Arte: Orlandeli
Cores: Orlandeli
Editora: Panini Comics, Graphic MSP, Mauricio de Souza Editora
Páginas: 98

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.