Crítica | Chinatown (1974)

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Todos que assistem a Chinatown reagem instantaneamente ao final, que, por conseguinte, virou o grande marco do filme, uma grande finalização para uma diferenciada história de investigação. E, na verdade, são os momentos mais pesados do longa que o marcam como um todo, principalmente por ser filmado de forma mais simples — sem uso de grandes técnicas de filme noir, ou algum tipo de caricatura de filmagem europeia, usadas nos filmes mais violentos da época. Tudo nele é sobre o fundo do poço da humanidade, se me for permitido o trocadilho. Sobre as necessidades básicas dos seres humanos e como tudo tomou uma forma polida com a sociedade moderna. Como, com muito mais artifícios, as pessoas passaram a satisfazer a essas necessidades, e como até isso se torna uma forma rentável para terceiros. Como é o caso de Jake Gitter (Jack Nicholson), detetive particular principalmente contratado – assim até hoje sabemos que funcionam essas profissões – por senhores e senhoras dispostos a descobrir possíveis adultérios cometidos por seus cônjuges.

Quando se envolve em um caso com o engenheiro chefe de uma grande empresa de distribuição de água em Los Angeles, a história começa a ganhar diferentes proporções, apesar de mostrar a que veio logo de início, abrindo com uma imagem nada discreta de um casal fazendo sexo no mato. Logo Evelyn Mulwray (Faye Dunaway) entra na história e tudo se conecta. Roman Polanski, um dos mais conceituados diretores poloneses ao lado de Krzysztof Kieslowski, desenvolve uma parábola sobre as necessidades humanas e as leis da moral. A ironia já começa quando o caso principal do filme é sobre um poderoso chefão da distribuição de água, em Los Angeles, que morre afogado em uma cidade que vive problemas pela falta de água. Dessa forma o roteiro por Robert Towne nos faz entrar em algo não tão desconhecido assim: a ganância dos poderosos para obter mais poder ainda.

Pouco a pouco, enquanto Jake Gitter vai conseguindo adentrar no caso e arrancar de Evelyn suas verdades escondidas, somos apresentados a muito mais que a “simples” ganância. Nos é mostrado a origem dela. A grande diferença do roteiro de Towne para qualquer outro filme de investigação é isso: ele não se contenta em mostrar o mal, ele quer achar o porquê. E então Polanski vai nos mostrando tudo. Todo o lado sombrio dentro das pessoas, principalmente essas que tanto buscam o poder a todo custo. Sendo o desenvolvimento do filme, sim, muito sombrio, e a direção do polonês não alivia. Não há jogos de câmera, não há cortes, não há brincadeiras: Polanski mostra tudo. Uma das cenas que marcam o longa é o corte no nariz de Jake, filmado em apenas um take, a faca passando, o sangue esborrando, e o detetive perdendo uma parte do nariz.

E, apesar de muito técnico e conhecedor do que faz, Polanki não exagera, ele dirige Chinatown de forma simples. Ele usa as técnicas básicas de cinema para criar todas as atmosferas presentes no roteiro de Towne. E isso, nesse caso, é seguir o caminho oposto ao do roteirista, que cria uma história labiríntica e profunda, e sabe disso. A impressão que passa é que o brilhantismo do roteiro em algum momento subiu à cabeça de Towne, fazendo-o exagerar, imergir em uma série de cenas altamente teatrais, verborrágicas e metaforicamente super-estilizadas. Enquanto isso a direção segura o pé na embreagem e contém o filme de ir por água abaixo (perdão pelo trocadilho de novo) – apesar de não conseguir evitar exageradas cenas como a das tapas de Jake em Evelyn.

Apesar de todos os exageros o filme continua com a força de seus significados mais profundos. Continua com força por tudo que tem a dizer sobre seres humanos, suas vontades: de amor, de realização financeira, realização profissional, e, no mais profundo dos sentidos, de saciar suas sedes. Chegando a pontos miseráveis, como assassinato e violência sexual, para conseguir todas essas vontades. Ainda, a vontade de Jake em prosseguir com o caso, pode-se dizer, é onde o filme ganha maior potência. Sua força de ir até o final de tudo e conseguir justiça. É com ele que Robert Towne e Roman Polanski montam a sua história de como a moral intrínseca aos seres humanos, quando procurada dentro do indivíduo, pode salvar o dia, por assim dizer. Pode.

Ou não…

Chinatown – EUA, 1974
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Robert Towne
Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Perry Lopez, John Hllerman, Darell Zwerling, Diane Ladd, Roy Jenson, Roman Polanski, Richard Bakalyan, Joe Martell, Bruce Glover
Duração: 130 min.

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...