Crítica | Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível

“As pessoas falam que nada é impossível, mas eu faço nada todo dia.”

Dentro do Bosque dos 100 Acres, onde Christopher Robin brinca, o espectador, inicialmente, encontrará a encantada vizinhança das brincadeiras de infância do garoto. O longa-metragem, antes de tudo, relembra o público do sentimento inerente àquele lugar, nostálgico para os já afeiçoados com o universo retratado. No mundo de Christopher, um burro, cangurus, um coelho, uma coruja e um porco são alguns dos seus amigos mais próximos, vivenciando, ao seu lado, inúmeras aventuras, que, da mente criativa de A. A. Milne, inspirado no seu próprio filho, homônimo ao dono das pelúcias, foram direcionadas para o estrelato pelos estúdios Disney – ganhando adaptações cinematográficas, como duas feitas pela empresa “principal”, As Aventuras do Ursinho Pooh, de 1977, e O Ursinho Pooh, de 2011. Contudo, Christopher Robin cresceu, assim como a própria linha de produção da Disney, destinando várias das suas marcas e obras icônicas ao mundo dos live-actions. O crescimento, essa mudança da vida “infantil” para a vida “adulta”, não significaria, necessariamente, uma evolução, mas, mesmo assim, Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível é um daqueles casos de uma ideia realmente boa, possivelmente já trabalhada sobre outros personagens, mas nunca sobre aqueles que marcaram a infância tanto do próprio protagonista quanto de milhares de pessoas. Sobre quando relembrar a infância ameaça a segurança da nossa pacata e dolorosa vida adulta.

O resultado, porém, embora não consiga prosseguir muito além de ideias boas, alcança momentos que, particularmente, atingem em cheio o espectador. O diretor Marc Forster, para alcançar esse laço emocional do público com a obra, trabalha muito bem a nostalgia como forte motor para o funcionamento dramático da fita. O filme, embora lançado com uma classificação indicativa livre para todos os públicos, é feita especialmente para os que cresceram com esses personagens, presentes em gerações de infâncias, ou então, com aqueles adultos que, quando crianças, possuíam brinquedos e pelúcias como esses, inesquecíveis. A relação de Christopher Robin, interpretado na vida adulta por Ewan McGregor, com os moradores do Bosque dos 100 Acres ganha contornos desse tipo, evidenciando-se a puerilidade de um tempo no qual o maior problema de nossas vidas era tirar um urso amarelo de dentro de uma toca de coelho. A memória afetiva nos segura através de melodias que retornam, como o tema de Winnie the Pooh – que marca também o retorna de um dos irmãos Sherman, Richard Sherman, na trilha sonora -, além de pedaços de algumas das canções mais famosas envolvendo os personagens dessa franquia, ressurgindo nos momentos certos, em situações que nos teletransportam para dentro das histórias de A. A. Milne, para dentro das animações que tanto amamos, e, portanto, para dentro do filme.

A história da fita, para abranger toda essa nostalgia um tanto quanto renovadora, saca das mangas a contraposição da infância de Christopher Robin com a sua vida adulta, deixando de ser a criança de outrora para ser o homem do hoje, preocupado demasiadamente com o futuro e, infelizmente, esquecido de certas passagens do passado, algumas das melhores de sua trajetória até então. São centenas as jornadas que presenciamos com o protagonista do filme e esses personagens. Como Christopher poderia se esquecer, afinal, do Ursinho Pooh (Jim Cummings)? Da mesma maneira como nos esquecemos dos nossos, relembrando, esporadicamente, um ou outro personagem dos inúmeros que fizeram parte de nosso cotidiano por anos. Um Reencontro Inesquecível possui, dessa maneira, certo potencial de trabalhar pessoalmente com o espectador, fazendo-o se relembrar, possivelmente, das brincadeiras de sua infância, das amizades “imaginárias” que desenvolveu e das histórias que contou para si mesmo. É quase uma obra que convida o espectador a reaver seus amigos de infância e brincar, mais uma vez, com eles, transformando-nos novamente em crianças de oito anos. Com essa mistura da nostalgia de infância, bastante pessoal do espectador, com a nostalgia dada pela presença pública da franquia do Ursinho Pooh na vida de gerações, Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível tem as cartas certas para realmente fazer jus ao inesquecível do título.

O grande problema da peça, para contrariar isso, é tratar como esquecível uma saga inexoravelmente inesquecível. A história, idealizada por três pessoas, seguiu para um roteiro criado por três, sem eliminar o enredo bastante previsível, desenvolvido sobre uma fórmula convencional, que, no final das contas, impede a obra de alcançar seu potencial. O que acontece é que, para buscar o contato com o espectador que tanto quer, Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível precisava se agarrar ao clichê da família deixada em segundo plano a favor do trabalho. O pior não é nem a existência desse clichê, mas o fato desse clichê ser ruim, visto que, apesar de Evelyn (Hayley Atwell) e Madeline (Bronte Carmichael) ficarem furiosas com Robin, a frustração é passada ao espectador de uma maneira rasa, sem realmente nos convencer. Além disso, mais para frente, a obra encapsula para si diferentes batidas que deixam a narrativa previsível ao máximo, com um discurso emocionante conclusivo mais piegas do que verdadeiramente tocante. Ademais, ao intercalar a vida adulta de Christopher com as aparições dos personagens clássicos, o filme trabalha de modo contrário ao funcionamento dessa trama principal, pois o público quer que a ação prossiga, independente de onde ela estiver indo, pois saber disso é ter que encarar o fato de que existe uma história muito menos interessante e extremamente menos inspirada sendo contada.

O roteiro, porém, caminha por uma vertente inesperada, em um primeiro momento, retirando o caráter imaginativo por trás dessas criaturas e tornando-as verídicas. A decisão é, de um lado, ousada, mas, de outro, preguiçosa. De qualquer forma, a escolha dá margem a situações mais genéricas sobre esses personagens, que não esperaríamos ver sendo trabalhadas sobre essa mitologia, que, até então, estava completamente a parte em seu próprio mundinho. Quando Pooh e companhia tornam-se figuras reais, não mais apenas do imaginário de Christopher Robin, a obra ganha uma vertente cômica bem óbvia, já explorada em outras narrativas. Ao mesmo tempo que é, agradando ao público, auto-indulgente tornar esses bichinhos de pelúcia personagens “reais”, no sentindo comum da palavra, safando a obra de retirar de um modo totalmente agressivo essas criaturas da infância de Christopher, a decisão empobrece o trabalho de conflito entre o mundo da infância e o mundo da vida adulta, colocadas para um embate, tão atemporal quanto repetitivo. Apesar disso, a escolha realmente rende momentos impagáveis, parte de uma veia cômica bem apurada do filme e decidida, por Marc Forster, a ser explorada o máximo possível. Por exemplo, a atenção dada a Ió (Brad Garrett) é maravilhosa, renovando-se constantemente, pois, a cada dois minutos, uma frase de efeito auto-depreciativa, bastante depressiva, mas charmosa, surge para nos relembrar da visão díspar e única do personagem.

A espirituosidade inerente aos momentos menos chamativos e imaginativos da obra – fluindo consideravelmente por conta da participação dos bichos de pelúcia, como o saltitante Tigrão, novamente com a voz de Jim Cummings, e o acovardado Leitão (Nick Mohammed, em uma interpretação não tão boa quanto a de John Fiedler) -, é o que mantém a chama do espectador acesa, mesmo quando o melhor da aventura já se foi e chegamos a uma segunda metade um pouquinho enfadonha. O texto consegue tirar ótimas soluções desses personagens. Já a problemática de fato ocorre porque a narrativa é dividida em duas histórias claríssimas, semelhantes e diferentes. Em um primeiro momento, Robin é chamado para ajudar os seus amigos do Bosque dos 100 Acres, já em um segundo, Pooh, o urso de pequeno cérebro, e companhia são encarregados de salvar o garoto com face de homem, mas um coração, em algum lugar daquele peito, de criança. Sob um dos pontos de vista, a grande questão do filme é que o reencontro e retomada do caráter juvenil à vida de Christopher já é bem resolvida logo nessa primeira metade, sem manter o longa-metragem com pontuações ricas o suficiente para continuarem a serem exploradas – como seria a situação caso, hipoteticamente, Madelaine fosse uma criança sem qualquer espírito de criança, também tendo de ser acordada para a vida “real”.

Em Busca da Terra do Nunca é um trabalho curioso na filmografia de Marc Forster, essencial para entendermos o funcionamento parcial de Christopher Robin. Quando o dramaturgo J. M. Barrie, responsável por Peter Pan, brinca com as crianças, a sensação é tão libertadora para o público quanto a de quando Christopher Robin está no Bosque dos 100 Acres, procurando por seus amigos perdidos. Os maiores acertos da direção de Forster estão nesses segmentos, após o ressurgimento do Ursinho Pooh, criando um desenvolvimento de personagem muito interessante, ao mesmo tempo que somos introduzidos aos moradores clássicos do Bosque dos 100 Acres, mas com novos designs, mais realistas, encantadores – Coelho (Peter Capaldi) e Corujão (Toby Jones) são as exceções. A cada reencontro, os nossos olhos brilham, assim como os do personagem de Ewan McGregor. Em termos de conflito, o contraste entre esses amigos, Robin e Pooh, em uma primeira instância, é perceptível. O desgaste do protagonista para com as trapalhadas de Pooh são gradualmente crescentes, com a paciência sendo, assim como mel, docemente esgotada. O retorno ao Bosque dos 100 Acres, por sua vez, é o ápice da obra. Os amigos estão novamente reunidos. A brincadeira pôde ser brincada. Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível, após isso, continua a acontecer, assim como a vida de Christopher, mesmo que o pote de mel já tenha sido devorado pelo público e estejamos completamente saciados.

Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível (Christopher Robin) – EUA, 2018
Direção: Marc Forster
Roteiro: Alex Ross Perry, Tom McCarthy, Allison Schroeder
Elenco: Ewan McGregor, Jim Cummings, Hayley Atwell, Brad Garrett, Bronte Carmichael, Mark Gatiss, Nick Mohammed, Peter Capaldi, Toby Jones, Sophie Okonedom, Oliver Ford Davies, Sara Sheen, Ronke Adekoluejo, Adrian Scarborough, Roger Ashton-Griffiths, Ken Nwosu, Orton O’Brien
Duração: 104 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.