Crítica | Chuvas de Verão (1978)

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A crítica e a análise fílmica não devem descer pelo ralo do adjetivo fácil, nem ceder para a paixão: é preciso olhar acurado, sensibilidade estética e conhecimento de mundo. Mesmo quando o filme opera no campo mais agudo do afeto, o crítico deve olhar cientificamente para o objeto, identificando de maneira racional os fatores que fizeram a obra ser bem-sucedida ou não. No entanto, quando aparece um filme como Chuvas de Verão, dissecar a obra apenas de forma cerebral se torna uma tarefa delicada. De arquitetura franca e emotiva, o longa de 1978 é naturalista apesar da encenação vigorosa. Apostando mais na empatia do que em qualquer outro recurso, há evidente e apurado detalhamento técnico, mas é preciso, sobretudo, amar aquelas personagens. Foi, portanto, da fusão entre razão e emoção que o belíssimo Chuvas de Verão se fez.

Primeiro: o filme de Cacá Diegues é, cena a cena, muito bem estruturado (tanto a direção quanto a composição da mise en scène). Segundo: seja o roteiro, seja a atuação dos atores, tudo é feito de matéria viva e sentimental. Não será exagero dizer que é um dos melhores filmes nacionais e, certamente, o melhor de Diegues – diretor basilar para a nossa autocompreensão enquanto brasileiros.

Nos levando de trem para o subúrbio carioca (uma tragicômica metáfora do Brasil), Diegues nos apresenta Afonso, senhor recém aposentado, viúvo e muito bem quisto pelos amigos. Acalentado pelo sonho da aposentadoria enfim conquistada, ele está pronto para sentar na calçada e ver o tempo passar tranquilamente. Porém, logo em seu primeiro dia como pensionista, uma série de acontecimentos inusitados o obriga a adiar o descanso almejado para conhecer um pouco mais sobre si mesmo e seus colegas.

É assim, falando de um idoso e sua vizinhança, que Chuvas de Verão abraça os expectadores em vários níveis. Seja analfabeto ou erudito, jovem ou maduro, todos são capazes de compreender as críticas feitas ao sistema compressor que oferece aos idosos uma caneta dourada – pela manutenção do capitalismo – e um restante de vida com cara de pijama puído e resignação. Cacá não só passa no exame do discernimento, satisfeito por botar suas lentes em personagens à margem, como também opera o enredo de maneira sutilmente engajada, injetando adrenalina num corpo que a sociedade deseja inerte. Não há nada para fazer com uma caneta dourada nem o pijama (símbolo contrário à atividade, à ação) vai impedir os velhos de viverem uma nova e vibrante fase.

Para isso o filme ainda tem a audácia de brincar com gêneros como suspense e comédia de costumes que poderiam, fatalmente, diluir o drama real da narrativa. Mas o roteiro é inteligente e usa os outros gêneros como molas propulsoras de uma mensagem muito mais poderosa: viver é fundamental.

O filme adentra a rotina das personagens (uma incrível galeria de tipos carismáticos) e conhecemos suas frustrações, mas não em termos deterministas, pois a vida é cheia de chuvas de verão que vêm mas logo passam. Brasileiro até a raiz, Chuvas molha nossa experiência com noticiário policial, canção popular, teatro de revista, carnaval…

Fundamental ressaltar a atuação do grande Joffre Soares como Afonso. Trata-se de uma presença cênica forte e verdadeira, quase um não-ator tamanha franqueza ao encarnar o papel. Sua figura traz tudo o que Diegues necessitava para a criação de um tipo fascinante que recompõe a cada contratempo uma camada de ternura. Com igual ternura, a incrível abordagem sobre a redescoberta da sexualidade fica a cargo de um Joffre Soares corajoso e de uma Miriam Pires nada menos do que excepcional. Seja na cena em que Afonso observa a transa dos jovens, seja na cena final, Diegues não teme a honestidade de sua história e o caminho tabu que precisaria desbravar para nos tocar o coração. E ele conseguiu.

Chuvas de Verão é um filme para ser assistido com “os olhos do coração”, como diz a música de Belchior. Permita-se conhecer uma gente que viveu e sofreu, mas que aprendeu a ter fé e humor. Propõe-se um pacto: sua atenção por cada pequeno drama e sua vida cinéfila será plenamente recompensada. Chuvas de Verão é imperdível.

Chuvas de Verão – Brasil, 1978
Direção: Cacá Diegues
Roteiro: Cacá Diegues
Elenco: Joffre Soares, Miriam Pires, Gracinda Freire, Paulo César Peréio, Marieta Severo, Daniel Filho, Cristina Aché, Roberto Bonfim, Rodolfo Arena, Sadi Cabral, Lourdes Mayer, Luis Antonio, Regina Casé, Emmanuel Cavalcanti, Jorge Coutinho, Carlos Gregório, Procópio Mariano, Zaira Zambelli
Duração: 88 min.

MAURÍCIO ROSA . . . Maurício Rosa é um cara do século 19 ou dos anos 70 ou do futuro, mas, definitivamente, não é um homem do aqui e agora. É poeta ocasional e brinca com as palavras para produzir textura e afeto. Tem 26 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.