Crítica | Chico Bento – Pavor Espaciar

estrelas 5

Pai do Céu! É o demo!

Zé! Corre!

Corre Torresmo! Corre Giserda!

Virge Santíssima! O robô gigante assombrado dos inferno si apoderô do meu primo! É o finar do mundo!

.

Pavor Espaciar faz parte de um grande projeto da Mauricio de Souza Produções, cujo objetivo é trazer à luz histórias da Turma da Mônica e outras turmas e personagens criados por Mauricio numa configuração nunca antes utilizada pelo artista: as graphic novels. Com inédita liberdade artística e de roteiro aos convidados, o alardeado Graphic MSP chega à sua terceira publicação, depois de Astronauta: Magnetar e Turma da Mônica – Laços.

Chico Bento – Pavor Espaciar é de autoria de Gustavo Duarte, cartunista com passagem por diversos jornais e revistas brasileiros e autor de narrativas visuais notáveis como Birds, Táxi, Có! e Monstros!. Para o projeto Graphic MSP ele fez algumas concessões narrativas, adicionando balões de falas para os personagens, algo que não costuma fazer em suas produções independentes. O fato de trabalhar com texto trouxe para Gustavo Duarte um desafio que pode ser percebido como uma gorda reticência geral na história, todavia, não é algo que faz de Pavor Espaciar uma produção menor.

A história se passa em uma noite quando os pais de Chico vão à cidade, visitar a tia Janda e o tio Mané, deixando o garoto e seu primo Zé Lelé sozinhos em casa, com a recomendação de irem dormir cedo. Surpreendentemente Chico e Zé se comportam muito bem sozinhos em casa, e Gustavo Duarte mantém a ótima relação de amizade entre os dois. Já nessa fase inicial da história, é possível ver uma série de referências à cultura pop como a garrafa de Coca-Cola na geladeira, a bandeira do Esporte Club Noroeste de Bauru no carro de Nhô Tonico, as revistas The Spirit, de Will Eisner; Có!, do próprio Duarte; Peanuts, de Charles Schultz e as referências aos volumes da MSP 50 na cômoda abaixo da televisão.

Essa característica de referências adicionadas pelo autor enriquece bastante a obra, porque abre horizontes para o leitor mais informado de um lado e em contraponto, não cria enigmas narrativos para quem não está familiarizado com esses elementos, porque eles são um componente de acréscimo aos quadros em que aparecem, não um ponto nevrálgico da narrativa. Lembremos por exemplo os quadros em que temos o navio USS Cyclops, os aviões Avengers dos Estados Unidos e um outro avião do Reino Unido que não sei de que caso de trata. Todos eles são de casos reais de desaparecimentos inexplicáveis atribuídos a OVNIS, ETs, Triângulo das Bermudas, etc., mas mesmo que o leitor não saiba disso, se ele ler a história com atenção, chegará numa explicação parecida, algo que faça sentido dentro do universo da ficção científica que o autor propôs para a obra.

E aqui chegamos à questão do sentido. Por curiosidade, procurei saber a opinião de algumas pessoas a respeito da história e fiquei espantado com algumas falas. A mais estranha foi: “o que os ETs foram fazer na roça?“. Ora, esse é o tipo de pergunta mais estúpida que se possa fazer a uma história de ficção de brinca com abdução alienígena. Se fosse, numa cidade, o que os ETs iriam fazer lá então? Ficou claramente visível que eles queriam fazer testes no Chico, no Zé, no Torresmo e na Giserda, talvez como pesquisa científica, mas isso realmente importa? Se os ETs têm, nesse universo fictício, a oportunidade de chegar ao planeta Terra, por que diabos eles não podem abduzir caipiras e animais da roça?

Há quem reclame do traço característico de Gustavo Duarte, um traço limpo e de evidente agilidade narrativa. Os desafetos apontam um “repetir a fórmula” de posicionamentos de objetos por quadro, movimentação, sequência e exploração de detalhes. Particularmente, acho isso uma grande falta de sensibilidade artística de quem reclama. De Gustavo Duarte eu já li Birds, Có! e Mosntros! e em cada uma dessas histórias vejo que o artista traz uma novidade característica, algo que se encaixa melhor naquela história. A pergunta que se deve fazer é: essa história precisa de quadros abarrotados? O que está sendo narrado nesse momento? Se o autor é um adepto das narrativas visuais, não é natural que ele ISOLE OS MOVIMENTOS, deixando claro para o leitor ou observador que aquilo é o que realmente importa?

Há quem se esqueça que apesar de um quadro completamente desenhado ser agradável aos olhos, ele é bastante distrativo. Com as personagens em “movimentos livres” é possível dar maior significado ao projeto do autor, sem preâmbulos estéticos. E vejam bem: eu adoro quadros preenchidos, bons cenários, ambientes ricos em detalhes, mas cada caso é um caso. Se você vai ler um quadrinho P&B, você não deve cobrar cor. Se você vai ler uma narrativa inteira ou parcialmente visual, você deve entender que a arte e a movimentação das personagens é a alma da história, e no caso de Gustavo Duarte, o modelo que ele adotou para si é o dessa arte crua e limpa, que visa a agilidade, a ação quase desconectada de seu cenário. E é fácil perceber que o autor abriu concessões para esse álbum, basta vermos os quadros da cozinha, a referência ao milharal de Sinais e a parte final da obra, quando Chico e Zé Lelé conseguem fugir das naves dos aliens.

Pavor Espaciar é uma história interessante em todos os sentidos. As já citadas referências à cultura pop, o tom cômico da história, o “fator fofuchismo” que permeia a relação entre Chico, Zé, Torresmo e Giserda, a ameaça e a finalização. Confesso que num olhar para a linha sequencial de eventos é possível ver uma reticência na história, que apensar de bem conectada visualmente sofre um pouco com as conexões entre os blocos de roteiro (num sentido lógico-narrativo), um problema causado pelo número de páginas (que são poucas, para uma narrativa parcialmente visual) e pela ambição de Gustavo Duarte em querer acrescentar o máximo de obstáculos e dificuldades à jornada de Chico, Zé Lelé, o porco e a galinha. Porém, essa reticência não me incomodou em absolutamente nada, de modo que para mim a história se mostra fechadinha, uma aventura que já reli alguma vezes e que entrou facilmente para o meu hall de “HQs do coração”.

Chico Bento – Pavor Espaciar – Brasil, 2013
Roteiro: Gustavo Duarte
Arte: Gustavo Duarte
Editora: Panini Comics, Graphic MSP, Mauricio de Souza Editora
Páginas: 82

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.