Crítica | Chumbo Grosso

estrelas 5,0

Com o sucesso arrasador de Todo Mundo Quase Morto no Reino Unido e por algumas fanbases nos EUA, a carreira de Edgar Wright preparava-se para decolar. Seu próximo projeto retomaria a parceria com Simon Pegg e Nick Frost, em mais uma sátira ácida de um gênero popular de Hollywood, preenchendo o segundo capítulo da Trilogia do Cornetto: Chumbo Grosso, provavelmente o mais hilário filme policial já feito.

Novamente roteirizado por Wright e Pegg, a trama nos apresenta a Nicholas Angel (Pegg), o melhor e mais inteligente policial que Londres já viu, cujas habilidades incríveis lhe garantem uma reputação sem precedentes no país. Na verdade, Angel é tão eficiente em seu trabalho que acaba envergonhando o restante do preguiçoso departamento, que acaba se vendo na necessidade de se livrar do sujeito para que suas próprias imagens não fiquem tão degradas. Angel é então transferido para a pacífica vila de Sandford, na cidadezinha do interior de Gloucestershire. De início parece um desperdício da grande habilidade de Angel, já que a cidade tem uma taxa de crime baixíssima, até o momento em que começa a desvendar uma sinistra conspiração que envolve todos os moradores.

O que separa os filmes da trilogia do Cornetto de outras paródias do gênero é o fato de Wright tratar seu filme como um do gênero específico: Todo Mundo Quase Morto era um filme de zumbi, e que hora e outra era até mesmo capaz de provocar tensão e pavor, da mesma forma com que Chumbo Grosso funciona muito bem como um filme de ação. A chave para o sucesso cômico está em encontrar os absurdos das diversas situações e a autorreferência, como o fato de o empolgado parceiro de Angel, Danny Butterman (Nick Frost), ser um aficcionado pelo gênero e constantemente referenciar filmes como Caçadores de Emoção e Bad Boys 2, chegando ao ponto de simular cenas específicas de um destes durante um tiroteio.

A conspiração que envolve os moradores de Sandford é outro quesito genial, já que vira de ponta cabeça toda a minuciosa e detalhada investigação de Angel, que tece uma rede de acontecimentos muito lógica para explicar os acontecimentos e a onda de assassinatos que assola a vila… Até termos a revelação de que tudo aconteceu por outro motivo, muito idiota e hilário. Aliás, a presença de Timothy Dalton como um dos antagonistas aqui é divertidíssima.

De cara, já é impressionante observar a diferença brusca entre os personagens que Pegg interpreta. O banana desleixado Shaun dá espaço ao mega organizado e até robótico Nicholas Angel, com quem o ator fornece uma seriedade e disposição física notáveis, principalmente durante as cenas de ação, onde Wright revela-se um conhecedor nato. Das perseguições a pé até corridas de carro pelo campo, Wright é dono de uma câmera agitada e uma montagem frenética que é habil em unir dois planos e passar a impressão de continuidade ininterrupta (algo que ele faz muito bem no humor também, como a chegada de Angel que é demarcada por jump cuts inteligentes), ao mesmo tempo em que é capaz de impressionar com a eficiência, quase um Bourne mais humorado.

Chumbo Grosso talvez seja o melhor exemplar da trilogia, oferecendo um longa que funcione de forma eficiente como um filme policial e que atinge picos de brilhantismo no quesito paródia.

Publicado originalmente em 05/08/2016.

Chumbo Grosso (Hot Fuzz) — Reino Unido, 2007
Direção: Edgar Wright
Roteiro: Edgar Wright e Simon Pegg
Elenco: Simon Pegg, Nick Frost, Timothy Dalton, Jim Broadbent, Rafe Spall, Paddy Considine, Olivia Colman
Duração: 121 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.