Crítica | Cidade das Mulheres

estrelas 3

Cidade das Mulheres (1980) é, curiosamente, uma viagem de Fellini ao universo machista, tomando como ponto de partida a visão feminina. Depois de exaltar e humilhar a feminilidade em seus filmes, o diretor se dispôs a confrontar a própria visão que tinha das matronas e modelos, das mammas e nonnas que filmou no decorrer dos anos, não perdendo também a oportunidade de criticar e expor os anseios, medos, fetiches e padrões sociais destinados às mulheres (algo nas entrelinhas de As Tentações do Dr. Antônio). Até o mito da mulher ideal é trabalhado pelo diretor, culminando com o desencanto típico de tudo o que é imaginado: a realidade se apresenta mais trágica e menos acolhedora que o objeto idealizado, cabendo ao protagonista um único caminho: a fuga.

Marcello Mastroianni, cuja última parceria com Fellini fora em 1969, em Anotações de um Diretor, assume mais uma vez o papel de alter-ego do cineasta, carregando também o bônus da invenção de Fellini, que colocou na personagem não apenas parte de suas experiências com mulheres, mas também inventou situações e adicionou características da ideologia machista que ele próprio não compartilhava. Sendo assim, Cidade das Mulheres é um tour por tudo o que Fellini era e não era; uma mostra das várias facetas masculinas.

O início do filme já traz uma simbólica alusão sexual (o trem entrando no túnel) e curiosamente também nos apresenta o início da viagem onírica, desvendada apenas no desfecho da obra. Mastroianni esbanja simpatia e atua com uma espantosa naturalidade considerando o tipo de texto que tinha em mãos.

Sua personagem segue a libidinosa mulher que o atraíra no trem e chega à Cidade das Mulheres, uma espécie de recanto onde o domínio masculino não existe e a feminilidade é exercida em diversos níveis: libertários ou socialmente padronizados. Por isso é que encontramos mulheres representadas como donas de casa (também satirizadas em um pequeno esquete), feministas, lésbicas, artistas, ninfomaníacas. O desfile dos clichês é imenso e vai tornando a sessão bastante curiosa e divertida.

Fellini disse que seria mais interessante se o público não tentasse analisar a obra, mas a visse apenas por seu caráter onírico e psicológico. Tentaremos não dissecar cada elemento do filme, mas há sequências que precisam ser comentadas e trazidas à razão (quem resiste?), dada a força da mensagem que apresentam e a essência que trazem para o filme. Como exemplos, cito a luta pela mulher ideal e o escorregador da memória, talvez as mais icônicas sequências do filme no sentido de identidade.

O Snàporaz de Mastroianni se vê em um lugar que, em tese, sempre quis estar, mas ao mesmo tempo é amedrontado pela força e pela “nova constituição” das mulheres. Ele então quer fugir delas. A música de Luis Bacalov tem um papel muito importante nesse processo e reitera aquilo que comentamos no texto de Casanova de Fellini: apresenta um novo momento musical do diretor, com destaque para elementos distintos na trilha, com música pop e ópera, além da música incidental. O filme ainda traz uma espécie de antecipação de Ginger e Fred (1986), com Mastroianni dançando para um grupo de mulheres, imitando Fred Astaire.

O cenário mais imaginativo do filme é também aquele que lhe traz a cena mais bela: o escorregador da memória. Snàporaz desce por ele e visualiza momentos de seu passado marcado por mulheres, quase um retorno ou um outro ângulo da descoberta sexual mostrada em Oito e Meio, Roma de Fellini e Amarcord. Dentre essas cenas, temos uma em que o pequeno Snàporaz e seus amigos espiam uma mulher colocar sua roupa de banho antes de entrar no mar. Tudo nessa cena é belo: a estupefação dos meninos (embora estejam de costas), a impressionante fotografia e o próprio significado e contraste de algo tão terno para a “violência” das relações homem-e-mulher da vida adulta do protagonista.

Penso que o filme deveria ter terminado justamente no momento em que Snàporaz chega ao chão, após descer do escorregador, e é capturado. Embora eu veja algo muito positivo no significado da sequência da mulher ideal, que vem justamente depois disso, poderia muito bem viver sem ela a ter uma sucessão arrastada de eventos e uma entrega bastante mastigada no final, com o protagonista acordando e revelando que tudo aquilo fora apenas um sonho. Parte do que Fellini construíra até o momento final do escorregador é destruído pelo que vem depois, seja pelo ritmo desnecessariamente arrastado, seja para um deslocamento anticlimático que essas cenas nos levam, o que é uma pena, já que todo o restante é uma verdadeira crítica e divertida viagem pelo misterioso mundo feminino, uma aventura digna de um grande espetáculo.

Cidade das Mulheres (La città delle donne) – Itália / França, 1980
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Bernardino Zapponi, Brunello Rondi
Elenco: Marcello Mastroianni, Anna Prucnal, Bernice Stegers, Jole Silvani, Donatella Damiani, Ettore Manni, Fiammetta Baralla, Hélène Calzarelli, Catherine Carrel, Marcello Di Falco, Silvana Fusacchia.
Duração: 139 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.